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Quando grandes marcas entendem o bem-estar materno
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Rachel Gomes é jornalista, mãe da Serena e da Martina e produz podcasts de maternidade há cinco anos. Em 2022, deu início ao MamyCast, primeiro podcast de maternidade do Ceará, onde aborda pautas informativas sobre maternidade, gestação e infância

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Quando grandes marcas entendem o bem-estar materno

Quando o mercado passa a reconhecer que pais exaustos não conseguem exercer plenamente o cuidado, algo importante acontece
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A nova propaganda da Pampers (Foto: Reprodução/Site Pampers)
Foto: Reprodução/Site Pampers A nova propaganda da Pampers

Por muito tempo, a maternidade foi retratada como um território onde o cansaço era quase um requisito. Dormir pouco, viver exausta e abrir mão do próprio tempo sempre foram tratados como parte natural — e até nobre — do cuidado com os filhos.

A exaustão materna, no entanto, deixou de ser apenas uma experiência individual para se tornar um fenômeno coletivo, silencioso e persistente, que atravessa lares, rotinas e relações.

Nos últimos anos, começou a ganhar força uma expressão que ajuda a nomear esse cenário: bem-estar materno. Não se trata de um conceito ligado a autocuidado superficial ou a momentos pontuais de descanso, mas de algo mais estrutural. Falar em bem-estar materno é falar de saúde mental, de sono, de apoio, de tempo e de condições reais para que mães — e pais — consigam cuidar sem adoecer no processo.

É nesse contexto que chama atenção o movimento recente de grandes marcas do setor materno-infantil. Historicamente voltadas quase exclusivamente para a criança, elas começam a deslocar o olhar para quem sustenta a rotina de cuidados.

Quando o mercado passa a reconhecer que pais exaustos não conseguem exercer plenamente o cuidado, algo importante acontece: uma demanda social finalmente encontra eco fora das bolhas familiares e dos discursos militantes.

Um exemplo simbólico desse movimento é a campanha “Vale Night”, lançada pela Pampers. Ao associar o uso da fralda à promessa de uma noite de sono mais tranquila, a marca não vende apenas um produto. Ela valida uma realidade comum a milhões de famílias: a privação de sono como uma das faces mais duras da parentalidade. Ao fazer isso, desloca o foco do bebê idealizado para a experiência concreta de quem cuida.

A campanha acerta ao tocar em um ponto óbvio, mas historicamente negligenciado: pais bem dormidos cuidam melhor. Reconhecer isso não resolve, por si só, a sobrecarga materna, nem substitui políticas públicas, redes de apoio ou mudanças culturais profundas. Mas nomear o problema já representa um avanço. Durante muito tempo, o cansaço foi naturalizado, romantizado ou tratado como falha individual.

É claro que existe estratégia de marketing nesse movimento — e isso não é um problema. Pelo contrário. Quando o mercado começa a entender que bem-estar materno não é luxo, mas base, ele se aproxima de uma demanda real, urgente e pouco atendida.

Há um nicho inteiro de mães e pais que não querem ser vistos apenas como consumidores de produtos infantis, mas como pessoas inteiras, com limites, necessidades e direito ao descanso.

O encontro entre grandes marcas e o bem-estar materno, portanto, não deve ser lido com cinismo automático. Ele pode — e deve — ser acompanhado de olhar crítico. Mas também merece ser reconhecido como sinal de mudança. Cuidar de quem cuida deixou de ser um discurso periférico e começa, enfim, a ocupar o centro das narrativas. E isso diz muito sobre o tempo em que vivemos — e sobre o que ainda precisamos transformar.

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