Escreve sobre política, seus bastidores e desdobramentos na vida do cidadão comum. Já foi repórter de Política, editor-adjunto da área, editor-executivo de Cotidiano, editor-executivo do O POVO Online e coordenador de conteúdo digital. Atualmente é editor-chefe de Política e colunista
Bolsonaro foi cruel e isso pode explicar o porquê de não haver comoção
Depois da morte de 45 pessoas no presídio de Pedrinhas, ex-presidente falou que a penitenciária era a única coisa boa do Maranhão. Era contra quaisquer benefícios a presos, tais quais saidinhas. Foi insensível até com os mortos pela Covid-19 e as famílias
Foto: JOSE OSORIO / AFP
Bolsonaro sempre defendeu a ideia de "macheza"
E o mundo não se acabou. Faz neste sábado, 29, uma semana que Jair Bolsonaro (PL) foi levado preso para a superintendência da Polícia Federal. Antes já estava preso em casa. Desde terça-feira, 25, ele cumpre pena no local. Como bem destacou em nosso podcast Jogo Político o colega Carlos Mazza — vizinho da coluna Vertical — tudo ocorreu sob absoluta normalidade. Não houve caos, colapso, comoção. O Brasil não parou.. O Judiciário decidiu e está sendo cumprido, apesar de legítimas e democráticas discordâncias. O Congresso Nacional está em ebulição, mas não por isso. Pela própria pauta, que confronta o governo Lula. Até nisso há normalidade.
Normalidade é algo a que o Brasil deixou de estar habituado. A ascensão do bolsonarismo, há uma década, trouxe a marca da turbulência como estratégia. Para que as pessoas escolham os extremos, é necessária a desestabilização da ordem. O método é o tumulto. Todo dia uma confusão, um conflito, uma polêmica. Assim a militância é animada e as redes sociais são movimentadas. Exageros, urgências, anúncios escandalosos são difundidos e afetam os estados de nervos.
Assista ao podcast Jogo Político
Isso pode ser de proveito político para muitos, e foi, mas não ajuda o País. Estabilidade, previsibilidade e mesmo certo tédio são desejáveis. Não houve uma imagem espetacular nem uma grande polêmica. A imagem existente é de má qualidade e por trás de um vidro. Logo se providenciou um fumê.
Apostava-se em mobilização interna e pressão externa para impulsionar a anistia. Não houve nada disso, ao menos por enquanto. Não significa que não haverá. Bolsonaro segue o líder, hoje, com mais capacidade de aglutinação de massas. E o campo político é o mais articulado.
Então, por que não houve manifestações de massa? Porque praticamente ninguém parece estar tocado pelo enredo de um homem que soluça e padece no cárcere. Não tenho resposta única, mas alguns fatores convergem. Talvez a máquina de mobilização não tenha sido acionada ou não esteja azeitada.
Um fator relevante a meu juízo é o histórico de Bolsonaro. Ele sempre foi cruel, inclusive gratuitamente. Depois da morte de 45 pessoas no presídio de Pedrinhas, ele falou que a penitenciária era a única coisa boa do Maranhão. Era contra quaisquer benefícios a presos, tais quais saidinhas. Foi insensível até com os mortos pela Covid-19 e as famílias. São macabramente célebres a imitação de uma pessoa sem ar, o “eu não sou coveiro”. Como se as pessoas tivessem culpa de ter adoecido, como se fosse só para prejudicá-lo.
Bolsonaro semeou insensibilidade. Estimulou uma ideia de macheza, o “imbrochável”. Quando mostra fragilidade, como poderia comover os seguidores que receberam esse tipo de referência? Por ora, serviram-lhe desdém.
Palavras cruzadas
A ironia é uma das grandes categorias da história. Quando ouvi sobre Jair Renan levar palavras cruzadas para o pai, lembrei de história que registrei no início do livro de minha autoria sobre Rosa da Fonsêca. Quando ela estava presa pela ditadura, recorria ao passatempo. Recebia das irmãs e as devolvia preenchidas. Foi por elas que Rosa enviou a mensagem, escrita em ordem invertida, de que era vítima de torturas. A mãe, Maria Rocilda Ferreira da Fonsêca, entendeu o recado e pôs a boca no mundo.
Rosa foi presa aos 22 anos, depois de confrontar, em um debate televisivo, o então ministro da Educação Jarbas Passarinho. Foi vítima de brutais torturas. Hoje é Bolsonaro, apologista de torturador, quem faz palavras cruzadas no cárcere. Ninguém encostará o dedo nele, nem deve. Mas a família cobra direitos humanos. A ironia volta a aprontar.
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