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Alvim caiu no que imaginou ser seu auge

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Ex-secretário especial da Cultura Roberto Alvim (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil Ex-secretário especial da Cultura Roberto Alvim

Durou menos de 12 horas o intervalo entre o clímax e o ocaso da gestão de Roberto Alvim na Secretaria Especial de Cultura. O vídeo criado meticulosamente para lançar o Prêmio Nacional das Artes, mais ambicioso projeto de sua passagem relâmpago pela sub-pasta, acabou por condenar o ex-diretor de teatro a voltar às hostes dos desempregados.

E não é à toa que aqui cita-se a profissão original de Alvim. O ex-secretário é um performer. Do alto de mais de duas décadas de premiada carreira como encenador, conhece bem a importância da sonoplastia, do figurino e da cenografia para transmitir a intenção dramática de um autor. Sem falar na composição do personagem, na caracterização do ator e na constituição do texto para atender a tal fim. Todo esse cuidado pôde ser conferido no tal vídeo que ele divulgou na noite da última quinta-feira (16).

E não só na apropriação, digamos assim, de um trecho de discurso do ideólogo nazista Joseph Goebbels, a evidência mais alardeada. Mas também na disposição dos móveis no cenário, no enquadramento da câmera (repetindo o corte de uma famosa fotografia do alemão), na empostação da voz do ex-secretário e até na trilha sonora incidental (a ópera Lohengrin, de Wagner, a preferida de Hitler). Por isso mesmo, é de fazer corar vedete a desculpa de Alvim que tudo não passou de uma grande coincidência.

Certamente, o que ele não esperava é que a excelência na emulação do universo pretendido transbordasse a intenção de mostrar-se competente e leal ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Afinal de contas, a louvação a regimes totalitários e a propagação de ideias absurdas é corrente entre seus então pares na Esplanada dos Ministérios. Weintraub, Araújo, Salles e Damares, para além do titular do Palácio da Alvorada, são provas inequívocas que limites de razoabilidade inexistem neste governo.

No entanto, nenhum deles atingiu a um grupo tão caro ao presidente quanto a comunidade judaica. O embaixador de Israel no Brasil, Yossi Shelley, chegou a falar diretamente com o presidente para expressar o incômodo com o discurso. E não dimensionar esse risco foi o grande erro de Alvim no que imaginou ser sua grande cena, ou a “hora do close-up”, como diriam as estrelas da era de ouro de Hollywood.

Arrisco dizer que só existe uma pessoa mais triste com essa exoneração que Alvim, o próprio Bolsonaro, que classificou o incidente como “um pronunciamento infeliz”. O presidente encontrou no ex-diretor de teatro o verniz que precisava para seu nefando projeto para a Cultura no País.

Alvim mostrou-se disposto ao inadmissível para sinalizar dedicação e fidelidade caninas às ideias bolsonaristas. Fernanda Montenegro que o diga. Aliás, como verdadeira dama que é, ela não se pronunciou até agora a respeito da desdita daquele que a ofendeu gratuita e publicamente. E certamente não o fará.

A má notícia é que caiu Alvim, mas não o abominável projeto que Jair Messias tem para o setor. Exonerar o secretário de Cultura não significa que o presidente vá reconsiderar sua política de sufocar manifestações artísticas, implementar a censurar, promover o dirigismo cultural e esvaziar o financiamento da arte, como vem fazendo.

Significa apenas que ele já está em busca de um outro que tope a tarefa, por alguns bons trocados e poucos minutos de fama e poder. A substituição de Ricardo Vélez por Abraham Weintraub no Ministério da Educação dá uma boa ideia do que ainda pode acontecer.

Uma coisa não se pode negar. Nos sete meses em que integrou o governo Bolsonaro, Alvim conseguiu realizar o sonho de todo artista: se imortalizou. Escreveu seu nome na história da cultura do País – não exatamente por méritos ou feitos, mas exatamente pelo oposto deles.

Admito que imaginei ser sua pretensão tornar-se uma “Leni Riefenstahl dos Trópicos”. Mal sabia eu que sua ambição era muito maior. Sua cobiça não era do campo das artes, onde a cineasta alemã conseguiu ser referência, e sim no campo da estratégia da dissimulação e do ódio, onde imperou o homem a quem arremedou em seu canto do cisne.

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