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Quando abrimos um livro, abrimos um futuro
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Marília Lovatel cursou Letras na Universidade Estadual do Ceará e é mestre em Literatura pela Universidade Federal do Ceará. É escritora, redatora publicitária e professora. É cronista em O Povo Mais (OP+), mantendo uma coluna publicada aos domingos. Membro da Academia Fortalezense de Letras, integrou duas vezes o Catálogo de Bolonha e o PNLD Literário. Foi finalista do Prêmio Jabuti 2017 e do Prêmio da Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil – AEILIJ 2024. Venceu a 20ª Edição do Prêmio Nacional Barco a Vapor de Literatura Infantil e Juvenil - 2024.

Quando abrimos um livro, abrimos um futuro

"Não há nenhuma diferença entre a leitura e a escrita. Quem lê é autor daquilo que lê", Christian Bobin. Assim, quando li, tornei-me autora, recuperei o que julgava meu, e outro, ao acaso, escreveu por mim
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Quando abrimos um livro, abrimos um futuro (Foto: Thais Mesquita em 2021)
Foto: Thais Mesquita em 2021 Quando abrimos um livro, abrimos um futuro

Pode ser estranho descobrir na escrita de alguém justamente o que você acha a respeito de algo. Temos a tendência egoica de acreditar que nossos pensamentos são únicos.

Nós os formulamos com base em experiências pessoais e observações particulares, os ajustamos, os aprimoramos, logo, não se espera encontrá-los por aí, residindo na mente de mais ninguém, ainda que seja aceitável certa similaridade.

Portanto, ler em página alheia palavras que poderíamos ter cunhado é, no mínimo, inquietante. Foi o que se deu comigo ao ler “O vício dos livros”, do escritor, cineasta, músico e ilustrador português Afonso Cruz, um dos autores convidados da 15ª edição da Bienal Internacional do Livro do Ceará, ocorrida de 4 a 13 de abril de 2025, no Centro de Eventos.

Àquela altura, Afonso chamara a minha atenção pelos títulos “O pintor debaixo do lava-loiças”, “Para onde vão os guarda-chuvas”, “Vamos comprar um poeta”, “Nem todas as baleias voam”, entre outros inusitados, interessantíssimos.

Da Bienal para cá, tenho lido um após o outro. Ao devorar “O vício dos livros”, localizei exatamente o que venho defendendo quanto ao tema literatura infantil e juvenil. Sintetiza Cruz na crônica “Gugudadismo”:

“Não é incomum ler artigos sobre livros para crianças [...] Os livros pensados desse modo não são para crianças, são para uma ideia de criança que certos adultos têm. [...] Os bons livros não são dirigidos a nenhum leitor presente, mas a leitores futuros, porque devem encontrar-se com o leitor, não naquilo que ele é ou conhece, mas precisamente num lugar que lhe é ainda desconhecido [...] um bom livro dirige-se ao futuro de cada leitor e não ao seu presente. Quando abrimos um livro, disse Graham Greene, abrimos um futuro”. É o que penso! Como nunca escrevi isso? — eu me pergunto. E, a cada linha, continuei concordando.

Também me irrita que subestimem o leitor iniciante, que confundam um texto acessível com um texto raso, que lhe roubem oportunidades de ampliar o vocabulário, o repertório, os pontos de vista.

Em “Crítica, Teoria e Literatura Infantil”, Peter Hunt nos desafia com a citação de Marcus Crouch: “Cada vez mais sou da opinião de que não existem livros para criança. Eles são um conceito inventado por motivos comerciais e mantido pela tendência humana de classificar e rotular. O autor honesto [...] escreve o que está dentro de si e precisa sair. Às vezes o que ele escreve terá ressonância nas inclinações e interesses dos jovens, outras vezes não [...] Se precisa haver uma classificação, é de livros bons e ruins”.

Cabe ao leitor se identificar ou não com a leitura, sem que o escritor o persiga, vendo em sua testa um alvo.

Finalizo com a epígrafe escolhida para o livro sobre o melhor dos vícios: “Não há nenhuma diferença entre a leitura e a escrita. Quem lê é autor daquilo que lê”, Christian Bobin. Assim, quando li, tornei-me autora, recuperei o que julgava meu, e outro, ao acaso, escreveu por mim. Acolhi no mesmo abraço Afonso, Greene, Peter, Marcus, Christian e o futuro dos meus leitores.

Foto do Marília Lovatel

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