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Enquanto estamos vivos
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Opinião

Enquanto estamos vivos

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Aos 72 anos, a artesã nordestina Tânia Maria fez sua estreia no cinema brasileiro. Sem formação em atuação, foi descoberta pelo diretor Kleber Mendonça Filho e tornou-se um fenômeno. Após se destacar em Bacurau, ganhou projeção internacional em 2025 ao atuar em O Agente Secreto, consolidando-se como um dos nomes que chamaram a atenção da crítica pela força e naturalidade em cena, com destaque em publicações internacionais como a Variety, no contexto das discussões da temporada de premiações, na categoria de Atriz Coadjuvante.

Estranhar sua história expõe o quanto ainda naturalizamos a ideia de que existe uma idade "certa" para começar. Quantas pessoas repetem, como justificativa para desistir, a frase: "meu tempo já passou"? Enquanto estamos vivos, este é o nosso tempo. A idade não invalida sonhos; ela apenas desafia nossa coragem de insistir neles e desenvolver novas capacidades.

O problema nunca foi o passar do tempo, mas o momento em que passamos a acreditar que ele nos define. Ao alcançar os "entas" — quarenta, cinquenta, sessenta — as oportunidades parecem se estreitar. O etarismo é real e estrutural, mas não é o único obstáculo. Muitas vezes, o maior bloqueio está dentro de nós, quando acreditamos que já não somos capazes de aprender, mudar ou recomeçar.

As mudanças nas regras da aposentadoria nos empurram a permanecer mais tempo no mercado de trabalho. Mas reduzir essa permanência à necessidade financeira é pouco. Trabalhar também é uma forma de se sentir útil, manter vínculos e seguir participando da sociedade.

Isso não é apenas sobre seguir trabalhando. Talvez o sonho seja morar no campo, viajar, dedicar-se a um projeto social ou a uma vida espiritual. A questão central não é o caminho escolhido, mas a decisão de viver de forma consciente e ativa. O maior risco não é envelhecer — é desistir de viver antes do fim.

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