Ana Márcia Diogénes é jornalista, professora e consultora. Mestre em Políticas Públicas, especialista em Responsabilidade Social e Psicologia Positiva. Foi diretora de Redação do O POVO, coordenadora do Unicef, secretária adjunta da Cultura e assessora Institucional do Cuca. É autora do livro De esfulepante a felicitante, uma questão de gentileza
Foto: Pexels/Mikhail Nilov
Imagem ilustrativa de apoio
Certa vez, durante o café da manhã em uma pousada, o assunto da mesa de hóspedes onde eu estava monopolizava o pequeno ambiente. Nosso tema era do que sentíamos medo. A funcionária, que sempre ficava ali por perto, entrou na conversa mostrando um vídeo no celular em que seu filho, um rapaz alto, de uns vinte e poucos anos, corria com medo de um palhaço.
No vídeo era possível perceber que alguns amigos do jovem riam, enquanto um deles registrava a cena. O palhaço entrou na suposta brincadeira e corria atrás daquele que virou o alvo das atenções em uma praça.
Aquilo que parecia divertir a todos naquele cenário – ou quase todos, uma vez que a risada do rapaz perseguido pelo palhaço era nervosa – é o que nos últimos anos foi batizado de bullying.
Reconhecido como crime no Brasil desde 2024, o bullying, caracterizado por agressões físicas ou psicológicas, geradoras de humilhação ou intimidação, pode levar à reclusão e multa.
E está enganado quem pensa que só podemos usar a palavra bullying para casos registrados na infância. A frequência maior se dá em crianças, mas este tipo de violência, repetitiva, pode se dar na vida adulta, tanto em casa, como no trabalho ou entre amigos.
As imagens do rapaz correndo com medo do palhaço chamaram minha atenção para sentimentos que não são respeitados quando se é adulto. Seja medo de injeção, barata, rato, tirar sangue, palhaço, alma, filme de terror, cortar unha... Não existe medo bobo: é uma emoção, um assustamento individual de cunho inteiramente íntimo.
Como uma reação instintiva, nem sempre é racional. E está tudo bem, não precisa ser mesmo. Alguns têm medo de barata (como eu), mas conseguem jogar a sandália em cima e eliminar aquele sentimento (eu não). Outros vão abandonar o carro no meio de uma avenida movimentada, caso perceba que tem um inseto desses no veículo.
Não se deve brincar com o medo de ninguém, criança ou adulto. Não se deve rotular como exótico aquilo que causa sofrimento a alguém por meio de reações aceleração dos batimentos cardíacos, suores frios, bloqueio da fala e outros sintomas.
Quando lembro da risada dos amigos do rapaz que temia palhaços, fico a imaginar quão assediado e intimidado ele deveria estar. Pessoas próximas a ele, que deveriam proteger seu bem-estar, fizeram o contrário: assediaram a ponto dele ter vergonha do próprio medo. Isto é terrível, ser constrangido por sentir-se amedrontado com algo externo a si.
Deixo aqui uma sugestão: cada um, ao perceber que alguém está sendo ridicularizado por ter medo de algo, deveria se pronunciar que ridículo é quem humilha o outro por isso. Com certeza íamos conviver com menos casos de bullying adulto.
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