O que O POVO pensa sobre os principais assuntos da agenda pública
O que O POVO pensa sobre os principais assuntos da agenda pública
Portugal concluiu domingo a primeira etapa de seu processo eleitoral para escolha do novo presidente do país e, algo que não acontecia há 40 anos, será necessário um segundo turno para definição do vencedor. Dentre 11 postulantes ao posto, hoje ocupado por Marcelo Rebelo, se habilitaram a continuar na disputa, em nova rodada que acontece dia 8 de fevereiro próximo, Antonio José Seguro, do partido Socialista, e André Ventura, do Chega, sigla identificada como de extrema-direita.
Há várias razões para acompanharmos o evento político, a começar, claro, pelas ligações naturais que precisamos ter com um país do qual um dia fomos colônia. Outro ponto é a forte presença de brasileiros e brasileiras hoje em terras portuguesas, havendo estimativa de que aproximadamente 500 mil tenham cruzado o oceano e passado a residir no país europeu, de maneira legal, num ambiente de convivência predominantemente pacífico e de amizade entre os dois povos. Como sempre foi tradicionalmente.
O fluxo já foi contrário e, em outros tempos, o Brasil teve oportunidade de receber muitas famílias que para cá acorreram, trazidas por circunstâncias que a dinâmica histórica e a economia de cada momento ajudam a explicar. Sem grandes registros de problemas, pelo contrário, o acolhimento sempre teve marcado por forte aceitação, valendo-se de facilidades que começam pela língua comum, a mesma característica que nos dias atuais estimula o movimento que se dá em direção à Europa.
Preocupa muito, nesse contexto, que o assunto "imigração" tenha dominado boa parte do debate eleitoral, acreditando-se, infelizmente, que a tendência seja de que a nova etapa acentue e esquente ainda mais a pauta. Em especial pela vontade estratégica do candidato André Ventura, que obteve a segunda votação com um discurso fortemente agressivo contra estrangeiros residentes, em momentos resvalando para a xenofobia. Os brasileiros não são as únicas vítimas do procedimento inadequado, deve-se ressaltar, mas o fato de formarem uma comunidade numericamente expressiva lhes dá um peso maior.
O modelo político português é diferente do brasileiro e o presidente, nele, tem sua ação relativamente controlada pelo parlamento, que, na verdade, é quem governa através do Primeiro Ministro. Portanto, vença Antonio José Seguro ou André Ventura, o efeito será mitigado por um sistema que distribui melhor o poder entre as forças políticas.
O que não é suficiente, infelizmente, para eliminar a preocupação que devemos ter com a possibilidade de Portugal escolher um novo presidente descompromissado com o esforço histórico, institucional e diplomático, de manter a melhor relação possível com o Brasil, o que começa por um tratamento respeitoso àqueles que lá decidiram morar, até como forma de reconhecimento à qualidade de vida que oferece. n
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