Fortaleza foi palco do evento “Diálogos de Aproximação Brasil-Europa na Atração de Investimentos para a Transformação Digital”, iniciativa do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), com o apoio da Delegação da União Europeia no Brasil e da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) na manhã desta terça-feira, 3.
Durante o momento, realizado na Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), também parceira junto da Secretaria das Relações Internacionais do Ceará (SRI), a Embaixadora da União Europeia no Brasil, Marian Schuegraf, detalhou o impacto do acordo de Adequação e Proteção Mútua de Dados.
O tratado é uma confiança regulatória que promete destravar as barreiras burocráticas para o comércio transatlântico.
Em escala nacional, a estimativa da União Europeia é que a segurança jurídica trazida pelo pacto eleve o comércio de serviços e a área digital em 14% no País.
Por conta de sua fácil conectividade, o Ceará se posiciona como um dos grandes beneficiários diretos dessa nova "estrada digital", conforme reiterado repetidamente no evento por profissionais dos setores de tecnologia – também específicos de data centers, cabos submarinos, energias renováveis e afins.
O acordo, que depende agora apenas de uma aprovação provisória do Parlamento Europeu, coloca o Brasil em um grupo de elite, como tratou Marian: apenas uma dúzia de nações no mundo possuem esse nível de reciprocidade e confiança no tratamento de dados com o bloco europeu e isso “facilita muito o comércio digital”.
Para Fortaleza, maior ponto de cabos submarinos de fibra óptica das Américas, o tratado funciona como um selo de qualidade.
Com as normas brasileiras (Lei Geral de Proteção de Dados - LGPD) e europeias (General Data Protection Regulation - GDPR) em plena harmonia, empresas de tecnologia instaladas na capital cearense poderão hospedar e processar dados europeus com a mesma facilidade com que fazem no mercado interno, transformando a infraestrutura em um motor de exportação de inteligência.
A Embaixadora foi enfática ao afirmar que a visão europeia para o estado ultrapassa a instalação de "galpões de servidores". O foco agora é o ecossistema de inovação e o valor aplicado às cadeias internacionais.
Como prova desse compromisso, a diplomata confirmou para março uma missão técnica liderada pelo conselheiro de ciência e tecnologia da União Europeia à Universidade Federal do Ceará (UFC). O objetivo é conectar o capital europeu à produção acadêmica local, garantindo que o desenvolvimento tecnológico ocorra em solo cearense.
O governo brasileiro quer acelerar a aprovação, pelo Congresso Nacional, do acordo de parceria comercial que representantes políticos do Mercosul e da União Europeia assinaram no último sábado, 17. Marian detalha que resta apenas o aceite por conta do parlamento europeu.
“Todos os outros passos já são terminados e isso é fantástico. Estou muito otimista que vamos ver no futuro muito perto uma aprovação provisória do acordo. Isso é uma notícia muito boa”, diz.
Para a secretária de Relações Internacionais do Ceará, Roseane Medeiros, este é o momento de consolidar uma nova imagem do estado no exterior. Se antes o Ceará era vendido majoritariamente pelo turismo e pelo kitesurf, a nova pauta é a economia de baixo carbono e a soberania digital.
Medeiros ressaltou que o estado já possui a base necessária: é líder em conectividade 5G e investe na formação de base, com a distribuição de tablets para estudantes, preparando a mão de obra que ocupará os postos de trabalho gerados por esse crescimento de 14% no setor.
“Você não compra o que você não conhece. Então, o trabalho de divulgação internacional o Ceará vinha fazendo há bastante tempo, participando em feiras internacionais, mas muito voltado para o turismo. Agora, esse novo momento surgiu quando se começou a discutir o hidrogênio verde. Empresas internacionais estão vendo as oportunidades que teriam para produzir o hidrogênio aqui”, relata.
A secretária trouxe ainda uma análise sobre a conjuntura geopolítica global que favorece o Ceará neste momento. Com a guerra na Ucrânia e a crise energética na Europa, que forçou o retorno temporário de países do Norte às fontes fósseis para garantir o aquecimento, os grandes projetos globais de Hidrogênio Verde (H2V) ganharam um novo contorno.
Ao unir a segurança do acordo nacional com a infraestrutura física de Fortaleza, o Ceará se descola da imagem de mero corredor de passagem de dados para assumir o protagonismo como um hub de serviços de alto valor agregado.