Caucaia não apenas possui a maior população cearense depois da Capital como também o maior território da Região Metropolitana de Fortaleza, com 1.228 km² em área. A gratuidade universal nos transportes públicos, por meio do projeto “Bora de Graça”, foi anunciada no município em 23 de julho de 2021 pelo então prefeito Vitor Valim (PSB). Foi a maior iniciativa de tarifa zero do Brasil.
O investimento inicial anual do projeto em 2021 foi de R$ 25 milhões, com expectativa de diminuição no fluxo de automóveis na cidade em cerca de 40% e aumento de, no mínimo, 15% na renda de famílias caucaienses em meio ao segundo ano de pandemia.
Hoje, o programa, rebatizado de “Passe Livre” em outubro de 2025 pelo atual prefeito Naumi Amorim (PSD), conta com 32 rotas de ônibus gratuitas, atendendo a região do centro urbano e zona rural com catracas liberadas. Segundo dados da Prefeitura de Caucaia, há cerca de 1,78 milhão de utilizações mensais, com investimento de R$ 3 milhões.
Ao O POVO, a Organização Guimarães Ltda, conhecida como Empresa Vitória, responsável pela alocação dos veículos, informou que os custos fixos são calculados com base na quilometragem de cada linha, o que “ajuda a manter o equilíbrio do contrato mais previsível”.
Em junho de 2025, foram instaladas catracas nos ônibus, que haviam sido removidas em setembro de 2024. Unindo o número de usos diários do transporte público ao longo de quatro meses, quase 7 milhões de utilizações foram registradas.
A empresa explica que os números coletados por meio das catracas auxiliam no processo de criação ou cancelamento de rotas, além de prestar transparência entre o serviço ofertado e os pagamentos realizados pela Prefeitura.
Apesar da mudança de nome, as linhas permanecem com catraca livre e sem uso de cartões eletrônicos. O programa continua sendo um dos pilares do desenvolvimento urbano, comercial e turístico do município e é amplamente aceito pela população.
A recepcionista Márcia Xavier, 49 anos, costumava trabalhar próximo de casa, porém, precisou se deslocar de ônibus com mais frequência devido ao seu novo emprego. “Somos privilegiados, é muito bom que seja gratuito e que podemos ir e voltar quantas vezes quisermos dentro de Caucaia. Para mim, isso é maravilhoso”.
Mas explica que, por usar os ônibus em horários de pico, enfrenta superlotação: “Raramente vou sentada nos horários de 7 horas da manhã e 16 horas. Acredito que durante esses momentos, mais ônibus deveriam circular”.
Já na realidade da universitária Camila Barbosa, 30, utilizar o ônibus gratuito é um desafio. Moradora do São Miguel, ela explica que não existe uma rota específica para o bairro e, caso precise ir até o centro de Caucaia, precisa atravessar duas pistas movimentadas na avenida Mister Hull, na divisa entre Caucaia e Fortaleza.
“Raramente uso o ônibus para trabalhar. Preciso sair cedo e as ruas são muito perigosas, além das duas pistas sem semáforo. Para não arriscar tanto, chego a gastar 180 reais mensais em veículos por aplicativo”, relata.
Ela acrescenta ainda que optou por cursar a faculdade em Fortaleza devido à dificuldade de acessar locais mais próximos de casa pelo transporte público.
A Prefeitura informa que a expansão de linhas e rotas é planejada pela Secretaria de Transporte de Caucaia, com apoio técnico na análise de viabilidade dos itinerários por parte da empresa operadora do serviço. Bem como o estudo dos impactos operacionais sobre as linhas, da compatibilidade dos horários programados e dos tempos estimados de viagem.
A política de gratuidade no Município de Caucaia tem sido caracterizada, ao longo de seus quatro anos de vigência, por diferentes ajustes, questionamentos e reconhecimentos.
Ao final da gestão de Vitor Valim, em dezembro de 2024, a Empresa Vitória, responsável pela alocação dos veículos, informou ao Ministério Público de Caucaia que cerca de R$ 14 milhões dos repasses do programa estavam atrasados desde 2022 e abriu um requerimento para o pagamento das dívidas.
O fim da gratuidade chegou a ser anunciado. Após a transição de gestão para o atual prefeito de Caucaia, o programa teve a frota reduzida em 23% e desconto de R$ 1 milhão de custo mensal de alocação foi acordado, mas a circulação dos ônibus não foi interrompida.
Apesar dos debates, Caucaia mantém a maior política de gratuidade integral no transporte coletivo do país, servindo de referência para estudos de implantação em âmbito nacional, com as virtudes e dificuldades.
Em entrevista ao O POVO, em novembro do ano passado, o deputado federal e ex-secretário de Mobilidade de São Paulo, Jilmar Tatto (PT-SP), confirmou que Caucaia poderá ser referência nos estudos elaborados pelo Governo Federal para ampliação nacional da tarifa zero até 2026.
A proposta nacional deve operar em conjunto com o Ministério da Fazenda e se basear nos acertos e limitações de outras 138 cidades que já possuem gratuidade. O modelo e o cenário financeiro ainda devem ser avaliados.