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A "boa economia" do que estamos falando?
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Opinião

A "boa economia" do que estamos falando?

É nesse roldão teórico das "boas práticas econômicas" que se cobra ajuste fiscal com cortes em programas sociais, não intervenção estatal, desregulação das garantias trabalhistas e tudo mais que não oblitere a autorregulação das forças mercadológicas autoajustáveis
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Júlio Ramon Teles da Ponte. Doutor em Ciências Sociais e professor da UFC-FEAAC-DTE. (Foto: Arquivo Pessoal)
Foto: Arquivo Pessoal Júlio Ramon Teles da Ponte. Doutor em Ciências Sociais e professor da UFC-FEAAC-DTE.

Não é raro encontrar artigos que se referem à "boa economia" como um conjunto de normas tomadas como "doxa" a serem consagradas no campo econômico como o pensamento que se consagrou como o mais preciso para tratar de assuntos que se referem a esse campo, não tendo mais espaço para polêmicas pueris, em que ainda cabiam polêmicas entre diferentes escolas.

É como se alguma força arbitral suprema já tenha consagrado um "vencedor" inconteste no âmbito dos confrontos entre distintas interpretações sobre questões relativas às trocas, à moeda, ao câmbio, às contas públicas, à renda, enfim ao que de fato determina hodiernamente a vida em sociedade no que se refere à sua produção material e sua distribuição.

O que se pode constatar pelos asseclas e escribas da "economia boa" é que se trata de um conjunto de ideias e leis calcadas na ultra ortodoxia econômica, em que o mercado autorregulado é uma espécie totem a ser respeitado por todos os mortais, cabendo às pessoas e às empresas (agentes econômicos) se adaptarem da melhor maneira às suas hetero determinações. Neste cenário, cabe aos bons economistas apenas calcularem às margens possíveis da ação individual e coletiva.

Nesse desiderato, no "âmbito da boa economia", são criados e aprimorados modelos matemáticos infalíveis que demonstram teoricamente a viabilidade de tais proposições analíticas. Se tais conclusões, por vezes, não correspondem à realidade factual vivenciada pelos indivíduos, pior para a realidade, pois os números são, por certo, indefectíveis.

É nesse roldão teórico das "boas práticas econômicas" que se cobra ajuste fiscal com cortes em programas sociais, a não intervenção estatal, a "modernização" e desregulação das garantias trabalhistas, as privatizações e tudo mais em prol dos sacrifícios necessários para satisfazer às condições necessárias para não se obliterar a autorregulação das forças mercadológicas autoajustáveis. Segundo essa interpretação, por exemplo, leis trabalhistas apenas atrapalham o ajuste automático entre os fatores de produção, incluindo o próprio trabalho.

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