Pelo quarto dia consecutivo e pela sexta vez neste ano, a Bolsa de Valores do Brasil (B3) bateu recorde em negócios. O principal índice da Bolsa, o Ibovespa, superou a marca de 178 mil pontos pela primeira vez na história.
Desde 2025 até o momento, o Ibovespa bateu recorde em 38 oportunidades, sendo que 32 ocorreram até o fim de dezembro.
Nessa sexta-feira, 23, as bolsas da Europa fecharam majoritariamente em queda por conta das incertezas em relação à Ucrânia e Groenlândia. Nos Estados Unidos, sinais difusos entre as bolsas, com avanço de techs e queda de bancos.
No Brasil, o índice encerrou a semana acumulando ganho de 8,53%, com avanços de Banco do Brasil (3,54%), Itaú (1,28%), Petrobras (4,35%) e Vale (2,46%) foram os principais destaques que fizeram a alta do dia ser de quase 2%.
O movimento altista do índice segue firme mesmo em meio às instabilidades da geopolítica internacional, que tem afetado mercados ao redor do mundo. O Brasil, no entanto, superou as desconfianças e acumulou avanço de 33,95% em 2025, o melhor desempenho desde 2016.
O fluxo de investimento estrangeiro é um fator que explica a alta da Bolsa. Em 2025, as movimentações desse público respondeu por mais de 60% de todas as operações da B3, atingindo R$ 2,8 trilhões.
Em menor proporção, a entrada de mais brasileiros na Bolsa também é fator positivo neste cenário. Segundo dados consolidados da B3, foram registrados 205.949 novos investidores em produtos de renda variável no ano passado, o que representa avanço de 4% em 12 meses.
No Ceará, o avanço ocorreu acima da média nacional. Em dezembro de 2024, eram 126.126 investidores. Um ano depois, o número chegou a 134.751, o que consolida aumento de 6,8%.
Ao fim de 2025, eram quase 5,5 milhões de investidores, com R$ 635 bilhões sob custódia nesta modalidade de aporte, uma alta de 20% ante 2024.
Para este ano, as instabilidades geopolíticas que tem os EUA como principal ator de desequilíbrio, fomentam ainda mais o movimento iniciado no ano passado.
Para quem investe em dólar, os ativos disponíveis no mercado brasileiro estão “baratos”, aponta o economista-chefe da Nest Asset Management, Rodrigo Marques, em entrevista ao quadro Guia Econômico na rádio O POVO CBN. Ele destaca que o apetite do investidor estrangeiro tem papel preponderante no movimento da Bolsa.
O economista ressalta que já havia alguns anos que o patamar de juros em patamares elevados fez com que o mercado não ficasse atrativo, com os investidores nacionais fugindo do risco e aplicando na renda fixa.
O cenário mudou com o movimento de investidores internacionais realizando mudanças de portfólio em meio às altas de juros e encarecimento de opções ligadas à tecnologia e inteligência artificial.
Agora, "com a bolsa americana andando de lado nos últimos dois ou três meses", o Brasil e suas opções "baratas" se tornou oportunidade.
"Os investidores globais, que mantinham algo em torno de 50% a 60% de sua carteira na bolsa dos EUA, saíram e realocaram 5% a 10% em economias como o Chile e o Brasil", pontua.
Sobre os seguidos dias de recorde, explica: "Como o mercado de bolsa ficou pequeno no País por conta da taxa de juros elevada, o fluxo seguir muito forte explica quase todo movimento que conduz a novas máximas".
Para o professor de Macroeconomia e Finanças do Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Claudio de Moraes, os sinais que a economia brasileira tem dado em prol da reversão do patamar de juros, pode significar a abertura de uma janela de retomada das ofertas públicas de ações (IPOs), ou seja, novas entradas de empresas ao mercado, o que não ocorre desde o último "boom", entre 2020 e 2021, quando abriram capital, 25 e 35 empresas, respectivamente.
Claudio explica que novas empresas na Bolsa significa a efetiva ampliação de investimentos no mercado de capitais, com a disponibilização de novos papéis para negociação. Para ele, o nosso mercado vive um paradoxo estrutural, de conviver com juros altos - o que poderia inibir o apetite a risco - mas com alta movimentação de portfólio.
Para que o cenário melhore, avalia, é fundamental haver estabilidade institucional em meio aos problemas internacionais e regras fiscais transparentes que passem segurança aos investidores.
Caso isso não ocorra, "quando os ativos atingirem seus preços-alvo e realiza seu ganho, o investidor internacional vende e vai embora".
"Se houver no Brasil um cenário de razoável certeza, o investidor aplica seu dinheiro. O País tem uma demanda de infraestrutura e muito espaço para investimentos. Com regras claras e transparência (inclusive da política fiscal), ganharíamos muito porque o mundo está uma bagunça", analisa.
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Oportunidades atraem diversos perfis de investidores
O avanço acumulado de mais de 11% do Ibovespa após 23 dias de 2026 gera uma série de oportunidades para investidores brasileiros, desde o mais conservador ao agressivo.
A avaliação é de Carlos Henrique Jr, CEO da Sttart Pay, plataforma de soluções financeiras. Para o executivo, a perspectiva de médio e longo prazo para os movimentos dos negócios em renda variável é construtiva, ancorada principalmente na antecipação de um ciclo de corte de juros.
Carlos aponta que, se o investidor estrangeiro vê o Brasil como "porto seguro relativo", ganhando espaço em relação a outros mercados emergentes, como a Rússia e a Argentina, o Brasil tem oportunidades disponíveis para diferentes perfis.
A opção de fazer "carry trade", que é o movimento de tomar recursos num país e aplicar em outro com taxa de juros maior, é uma das possibilidades que o País oferece e tem se tornado uma das preferidas dos apostadores.
"Enquanto o investidor conservador encontra solidez nas Blue Chips e em estratégias de dividendos para mitigar oscilações, o perfil agressivo deve focar em Small Caps (ativos de empresas com menor capitalização e liquidez na Bolsa de Valores) e em setores sensíveis a juros (exemplo: varejo e construção civil), que tendem a capturar de forma mais intensa o fechamento da curva de juros futura", aponta.
Contudo, enfatiza Carlos, essa "janela de oportunidade convive com a inevitável volatilidade política decorrente da proximidade do ciclo eleitoral de 2026". Por isso, o investidor deve ser atento na calibração rigorosa do seu perfil de risco.
Fechamentos anuais do Ibovespa (em pontos)
(Ano, Índice de fechamento nominal e Variação anual)
2016: 60.227,28 (38,93%)
2015: 76.402,08 (26,86%)
2018: 87.887,27 (15,03%)
2019: 115.645,34 (31,58%)
2020: 119.017,24 (2,92%)
2021: 104.822,44 (-11,93%)
2022: 109.734,60 (4,69%)
2023: 134.185,24 (22,28%)
2024: 120.283,40 (-10,36%)
2025: 161.125,37 (33,95%)
23/1/2026: 178.858,54 (11,41%)