Danilo Fontenelle Sampaio é formado em Direito pela UFC, mestre em Direito pela mesma Universidade e doutor em Direito pela PUC/SP. É professor universitário, juiz federal da 11ª vara e escritor de livros jurídicos e infanto-juvenis
Danilo Fontenelle Sampaio é formado em Direito pela UFC, mestre em Direito pela mesma Universidade e doutor em Direito pela PUC/SP. É professor universitário, juiz federal da 11ª vara e escritor de livros jurídicos e infanto-juvenis
Descobri que o inferno existe. E não, não tem tridente, nem lava, nem contrato vitalício com fauno nenhum.
A entrada é simples e fácil de achar. Basta um desviozinho de nada, uma tentaçãozinha cedida, uma cobiça sem maiores consequências e pimba! Olha só você entrando no inferno. Lá tem uma portinhola com uma catraca de academia — daquelas de braço molengão — e basta empurrar que você entra. Simples demais.
Mas tente sair. Vá, tente. A catraca te encara com a frieza de um porteiro de condomínio às 3h da manhã e diz:
— digital não reconhecida.
Ô inferno.
Lá dentro, tudo fede à eternidade burocrática. Me colocaram numa sala de espera. Cadeira de plástico bambaleante.
Para o meu tamanho e peso, era como se sentar num ponto de interrogação instável. O ar-condicionado cuspia vento quente, e as únicas revistas eram de quando Pelé jogava no juvenil e uma fotonovela. Em preto e branco.
Enquanto esperava o grande vaticínio infernal, ele apareceu, tomando um chá que soltava uma fumaça azulada e espessa — com cheiro de boldo, enxofre e talvez decepções não resolvidas da infância.
O atendente do Belzebu.
Tinha crachá torto, um fone Bluetooth que parecia fossilizado na orelha e um rabo arrastando no chão — meio caminho entre uma rasteirinha e uma lombriga com tédio, fazendo aquele vhss, vhsss de sempre.
Disse com um muxoxo cansado: — As regras daqui estão todas no folheto que receberam… é só ler o QR Code, tá bom? Tá tudo aí… sshuuuurb — e deu um gole longo, molhado e nojento no chá que bebia, sem tirar os olhos da tela do tablet flamejante.
Logo chegou uma caravana de mulheres de academia, bronzeadas de tubos, de top neon, tênis com luzinha, e olhares insinuantes que bolinavam as almas.
Algumas me fitaram lascivamente e molharam os lábios enrugados com uma mistura de libido com osteoporose emocional. Senti o aroma de naftalina e colágeno. Minha nuca se arrepiou como um gato assustado. Uuuuu...
Ô inferno.
Fui então enviado para uma farmacinferno. Comprar algo em uma das sucursais do reino das trevas fazia parte do flagelo. O receituário que me deram era manuscrito por um demônio de garras tremelicantes e, claro, faltava o carimbo. Tive que ir e voltar.
Cheguei ao balcão — vazio, evidentemente. Esperei uns bons 666 minutos até surgir uma diabinha com dentes de facetas demoníacas, longos e levemente pontiagudos — daquele tipo que sorri enquanto mede sua jugular.
— Próximô! — disse, mesmo estando só eu ali.
Entreguei a receita. Ela olhou, digitou, parou. A tela exibiu uma ampulheta girando desde o século passado. Ela assoprou o monitor como quem tenta limpar poeiras da antiguidade.
— Às vezes o sistema demora… uns milênios e já vai, tá?
Depois disse que sim. Tinha o Tormentex® – Alívio lento para sofrimentos eternos. Foi lá dentro. Não encontrou. Chamou outro diabo. Este pegou a receita como se fosse a primeira vez que alguém no universo apresentava aquilo.
Digitou tudo de novo. Disse que tinha. Foi lá dentro. Voltou balançando os chifres. Disse que às vezes vendem e não atualizam no sistema. Ligou para a Central de Atendimento do Capeta.
— Posso pedir na outra unidade da farmacinferno, se quiser. Entrega em 3 a 5 encarnações úteis. Mas precisa ter alguém com identidade, CPF, certificado de reservista e exame de gravidez da avó, tudo com firma reconhecida e sangue tipo B negativo colhido numa noite sem lua.
Ô inferno.
Na saída, vi uma balança. Dizia ser “inclusiva e para todes”. Subi. A balança falou — em voz robótica infernal e sarcástica:
— Favor subir apenas uma pessoa por vez.
Peguei o carro num calor que parecia vindo direto do sovaco do planeta e voltei para a sala de espera inicial. Estacionamento lotado. Vi uma vaga. Corri. Tinha uma moto no lugar.
Ô inferno.
A sala agora estava lotada de almas penadas debatendo política e exigindo conversões mútuas. Uma assoprava o próprio café sem nunca beber. Outra lia, em performance, uma poesia alternativa vegana. Uma terceira discutia no viva-voz, tentando cancelar uma assinatura de internet.
Na TV, estava passando uma novela turca. Comecei a assistir por tédio, fiquei por fascínio. Tramas complexas, personagens com nomes difíceis, um cavalo branco apareceu do nada. O amor venceu. O vilão chorou. O herói caiu de um penhasco e o final parecia que ia ser emocionante.
Apareceu o aviso: “Temporada 2 disponível. 78 episódios.” Peguei um papel qualquer pra escrever tudo isso. A caneta falhou. Sentei-me, respirei fundo, e comecei a segunda temporada. Afinal, já estava em casa.
Ô inferno.
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