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"Existem duas coisas que reduzem o sofrimento humano: a medicina e a arte", diz Paola Tôrres

A médica Paola Tôrres acredita que a medicina vai além dos tratamentos tradicionais e conscientiza por meio da arte
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A médica onco-hematologista Paola Tôrres utiliza cordéis autorais para conscientizar pessoas na prevenção contra o câncer (Foto: Eder Bicudo/Especial para O POVO
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Foto: Eder Bicudo/Especial para O POVO A médica onco-hematologista Paola Tôrres utiliza cordéis autorais para conscientizar pessoas na prevenção contra o câncer

Em Fortaleza, a médica onco-hematologista, presidente da Academia Brasileira de Literatura de Cordel e Presidente do Instituto Roda Viva, Paola Tôrres (@drapaolatorres), utiliza ferramentas que fogem ao comum para conscientizar as pessoas sobre a prevenção ao câncer: a música e a literatura de cordel.

Quando se trata de câncer, a médica ressalta a importância do diagnóstico precoce, e o faz de forma lúdica, com a ajuda de seus versos. Na obra "A Saga do Caroço", ela conta uma história, baseada em fatos reais, de uma ex-paciente chamada Maria Rodrigues.

Para ela, que é pernambucana de nascença e cearense de coração, a ligação com a cultura popular e com suas raízes é essencial para unir arte e medicina na busca de oferecer alento para as pessoas.

O POVO - Em suas palavras, qual a relevância do trabalho de conscientização que a senhora faz hoje em suas redes sociais?


Paola Tôrres - O meu trabalho tem vários focos, e é relevante por informar a população de uma forma mais didática sobre a realidade do câncer. Você pode falar de câncer de uma forma mais lúdica, poética e também mais simples. Um dos focos é incentivar os estudantes de Medicina para que eles se apropriem de uma linguagem que é nossa, que é a linguagem do cordel. Além disso, também me preocupo em atingir o paciente e o jovem médico em termos de política pública, no sentido de influenciá-los a “cutucar” um pouco as autoridades para a realidade de desassistência no incentivo ao diagnóstico precoce do câncer. Aqui no Nordeste, temos um problema sério que é o de pacientes que só chegam aos hospitais em estágios muito avançados de câncer. Uma pesquisa feita pelo Instituto Datafolha com 1860 pacientes de linfoma cadastrados na plataforma da Associação Brasileira de Leucemias e Linfomas comprovou que mais da metade dos pacientes demora mais de seis meses para conseguir uma consulta com um especialista, e isso é algo muito grave.


OP - A senhora é oncologista, hematologista, professora, artista e cordelista. O que surgiu primeiro, o amor pela medicina ou pela arte?


Paola Tôrres - O amor pela arte. Eu acho que a medicina, em essência, também é um tipo de arte, a arte do encontro entre dois seres humanos em que um deles tem habilidade de minorar o sofrimento do outro. Existem duas coisas que reduzem o sofrimento humano: a medicina e a arte. Eu entendi que, como médica, poderia ajudar mais afetivamente, então poder juntar arte e medicina na busca de oferecer alento para as pessoas e usar a literatura de cordel e a música para informar é um grande alento para mim. É o que me move.


OP - E como esses dois campos, arte e medicina, encontraram-se ao longo da sua vida?


Paola Tôrres - Eu sempre gostei muito de música, de poesia e de literatura de cordel. É um amor que vem de família. Minha bisavó gostava de cordel e passou isso para minha avó, que passou para minha mãe. Eu comecei a usar isso na faculdade a partir do momento que tive uma aula de Estética do Pensamento com Ariano Suassuna, que era professor na universidade em que eu estudava. Começamos a falar sobre música armorial durante a aula, então eu fiquei pensando: por que não pode haver uma medicina armorial? Uma medicina que seja integrativa e que vá além dos tratamentos tradicionais? A medicina integrativa não é uma especialidade médica, mas, sim, uma forma de ver a medicina, integrando tudo que podemos para ajudar a pessoa que está doente. Foi a partir desse momento que a arte e a medicina se encontraram na minha vida.


OP - Quais são suas inspirações ao escrever os versos?


Paola Tôrres - Eu me inspiro na poética do Sertão, em livros que eu leio, nas histórias de vida que meus pacientes me contam e na minha própria imaginação. Tudo o que existe foi imaginado por alguém, então se nós imaginássemos um mundo melhor, ele seria melhor. A minha inspiração é nunca me dissociar desse mundo, de quando eu era criança, do fantástico, do Sertão, das histórias, das lendas, da nossa poesia, dos nossos grandes músicos e compositores...tudo isso me inspira.


OP - Quando a senhora achou que seria interessante misturar a conscientização da prevenção ao câncer com a arte?


Paola Tôrres - Eu tive um câncer muito raro, do qual eu fiquei curada apenas com cirurgia. Dez anos depois, esse mesmo câncer voltou, e eu tive que fazer novamente a cirurgia. A partir daí, eu comecei a refletir mais profundamente sobre a doença. Quando você permite que algo se sobreponha à sua força vital, você tem que repensar a sua vida. Então eu fiquei pensando que poderia usar meu lado artístico e a reflexão que a arte traz para melhorar o enfrentamento do câncer. Eu entendo que, quando fortalecemos o ser humano por meio da arte, nós damos a ele uma arma para lutar contra qualquer doença.

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