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Rastros do cachorro Orelha
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Flávio Paiva é jornalista e escritor, autor de livros nas áreas de cultura, cidadania, mobilização social, memória a infância. Escreveu os livros

Rastros do cachorro Orelha

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Orelha era uma dócil mascote de face social pública que recebia cuidados de pessoas que vivem na Praia Brava, bairro com bem protegidos condomínios de alto padrão de Florianópolis. No início do mês passado ele foi brutalmente espancado por quatro adolescentes e morreu deixando alguns rastros críticos que podem levar a considerações sobre uma sociedade modelada pelo princípio da violência, restando-lhe o deleite do caos.

Crueldades assim não devem ser confundidas com brincadeira, divertimento ou passatempo de jovens. Em que pese a necessidade de tratamento do caso como homicídio com intenção de matar (doloso), o que está em questão é a perturbação emocional de uma juventude sem amor, sem referências de orientação de limites e sem perspectivas, perdida entre a hiperconectividade e a desvalorização da vida.

A farra sádica de incontida obtenção de prazer que resultou na morte do Orelha não parece apenas um descarrego subjetivo de transgressão atribuída à faixa etária de quem cometeu o crime. Há algo mais profundo, que é o pavor e o rancor de se sentir derrotado pelo estado de paz dos que são considerados desprezíveis. Um cão abertamente querido pode ser uma afronta para quem se frustra por ter tudo, menos a atenção dos semelhantes. Neste caso, a vítima não humana está na mesma classe dos humanos merecedores de desprezo.

O álbum "Terra do Nunca" (1997), com composições do meu repertório, interpretadas pela cantora Anna Torres, com direção de Paulo Lepetit, foi dedicado ao líder indígena Galdino Pataxó, queimado vivo naquele ano nas ruas de Brasília por cinco jovens que tentaram amenizar o crime alegando se tratar de uma brincadeira de tocar fogo em mendigo. Tiveram pena branda e passaram a ocupar cargos públicos, como se nada tivesse acontecido.

Nas três décadas que separam esses dois episódios, houve um afunilamento desse tipo de violência, em grande parte por inspiração da liberdade de fazer a maldade que se quiser, desde que não seja com brancos. A banalização da perversidade tem sido especialmente fortalecida pela imposição das crenças, hábitos, costumes e comportamentos impostos pelas estratégias dos governos estadunidenses de reduzir o mundo ao consumismo com base na meritocracia hereditária.

Entrevistado pela jornalista Mara Luquet no programa "Além das Manchetes" (My News, 18/07/2025), o economista e escritor Eduardo Giannetti afirmou que os EUA são uma sociedade doente, sem sistema de saúde pública, sem previdência e que despenca na expectativa de vida com jovens depressivos e suicidas, viciados em opioides, drogas e alcoolismo. Giannetti chama a atenção para os olhares dos também economistas Anne Case e Angus Deaton, que trataram desse fenômeno demográfico no livro "Mortes por Desespero e o Futuro do Capitalismo" (2020).

O império estadunidense impôs o vazio do seu modo de vida aos seus domínios, e o Brasil é um dos territórios onde ainda há muita gente hipnotizada, seguindo os métodos de destruição de tudo o que é vivo e não serve para gerar lucros. Todo esse conjunto se intensifica com o projeto de desconstrução social e desvalorização do ser humano, promovido em compulsão digital no conluio das big techs com os governos plutocráticos.

Matar o Orelha está na mesma sintonia de conflitualidade das mortes em escolas provocadas por estudantes armados. Nos versos da poeta Alice Ruiz, esse é o estágio "Socorro, eu não estou sentindo nada!". Os rastros do cachorro Orelha estão no desespero de uma adolescência que quer sentir alguma coisa, para rir ou para chorar.

 

Foto do Flávio Paiva

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