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O MERGULHO
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Formada em medicina pela Universidade Federal do Ceará (UFC), residência médica em Psiquiatria pela Universidade de São Paulo (USP), Título de Especialista em Psiquiatria pela Associação Brasileira de Psiquiatria

O MERGULHO

Pulei em alto-mar. Qual seria a profundidade ali? O que teria embaixo? As pernas agitavam demais. Fui controlando o ritmo e comecei a nadar. Estava tranquila entre o fundo e a superfície. Flutuava na água transparente. A água cintilava
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FORTALEZA, CEARÁ, 01-01-2024: Primeiro banho de mar, em 2024. Na foto, banhistas visitam a Praia do Futuro e dão um mergulho, mesmo com o mar apresentando outra tonalidade. (Foto: Fernanda Barros/ O Povo)




 (Foto: FERNANDA BARROS)
Foto: FERNANDA BARROS FORTALEZA, CEARÁ, 01-01-2024: Primeiro banho de mar, em 2024. Na foto, banhistas visitam a Praia do Futuro e dão um mergulho, mesmo com o mar apresentando outra tonalidade. (Foto: Fernanda Barros/ O Povo)

Sentada na escadaria, sentia o sol esquentar a pele e olhava o mar ao longe. Fixava o horizonte e imaginava o outro lado do mundo. Sem a menor noção de geografia, passava horas pensando aonde chegaria se o atravessasse.

Tomava banho no raso, aprendendo o momento certo do mergulho. O caldo era inevitável. Vinha forte, agressivo. Ao cair, eu me assustava, mas depois o prazer predominava. Avançava um pouco em direção ao fundo. Apenas o pescoço de fora. De vez em quando, a onda cobria meu corpo inteiro. Ficava sem dar pé por alguns segundos, mas logo sentia os pés tocarem a areia.

Terra firme. Precisava de terra firme. Tinha que saber onde pisava. O outro lado era um país imaginário, estrangeiro. O desconhecido era areia movediça.

Havia, ainda, a transparência da água. Via o que não queria ver. Dava muito medo. Era bonita, límpida, mas assustava. Preferia a turva - ali, conseguia esquecer os riscos, ou ao menos não pensar neles. Na água turva, permitia-me boiar.

Aquele mar avançou e levou a escada. Perdi o acesso, mas ele não me deixou. Voltava nos meus sonhos. Ficava no alto, observando se conseguiria entrar. Na maré baixa, talvez.

Aventurei-me em outros mares. Pulei em alto-mar. Qual seria a profundidade ali? O que teria embaixo? As pernas agitavam demais. Fui controlando o ritmo e comecei a nadar. Estava tranquila entre o fundo e a superfície. Flutuava na água transparente. A água cintilava.

Mergulhei. A descida foi lenta, muito lenta. O fundo do mar é imenso. A luz do sol penetra na água e abre um feixe luminoso. Meus olhos se arregalaram. Os peixes eram menores do que eu imaginara. Vi um naufrágio. Aproximei-me. Que vestígios guardava? O casco estava coberto de algas e conchas. Não tinha nada de tão assustador. Carregava histórias. Sustentava vida. Descansava no fundo. Também tinha encontrado a terra. Continuei descendo, completamente absorta.

Pisei.

No fundo do mar, a terra é firme.

Voltei a flutuar suavemente. A claridade foi aumentando. Senti o sol sobre a pele. Emergi.

 

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