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empreendedora e fundadora da startup cearense Muda Meu Mundo. É pedagoga, cientista política de formação e tem pós-graduação em áreas de gestão

Priscilla Veras vida & arte

Capitalismo Consciente?

Criadora da startup Muda Meu Mundo, a empreendedora Priscilla Veras reflete sobre a relação das empresas com processos exploratórios
Tipo Opinião

A primeira vez que eu escutei o termo capitalismo consciente confesso que me deu um embrulho no estômago. Imagina você, eu cresci em meio aos trabalhos sociais e me formei porque tinha um objetivo claro de acabar com a pobreza. Conhecendo bem a realidade de famílias carentes em muitos lugares do mundo, era difícil imaginar que o capitalismo pudesse ser pensado como um modelo econômico que pudesse se tornar algo mais consciente.

Acredito que muitos de vocês tenham essa mesma sensação... O fato é que durante a minha jornada profissional eu acabei me deparando com uma realidade dicotômica: por mais dinheiro doado ou trabalhos sociais que eu pudesse fazer a pobreza continuava lá. Como pode uma comunidade receber tanto apoio social e viver do mesmo jeito por 30 anos?

Nessa busca por entender o porquê essas coisas acontecem me deparo com a seguinte história: um professor de Economia de Bangladesh reúne alguns alunos para um experimento. Nesse experimento, eles emprestaram pequenas quantias de dinheiro para algumas mulheres investirem em pequenos negócios e esse dinheiro seria devolvido em prazo razoável e com uma taxa de juros muito baixa.. Pois bem, o experimento deu tão certo que surgiu o que conhecemos hoje por microcrédito.

Mas o que o microcrédito tem a ver com capitalismo consciente? Ele gera oportunidade de trabalho digno e melhoria de renda. Por isso, não existe nenhum "sistema econômico" tão eficiente em gerar riqueza quanto o capitalismo.

Não pare de ler ainda! Deixa-me te explicar mais...

O capitalismo, em sua essência enquanto teoria econômica, é o sistema mais eficiente para se gerar riqueza, Mas, em contrapartida, ele também foi o responsável por gerar esse abismo de desigualdade social tão grande.

Foi o diálogo do capitalismo com a sustentabilidade que nos fez refletir sobre como poderíamos ser mais eficientes na geração de riquezas sem a desigualdade gerada. Por isso a ideia do capitalismo consciente é reforçada por 4 princípios: 1- propósito maior, 2- integração de Stakeholders, 3- liderança consciente, 4- cultura e gestão conscientes.

As empresas que têm um propósito maior (não apenas gerar lucro) são aquelas que conseguem ir além de um processo de compra e venda e começam a pensar em impacto negativo e a criar modelos de negócios que sejam tão eficientes para gerar lucro como para resolver problemas sócio ambientais. Essas mesmas empresas ao integrarem seus Stakeholders conseguem garantir que cada etapa de sua cadeia de valor seja não só eficiente em entregar um produto mas que sejam igualmente focadas em cuidar para que não hajam processos exploratórios em nenhum dos seus elos. Essa empresa precisa também de líderes conscientes que gerem essa cultura e gestão consciente para suas equipes fazendo dela um lugar incrível de se trabalhar e de mudar o mundo. Nós temos vários exemplos disso, mas cito aqui a Natura, a Nespresso, a Reserva... Se você olhar para quem essas empresas são e como elas ganham dinheiro, você verá que tem algo diferente na forma como elas fazem as coisas. Isso é chamado de capitalismo consciente.

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As empresas conscientes podem ajudar a desenvolver o mundo de maneira que bilhões de pessoas tenham a oportunidade de desfrutar de um mundo de liberdade, harmonia, prosperidade e solidariedade.

E se você estiver pensando: 'ah, mas o papel de melhorar o mundo não é das empresas, é dos governos, das ONGs...' Eu te digo que você ainda não entendeu que o mundo mudou. Mudou tanto que, sim, é responsabilidade das empresas conscientes ajudarem as pessoas a serem prósperas, a mitigar qualquer risco ambiental, a ser muito mais do que apenas lucrativas. Essa mudança é tão profunda no mundo inteiro que cada vez mais empresas se posicionam como conscientes e sustentáveis. Por isso, é tão urgente e importante que possamos olhar para sustentabilidade fora das nossas caixinhas ideológicas e pensar nela como uma ciência que satisfaz as nossas necessidades atuais sem comprometer as habilidades das futuras gerações de atender às suas próprias necessidades.

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