Sou jornalista de formação. Tenho o privilégio de ter uma vida marcada pela leitura e pela escrita. Foi a única coisa que eu fiz na vida até o momento. Claro, além de criar meus três filhos. Trabalhei como repórter, editora de algumas áreas do O POVO, editei livros de literatura, fiz um mestrado em Literatura na Universidade Federal do Ceará (UFC). Sigo aprendendo sempre. É o que importa pra mim
A extrema direita avança: bandeira, liberdades e, agora, a caminhada
A caminhada de Nikolas Ferreira em defesa da liberdade do ex-presidente Bolsonaro deixa claro como a extrema direita se apropria de certos ícones e pautas. No Brasil, a bandeira, as cores verde e amarela, pautas como as liberdades estão hoje ligadas aos domínios da extrema direita bolsonarista
Foto: Sergio Lima/AFP
O deputado federal Nikolas Ferreira, acompanhado por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro, gesticula ao chegar em Brasília, em 25 de janeiro de 2026, após percorrer o trajeto entre Paracatu, em Minas Gerais (MG), e a capital federal, com o objetivo de chamar a atenção para a defesa da anistia para Bolsonaro e os condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023
Enquanto acompanhava a caminhada do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), lembrei-me de uma mulher que conheci há alguns anos e de quem, por algum tempo, fui bastante próxima. Recordo-me de quando ela chegou da caminhada de Santiago de Compostela, na Espanha, saindo de Portugal.
Ficamos horas conversando sobre a experiência de caminhar sozinha por dias e dias, acompanhada por outros caminhantes apenas em algumas ocasiões. A maior parte do tempo, ela estava só.
Caminhar, para ela, era ir em busca de algo que poderia ser uma emoção, uma descoberta íntima, mas tudo bem se não acontecesse nada. Essa inquietação se deu no início, depois era apenas o caminhar. Queria apenas permanecer um tempo consigo mesma.
“Você precisa fazer essa caminhada”, me dizia, enquanto parava de falar, buscando trechos interessantes da viagem, como, por exemplo, quando começou a namorar um caminhante que conheceu em uma das paradas.
Viajou com ele por dois dias, até pedir ao rapaz, “pelo amor de Deus”, para se afastar, porque ela preferia continuar sozinha até chegar à Espanha. Depois, quem sabe. Até o momento, disse, ninguém falou nada, nem eu nem ele. Então, não era para ser.
A última vez que a vi, houve uma situação embaraçosa: “Você não está me reconhecendo?”. Fiquei com vergonha. O rosto era familiar, o olhar, o sorriso, a voz, mas eu não conseguia dizer o nome da criatura. Então, ela me disse serenamente: “Sou a fulana. Raspei a cabeça depois de atravessar o Ganges. Foi uma experiência incrível. Você poderia ir lá”.
Também me lembrei dos viajantes para Canindé e Juazeiro. Já cruzei com vários andando sabe lá Deus de onde, passinhos miúdos, contritos, na estrada do Horto, em Juazeiro.
Caminhada, para mim, sempre deverá ter um quê de transformação, de revelação interior, de um certo esvaziamento de tudo o que torna a vida pesada, tem alguma coisa a ver com estar apaziguado completamente. Caminhada sempre me pareceu uma busca por um silêncio interno, um não preencher lacunas a qualquer custo.
Por fim, veio-me à mente o livro “Caminhar, uma filosofia”, de Frédéric Gros. É um texto fabuloso que conecta a ação de caminhar a um modo de viver que ele inclusive detectou em poetas como Rimbaud e filósofos como Nietzsche e Rousseau. Caminhar, para Gross é um tipo de liberdade, talvez a mais profunda, silenciosa, poderosa e transformadora que existe.
A caminhada de Nikolas, infelizmente, me fez pensar em mais coisas. Pensei que a extrema direita no Brasil se apropriou da bandeira nacional, do verde e amarelo, da pauta das liberdades e agora, talvez, eles também estejam se apoderando da caminhada. Uma caminhada barulhenta, filmada, incompleta, turbulenta. Mas, sim, eles avançam sobre a caminhada!
Nikolas ganha quase 1,8 milhão de seguidores após caminhada de Minas a Brasília
Análises. Opiniões. Fatos. Acesse minha página
e clique no sino para receber notificações.
Esse conteúdo é de acesso exclusivo aos assinantes do OP+
Filmes, documentários, clube de descontos, reportagens, colunistas, jornal e muito mais
Conteúdo exclusivo para assinantes do OPOVO+. Já é assinante?
Entrar.
Estamos disponibilizando gratuitamente um conteúdo de acesso exclusivo de assinantes. Para mais colunas, vídeos e reportagens especiais como essas assine OPOVO +.