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Cidades com alma e a urgência de desenhar espaços que contem nossas histórias
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Arquiteta, é idealizadora do Estar Urbano - Ateliê de Arquitetura e Urbanismo, que já recebeu oito premiações na Casa Cor Ceará. Docente da Especialização em Arquitetura Sustentável da Universidade de Fortaleza (Unifor)

Cidades com alma e a urgência de desenhar espaços que contem nossas histórias

Ruas largas para carros fragmentam comunidades que viviam e interagiam nas calçadas. O resultado são cidades que podem ser funcionais no papel, mas que são hostis ao espírito das pessoas que as habita
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FORTALEZA, CE, 05-10-2021: O Instituto de Planejamento de Fortaleza (Iplanfor) é o organizador do Outubro Urbano Fortaleza, o que permitiu ao município aderir ao evento nacional e internacional.A proposta é que este seja um mês de debates para trazer melhorias sustentáveis para a cidade como ampliar o espaço para pedestres e bicicletas  em Fortaleza. As fotos destacam a faixa de pedestre e a ciclofaixa da avenida da Universidade, que passaram por uma recém reforma. Benfica, Fortaleza. (BARBARA MOIRA/ O POVO) (Foto: BARBARA MOIRA)
Foto: BARBARA MOIRA FORTALEZA, CE, 05-10-2021: O Instituto de Planejamento de Fortaleza (Iplanfor) é o organizador do Outubro Urbano Fortaleza, o que permitiu ao município aderir ao evento nacional e internacional.A proposta é que este seja um mês de debates para trazer melhorias sustentáveis para a cidade como ampliar o espaço para pedestres e bicicletas em Fortaleza. As fotos destacam a faixa de pedestre e a ciclofaixa da avenida da Universidade, que passaram por uma recém reforma. Benfica, Fortaleza. (BARBARA MOIRA/ O POVO)

Em um mundo cada vez mais padronizado, onde aeroportos, shoppings e edifícios de vidro se repetem de Singapura a São Paulo, uma pergunta crucial se impõe: onde foi parar a alma das nossas cidades? O urbanismo atual, frequentemente obcecado pela eficiência máxima e por modelos globais, tem negligenciado o elemento mais vital do planejamento: a conexão autêntica com os costumes, a história e o modo de vida local. Desenhar cidades mais eficientes é desenhá-las a partir de sua própria identidade.

A crise de autenticidade urbana não é apenas uma questão estética. Quando se ignora a cultura local em prol de um modelo genérico, criamos espaços vazios de significado. Grandes praças inspiradas em modelos europeus, podem ser inóspitas em uma cidade onde o costume é buscar sombra e convívio em espaços mais intimistas.

Ruas largas para carros fragmentam comunidades que viviam e interagiam nas calçadas. O resultado são cidades que podem ser funcionais no papel, mas que são hostis ao espírito das pessoas que as habitam.

A verdadeira sustentabilidade urbana é também cultural. Um bairro que preserva o pequeno comércio, praças com feiras ou becos que abrigam festas tradicionais, é um ecossistema social resiliente. Estes não são meros acessórios, são a cola que mantém o tecido social coeso, promovendo segurança, solidariedade e um profundo senso de pertencimento.

Aplicar soluções de mobilidade que respeitem as suas peculiaridades, são atos de valorização da inteligência coletiva acumulada ao longo de gerações. O cenário pode ser revertido com uma escuta genuína que mergulhe na vida das comunidades, entendendo suas necessidades e formas únicas de ocupar o espaço. O bom design deve traduzir dessas nuances.

Construir cidades autênticas é construir o futuro com as ferramentas da nossa própria cultura, fruto da inteligência coletiva, onde ela reflete seu povo. É tempo de parar de copiar e começar a escutar. O desenho urbano deve materializar a nossa identidade pra que a cidade possa contar a nossa história.

Foto do Laura Rios

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