CEO do Instituto Monitor da Democracia e membro do Conselho Superior da Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais (Abrig). Ex-Diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal. Mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos, Espanha
.A hegemonia chinesa nas terras raras não advém apenas da extração, mas do domínio de 90% do refino químico global. O risco para o Brasil é consolidar-se apenas como o primeiro degrau dessa cadeia
Foto: Sarah Meyssonnier e Elvis Barukcic/ AFP
Novas tarifas da China entrarão em vigor neste sábado, 12
A aquisição de subsidiárias da canadense Equinox Gold pela gigante chinesa CMOC, em uma transação de US$ 1 bilhão, transcende um mero movimento de mercado, podendo facilmente ser classificada como um marco geoeconômico. Ao assumir o controle de minas estratégicas como Aurizona (MA), Riacho dos Machados (MG), Fazenda e Santa Luz (BA), a estatal chinesa não apenas amplia seu faturamento, mas verticaliza seu domínio sobre recursos que são, em essência, ativos soberanos do Brasil.
A CMOC, já consolidada no nióbio e fertilizantes, agora diversifica seu portfólio no ouro. Ao controlar desde a extração em solo brasileiro até a comercialização global via sua trading, a IXM, Pequim agora consolida seu domínio sobre as etapas da cadeia produtiva. Para o Brasil, resta a exportação de baixo valor agregado e o recebimento de royalties, enquanto a inteligência estratégica sobre o destino e a aplicação desses minerais é transferida para a China.
O interesse chinês é cirúrgico. O ouro permanece como o refúgio supremo diante da instabilidade global em 2026. Contudo, o verdadeiro trunfo reside no nióbio, do qual o Brasil detém 90% das reservas mundiais. Essencial para ligas de alta resistência e supercondutores, é um material crítico. A vulnerabilidade brasileira reside em permitir que o controle desses ativos se concentre em um único ator estatal estrangeiro, sem contrapartidas em transferência tecnológica ou agregação de valor nacional.
O ponto central é a assimetria regulatória. Enquanto EUA, Austrália e a própria China endureceram leis para monitorar investimentos em setores sensíveis, o Brasil carece de um mecanismo de triagem (screening), como o CFIUS norte-americano. Sem essa base legal, o Estado opera sob uma lógica comercial de curto prazo, negligenciando que a soberania contemporânea é exercida pelo controle das cadeias de suprimento. Em essência: O Brasil está vulnerável.
A hegemonia chinesa nas terras raras não advém apenas da extração, mas do domínio de 90% do refino químico global. O risco para o Brasil é consolidar-se apenas como o primeiro degrau dessa cadeia. Sem exigir a separação química em solo nacional, o país entrega o "ingrediente" estratégico e permanece na periferia da revolução tecnológica, assistindo à China solidificar um monopólio de décadas.
A criação de um marco legal e de uma agência multiministerial para análise de investimentos estrangeiros tornou-se urgente. Instituir filtros não significa repelir o capital, mas exercer a prerrogativa de um Estado soberano que distingue parceria comercial de alienação de futuro. A soberania, no mundo atual, defende-se com leis que protejam a inteligência e os recursos inalienáveis de uma nação.
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