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Os donos de Fortaleza que cultivam microespaços
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Opinião

Os donos de Fortaleza que cultivam microespaços

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Eu gosto de pensar nos pedaços de Fortaleza que têm donos, como a mulher da Rua dos Campeões, a quem chamarei de Dona Flora. A ruazinha é um estreito entre o Dionísio Torres e o São João do Tauape. Nunca vi seu rosto, embora nos últimos anos a encontre com frequência de manhãzinha, enquanto sigo para a academia. Emborcada sobre si mesma, com um pano grande ornando a cabeça e o corpo franzino sacudido pelo vento das primeiras horas da manhã, Dona Flora cuida de um bom trecho da via. Limpa o excesso de folhas das árvores, varre, cultiva as plantas. Já me peguei aflita quando não a vejo por dias a fio, imaginando que ela caiu doente. Quando penso que não, ela reaparece e a rua fica outra. Tenho percebido que Dona Flora está mais frágil a cada dia, mas isso não a impede de cuidar daquele pedaço de rua como se fosse parte da sua própria existência.

A história de Fortaleza pode muito bem ser contada por esses personagens que cuidam de ruas, de rios, da memória, dos pássaros, dos gatos, dos cães sem dono, dos saguis – e suas mudanças entre árvores por um fio –, e dos (poucos) parques. E de gente que narra histórias desses espaços, fotografa, grava, borda e pinta detalhes muito pessoais da metrópole que se expande até o limite do estranhamento para os lados e para o alto. Esses microespaços parecem cumprir a missão de nos unir e nos lembrar dos afetos que ainda guardamos por esta cidade.

Conversando com minha amiga, a jornalista Carmina Dias, que ama o Parque Rio Branco, lembramos que a historiadora Simone de Sousa caminhava por ali diariamente. Sem muito jeito com os santos e o além, deixou dito que seu velório seria restrito e não queria missa de 7º dia. Dias após sua partida, os amigos - ou "companheiros" como ela chamava os mais próximos - foram ao parque lhe render homenagens. Foi um encontro inesquecível de tão bonito.

Por outro lado, Fortaleza pode ser vista a partir de outros ângulos. O professor e pesquisador Gilmar de Carvalho vivia às turras com a cidade. Dizia que Fortaleza era o diabo de faladeira, invejosa até o talo, daquele tipo que considera o sucesso alheio uma tragédia pessoal e coletiva. Ele tinha até uma teoria com matiz psicanalítico para explicar o comportamento do fortalezense: a rejeição dos “pais” simbólicos que a ignoraram solenemente quando Portugal disponibilizou suas terras para ocupação.

Pelo sim, pelo não, nem precisa ser gente para conquistar fama. Araripe Júnior transformou o Cajueiro do Fagundes num dos casos mais jocosos da literatura cearense. Debaixo do famoso cajueiro, resolvia-se todo tipo de infortúnio e até criavam-se alguns, principalmente políticos. E o que dizer do bode Ioiô perambulando entre o Centro e a praia desafiando a velha lógica humana!

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