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Frederico Nascimento: Tempo atroz e veloz
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Opinião

Frederico Nascimento: Tempo atroz e veloz

Estamos carregados de excessos de responsabilidade, vivendo cotidianos permeados de obrigações, findamos o dia com a sensação que 24 horas é insuficiente para atender tantas demandas
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Frederico Nascimento (Foto: Arquivo pessoal)
Foto: Arquivo pessoal Frederico Nascimento

O processo de globalização, tornou-se perceptível nos idos da década de 1970. Mudanças significativas ocorreram na dimensão social, econômica, política e tecnológica. O capitalismo reestruturou-se, tornou-se atroz, encurtou distâncias, acelerou o processo produtivo, comprimiu o tempo, é o que David Harvey denomina de compressão do tempo-espaço. Tudo se torna rápido, veloz, fluído, adentra-se na concepção de Bauman que classifica nossa era de (pós) modernidade líquida, onde as relações efetivadas em sociedade se dão de maneira efêmera, volátil e incerta.

Acreditamos que a tecnologia liberta, mas também nos aprisiona, pois nos permite fazer atividades de maneira ágil, tornando-nos livres para realizar mais trabalho. Estamos carregados de excessos de responsabilidade, vivendo cotidianos permeados de obrigações, findamos o dia com a sensação que 24 horas é insuficiente para atender tantas demandas.

Nossa essência humana foi construída sob a égide dos ritmos lentos/harmônicos, por isso encontramos paz e quietude em ambiências naturais, o ritmo degradante imposto pelo capitalismo, tolhe a liberdade e a qualidade de vida. Byung-Chul Han nos adverte que o século XXI é marcado pelas doenças neurais: transtornos de ansiedade, depressão, enxaqueca, Burnout.

O trabalho que segundo a bíblia edificava o homem, no hodierno adoece num ir e vir incessante. A ideia é ser proativo, produtivo, devemos dar conta de múltiplas tarefas, até daquelas que não são da nossa estirpe. Nesses tempos, hostis, atrozes e velozes, precisamos nos proteger socioemocionalmente, desacelerando mente e corpo.

Vivemos numa sociedade do desempenho, diariamente pressionados a produzir mais, melhor e otimizar o tempo. A autoexploração e a busca ininterrupta por sucesso nos leva ao esgotamento. Nunca fez tanto sentido a ideia de parar, descansar, refletir, (re)descobrir a lentidão. Ser revolucionário hoje é parar, frear o ritmo frenético imposto pelo capitalismo, o tempo atroz e veloz, tira-nos a capacidade de pensar de forma clara, objetiva e crítica, nos tornamos reféns das nossas próprias obrigações, a vida perde sentido, precisamos nos ressignificar.

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