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O branco mais puro
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Foto de Henrique Araújo
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Henrique Araújo é jornalista e doutorando em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC), com mestrado em Sociologia (UFC) e em Literatura Comparada (UFC). Cronista do O POVO, escreve às quartas-feiras no jornal. Foi editor-chefe de Cultura, editor-adjunto de Cidades, editor-adjunto de Política e repórter especial. Mantém uma coluna sobre bastidores da política publicada às segundas, quintas e sextas-feiras.

O branco mais puro

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Antes mesmo da história, foi a foto do Orelha que me comoveu. O sorriso aberto, as patinhas desalinhadas, os olhos confiantes em que os humanos têm sempre o melhor a oferecer. Cão de rua, não tinha razões para desconfiar do mal. Talvez farejasse apenas bondade com seu focinho escuro, a pelagem marrom e o rabo fino que abanava com facilidade, imagino.

Na imagem em que o vejo e em que ele se mostra, está na frente de uma casinha de madeira que alguém construíra para ele. À porta, faz pose para o fotógrafo, como antigamente se costumava bater retrato, a família solene e pronta para o registro.

É o único momento que conheço de Orelha, que morava a milhares de quilômetros de distância.

A esta altura, todos já devem saber que o cachorro foi morto por quatro ou cinco adolescentes em Santa Catarina, esse estado que se orgulha de suas raízes europeias, uma protocivilização ariana em pleno território brasileiro. Enclave de limpeza, de gente escolada e cultivada cuja formação contrasta com a barbárie do restante do país.

Foi lá, na capital da unidade mais branca da federação, que os jovens torturaram e assassinaram Orelha, que até então não havia conhecido a perversidade. Pelo contrário, era comunitário, cuidado por todos, parte do dia a dia, zelado e feliz.

Os "meninos" - os cidadãos de bem criminosos são sempre meninos quando praticam suas taras de perversão, ainda que tenham 30 ou 40 anos - foram despachados para os confins, de modo a evitar que uma ninharia do tipo maculasse trajetórias de vida tão brilhantes.

Afinal, seria uma injustiça maior que não pudessem se realizar plenamente por causa de um desvio de juventude.

Dois deles, ao que consta, foram enviados para a Disney como punição exemplar, um corretivo à altura do crime. Só retornam quando, entre castelos encantados e figuras do mundo de fantasia, tiverem purgado seus pecados.

Não demora, e já aparecem trajando camisa branca num vídeo compartilhado nas redes no qual demonstram arrependimento, choram e pedem desculpas a quem tenha se sentido ofendido com o assassinato de Orelha, prometendo ao final melhorar e evoluir como ser humano.

Jamais imaginariam que o espancamento de um bicho resultaria nessa comoção, mas o importante é que estão cientes de que cada erro é vital nesse processo de aprimoramento espiritual, não interessa se se trata da morte de um animal ou da apologia ao nazismo numa festa de formatura.

E assim os ricos passam por essas dificuldades de cabeça erguida, ciosos de que "quem me conhece sabe", apelando ao tio juiz, à mãe desembargadora ou ao pai empresário para que tudo não saia do controle nesse storytelling da virtude numa cristandade de araque em que tudo se arranja.

Foto do Henrique Araújo

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