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Escreveu livros de literatura fantástica e de contos, como

pedro-salgueiro • Crônica

Procura-se

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Na passagem da infância pra adolescência, mas principalmente desta à idade adulta, vamos perdendo pessoas de nosso convívio; vão ficando irremediavelmente pelo caminho, quando somos nós que nos vamos (ou levadas pelas "ondas da vida", quando somos os que ficamos): muitas delas nunca mais reencontraremos (perderam-se para sempre nesse imenso "oceano da vida"), poucas permanecerão por perto, por serem nossas parentas, vizinhas...

E essa grande quantidade de gentes que nos deixa órfãos, sejam amigos de infância, colegas de colégio, turma do futebol, galera do bar etc. etc., de vez em quando volta à nossa memória, às vezes no lampejo de uma palavra perdida, num gesto qualquer, naquela música ouvida na rua, duma conversa que puxa outra e mais outras, até de um cheiro, um sonho, enfim, de repente estamos com essas pessoas ao nosso lado; e parece que com o avançar da idade esse fenômeno da recordação vai se tornando mais e mais frequente, somos seres que cada dia a mais deixamos de olhar para o para-brisa e nos fixamos no retrovisor; e nessa distração da armadilha da memória, pois, corremos riscos de trombadas e topadas no presente e no futuro, quando estaremos buscando aquela moça que passou faceira, aquele aceno que talvez nem fosse pra nós.

Com a popularização da internet (e seus programas de busca), fui pegando o hábito de procurar amigos perdidos, começou ainda na época do Orkut, passou pelo Facebook e agora no WhatsApp (estou sempre duas redes sociais atrasado)... Cada dia mais fácil, visto que todos estamos emaranhados nessa imensa teia mundial de comunicação. Encontrei uma prima no Canadá, um colega de colégio no interior da Paraíba e outro perdido entre ruas de água em Veneza, até uma ex-namorada que voltara à nossa cidade natal!

Mas às vezes passamos a caça, como foi o caso do meio-de-campo elegante, moleque de canelas longas e cintura alta que se auto intitulava Toninho Cerezo, que era filho de um funcionário da empresa de construção que estava recuperando estradas nos arredores de Tamboril no final dos anos 1970; ele queria ser Cerezo e eu Sócrates, formávamos uma ótima dupla no Fortalezinha de tantos jogos ganhos, mas esse parceiro desapareceu com sua família de um dia pro outro, nunca mais o vi (e sempre nos recordávamos dele, de sua voz cantada e de seu jeito moleque de se auto elogiar). Pois não é que dia desses um amigo de infância me ligou: "Cara, tu se lembra do Cerezo?", e eu: "Claro, como esqueceria aquela figura!", Ele retrucou: "Pois ele está nos teus amigos de face, diz que falou contigo faz tempo... você não reconheceu?".

Fui aos "amigos de face" e lá estava ele, agora um respeitável senhor, com seus 50 e tantos, ainda com seu jeitão matreiro, não mais o Cerezo velho de guerra, porém o digníssimo Afonso da Silva. Marcamos encontro pra depois da pandemia, "quem sabe numa pelada", diz ele, mas logo desconversei: "desde que passei a ser confundido com a bola desisti do ofício".

P.S.: Já que reencontrei meu parceiro de meio-campo da adolescência, queria utilizar esse restinho de crônica para, num anúncio de busca, procurar outro habilidoso companheiro de pelota: Chico Fom-fom, da família Baia (lá do Alto das Pedrinhas, hoje quase todos falecidos); queira, quem souber do paradeiro desse habilidoso centromédio, dar-me notícias... que lhe devo muito, pois - quando vinha de férias com sua bola "dente-de-leite" - nos ensinava os mais arrojados dribles e passes que havia aprendido na Capital.

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