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Com o tempo, meu corpo ganhou fluidez e as roupas o seguem
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jornalista, com pós-graduação em Propaganda e Marketing (Uni7) e em Moda e Comunicação (Universidade de Fortaleza). Já atuou como assessora de comunicação, repórter do Núcleo de Revistas do O POVO, jornalista na área de branding e design, e produtora de conteúdo no Penteadeira Amarela, um dos primeiros blogs de comportamento do Ceará. A ligação com a moda surgiu ainda na faculdade, quando teve contato com os bastidores da moda, passando a vê-la como forma de expressão individual, de manifestação cultural e de reflexão social. Atualmente, é editora-adjunta de projetos do O POVO.

Larissa Viegas arte e cultura

Com o tempo, meu corpo ganhou fluidez e as roupas o seguem

Regina Ribeiro, jornalista, 60 e poucos anos
Tipo Notícia
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Regina Ribeiro (Foto: JoaoFilho Tavares)
Foto: JoaoFilho Tavares Regina Ribeiro

Já faz bons anos que comecei a ter consciência do meu corpo e descobri que me vestia para escondê-lo de todas as formas. É verdade que sempre gostei de muito pano. Saias gigantes, blusas imensas e vestidões sempre fizeram parte da minha vida e, para mim, estava tudo ótimo. Continuo gostando, mas de um jeito diferente.

Lembro-me do meu marido comparar minhas roupas a "burcas": sóbrias demais, largas demais, longas demais. "E se você usasse alguma coisa mais curta?" Nunca dei muita trela para esses comentários. Um vez, porém, ao me ver dentro de um vestido preto, midi, mangas três quartos, estruturado em renda, que havia me custado uma pequena fortuna, ele brincou: "Para onde vai a minha Mortiça?", me deixando irritadíssima.

Foi necessário muito trabalho interno para que eu me desfizesse, aos poucos, das camadas de roupas e conseguisse reconhecer meu corpo, agradecer por ele e gostar dele como ele é. Mais recentemente, a biodança me revelou que boa parte da cachoeira de lágrimas que jorravam na terapia estava inscrita no meu corpo. Enquanto deixava os movimentos seguirem seu curso, uma espécie de dança íntima trazia à tona o corpo que eu tentava esconder a todo custo. Não gostava dos braços longos, das pernas finas, do colo magro. Era como se minha mente quisesse viver independente dos membros, do dorso, enfim, de mim mesma, e claro, do próprio corpo.

Dançando e no encontro com outras pessoas, pude perceber o quanto meu corpo tem vida e quer vivê-la. Outro dia, percebi que os shorts são roupas ótimas para ir ao cinema, passear no shopping e que minhas pernas finas me levam a qualquer lugar. Mas isso era impensável há bem pouco tempo. Agora, frequento as araras das bermudas e shorts das lojas, uso roupa sem manga com cicatriz à mostra.

Tenho a nítida sensação de me vestir com alegria, sem a pressão (in)consciente de esconder nada. Minha roupa tornou-se reflexo do meu bem-estar. Continuo amando a fluidez das roupas largas, mas é o meu corpo que sinto que está mais fluido. As roupas apenas seguem o movimento.

 

Foto do Larissa Viegas

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