Arthur Gadelha é crítico de cinema do O POVO, ex-presidente da Aceccine e membro da Abraccine. Acompanha as estreias nacionais e os passos do cinema cearense, cobrindo eventos internacionais como Cannes, Gramado, Globo de Ouro e Oscar. Nessa coluna, propõe uma escrita mais imersiva com análises e reflexões pessoais, trazendo também bastidores de filmes, festivais e premiações, além de refletir sobre o papel da crítica de arte no mundo
Foto: Divulgação/Retrato Filmes/Vitrine Filmes
Stellan Skarsgard em "Valor Sentimental" e Wagner Moura em "O Agente Secreto"
Na manhã desta terça-feira, 27, a Academia Britânica de Artes Cinematográficas e Televisivas (BAFTA) anunciou as produções indicadas à 79ª edição da sua premiação anual.
Apesar da ausência de Wagner Moura na pré-lista de atuação ter desanimado a equipe brasileira, "O Agente Secreto" surpreendeu com uma indicação na categoria de Melhor Roteiro Original, além da já esperada em Melhor Filme em Língua Não-Inglesa.
Quando se pensa nas chances reais de uma vitória, porém, surge a força colossal de "Valor Sentimental", filme norueguês que já avança na frente pela sua origem europeia com sete indicações, incluindo as prestigiadas de Filme e Direção. Pela lógica, já está ganho então, certo? A resposta pode não ser tão simples assim.
Em 1988, o vencedor do Bafta de Melhor Filme foi uma obra falada em língua não-inglesa ("Jean de Florette", de Claude Berri).
Ao longo da cerimônia, o filme foi abraçado: venceu ainda Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Fotografia. Mas na categoria internacional, perdeu para "O Sacrifício", do mestre russo Andrey Tarkovski.
Provavelmente, isso aconteceu pelo desequilíbrio de atenção entre as obras, principalmente pela existência de outro filme estrangeiro tão forte na categoria em que tinha a única chance de vitória.
Em 2007, "O Labirinto do Fauno", de Guillermo Del Toro, venceu três prêmios no Oscar (Fotografia, Direção de Arte e Maquiagem), mas perdeu na categoria internacional para "A Vida dos Outros", de Florian Henckel von Donnersmarck.
No Bafta, quando o vencedor de filme estrangeiro venceu também a categoria principal ("Nada de Novo no Front" em 2022 e "Roma" em 2018), foi num contexto em que não havia outro forte concorrente na categoria não-inglesa.
Foto: Fotos Assessoria Kasper Tuxen Andersen
Stellan Skarsgård e Renate Reinsve vivem pai e filha em conflito em "Valor Sentimental"
Não podemos dizer o mesmo em relação ao "O Agente Secreto", que não tem nem uma semana que estreou nas salas do Reino Unido e conseguiu uma indicação em Roteiro que não aconteceu no Oscar, e que aqui em tantas apostas pareciam pertencer ao iraniano "Foi Apenas um Acidente", de Jafar Panahi. Pode não haver uma paixão britânica pelo filme, mas há uma simpatia notável.
Se a academia abraçar "Valor Sentimental" no próximo dia 22 de fevereiro, data da entrega dos troféus, quem sabe não pareça justo dar pelo menos um prêmio para o filme brasileiro? A última e única vez que um filme brasileiro venceu essa categoria foi em 1999, com "Central do Brasil", de Walter Salles. Em 2025, "Ainda Estou Aqui" foi indicado, mas perdeu para "Emilia Perez".
Ironicamente, essa lógica de contar com a vitória do rival em categorias "mais importantes", abriria um forte espaço para a trama de Kleber Mendonça Filho se tornar favorito ao Oscar depois de já ter vencido Critics Choice e Globo de Ouro. Principalmente, porque a vitória de Stellan Skarsgard (astro de "Valor Sentimental") já parece certa tanto no BAFTA quanto no Oscar.
É uma análise precoce, claro, mas é uma ótica importante para entender como funciona essa dinâmica tão complexa da temporada de premiações. Afinal, a maior parte dos votantes internacionais do Oscar está justamente na base europeia da Inglaterra, tornando o BAFTA o precursor mais robusto para sentir o que poderá acontecer adiante.
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