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Karine Lima Verde: De imbrochável a incurável
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Opinião

Karine Lima Verde: De imbrochável a incurável

Fica difícil acreditar em laudos de saúde e abatimento emocional vindos de quem, no auge de uma pandemia, zombou da falta de ar alheia e ironizou as vítimas da Covid-19. É uma conversão ao humanismo por pura conveniência familiar?
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Karine Lima Verde

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A justiça brasileira é frequentemente criticada por sua balança desequilibrada, mas raramente o contraste é tão obsceno quanto no cenário atual. No chamado "universo paralelo" de certas lideranças políticas, parece haver a crença de que merecem um tratamento diferenciado porque, sob sua ótica, qualquer punição é lida como injustiça. Mas cabe o questionamento: quantos dos milhares de aprisionados no sistema comum também não consideram suas prisões injustas? E quantos deles possuem as regalias que agora vemos distribuídas a poucos?

Enquanto a imensa maioria da população carcerária amontoa-se em celas insalubres, o ex-presidente desfruta de uma realidade paralela. Banhos de sol exclusivos, acompanhamento de saúde diferenciado e um fluxo de visitas que mais parece uma agenda oficial do que uma restrição de liberdade. Essa "prisão humanizada" levanta uma questão incômoda: por que ele pode gozar desse humanismo e os demais não?

A ironia atinge o ápice ao observarmos a atuação de seus herdeiros políticos. Os filhos, que construíram carreiras pregando o "rigor absoluto" e defendendo atrocidades contra detentos comuns, agora inundam as redes sociais com vídeos e textos carregados de sentimentalismo. Testemunham uma suposta vulnerabilidade do pai, clamando por uma clemência que nunca cogitaram oferecer a outros seres humanos.

É uma conversão ao humanismo por pura conveniência familiar? Torna-se quase impossível engolir essa narrativa de fragilidade quando a memória recente ainda ecoa o deboche. Fica difícil acreditar em laudos de saúde e abatimento emocional vindos de quem, no auge de uma pandemia, zombou da falta de ar alheia e ironizou as vítimas da Covid-19.

O líder que outrora exaltava o vigor e a força, vendendo a imagem de "imorrível" e "imbrochável", hoje se apega a cada brecha burocrática e a laudos de conveniência para evitar o rigor da lei. Onde foi parar o vigor? O sistema carcerário brasileiro é o inferno na terra para o cidadão comum, mas para o capitão, parece ter se tornado um retiro assistido. Talvez o discurso de que "bandido bom é bandido morto" ou de que "cadeia não é colônia de férias" encontrasse o seu verdadeiro espelho.

A regra parece ser clara: o rigor só vale quando o réu não tem influência política ou uma militância para alimentar. Se para eles, e somente para ele, as leis devem ser diferentes, como podem alegar que representa o povo? No fim, diante de tanta fragilidade fabricada para evitar a cela comum, fica a pergunta: esse homem tão frágil, que hoje move o mundo por piedade, teria condições de disputar uma eleição com o Lula em 2026? Pelo visto, a coragem e a saúde terminam onde começa a porta de uma delegacia sem privilégios.

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