Reportagem

Interiorização da Covid-19 no Nordeste preocupa Comitê Científico

Na Região, cerca de 90% dos municípios registram casos da infecção. Epidemiologistas apontam flexibilização precoce e ressaltam diferentes estágios da doença nos estados
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MOVIMENTO EM CAUCAIA, no início de junho, durante lockdown
 (Foto: Fabio Lima)
Foto: Fabio Lima MOVIMENTO EM CAUCAIA, no início de junho, durante lockdown

A interiorização da Covid-19 pelos municípios do Nordeste preocupa devido aos altos percentuais de pobreza e níveis de saúde precários no território. Na Região, cerca de 90% dos municípios registram casos da infecção. A situação se difere entre os nove estados nordestinos levando-se em consideração os estágios de evolução da pandemia e características locais, como densidade populacional. Conforme epidemiologistas, a situação dos estados não é adequada para a flexibilização das medidas de isolamento social. São 386.235 casos confirmados no Nordeste, o que corresponde 35% dos 1.106.470 de casos no Brasil.

No cenário regional, a epidemia avança e demanda acompanhamento rigoroso dos indicadores, principalmente nos municípios que já iniciaram processo de reabertura comercial. Na videoconferência "Pandemia da Covid-19 no Nordeste do Brasil: Situação Atual e Recomendações", realizada ontem, 22, especialistas apresentaram relatório sobre o tema. O encontro foi realizado pelo grupo Epid-NE Epidemiologistas do Nordeste com a promoção do Comitê Científico de Combate ao Coronavírus do Consórcio Nordeste e da Rede CoVida.

Conforme o relatório, publicado no último dia 10 de junho, os estados não se enquadram "nos critérios e parâmetros compatíveis com a recomendação de flexibilização das medidas de distanciamento social". Quatro estados se destacam pela "magnitude da epidemia": Ceará, Maranhão, Pernambuco e Sergipe. A epidemia atingiu maiores coeficientes de incidência e de mortalidade nos estados do Ceará, Pernambuco e Maranhão, segundo o documento.

"Uma região discriminada pelo Governo Federal. A situação teria sido muito pior se os governadores não tivessem tomado atitudes e seguido conselhos das diversas áreas que os assessoraram", avalia a epidemiologista Lígia Kerr, professora do Departamento de Saúde Comunitária da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC).

"Você vê o que aconteceu no Rio de Janeiro e em São Paulo. Eles abriram em um momento muito pior do que aqui. Nos estados do Nordeste, foi mais criteriosa (a flexibilização). Em todos os estados do Nordeste, o Interior está pior, já tem mais casos acumulados do que na Capital", acrescenta. A preocupação se deve à dificuldade de acesso a unidades de internação para os pacientes que moram no Interior.

Conforme o epidemiologista Ricardo Ximenes, professor da Pós-Graduação em Medicina Tropical da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), apesar de alguns estados apresentarem performance "um pouco melhor", ainda é longe de um "decréscimo consistente" com relação ao número de novos casos e óbitos. Ele aponta que, embora a capacidade de testagem tenha aumentado, a capacidade de testar e isolar casos, bem como de rastrear os contatos de pessoas infectadas é insuficiente. Ele acrescenta que a manutenção da obrigatoriedade do uso de máscara e o distanciamento em locais de trabalho e escolas são desafios do processo de flexibilização.

"A gente estava muito preocupado esperando um rebote rápido em duas, três semanas a pós o início da flexibilização. O que não ocorreu", frisa Antônio Augusto Silva, professor do Departamento de Saúde Pública da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), sobre o processo no Ceará e no Maranhão. Apesar de a disseminação continuar e ainda ser preocupante, ele aponta fatores que podem ter ajudado a frear a doença mesmo após a flexibilização: utilização de máscara por grande parte da população, a redução de pessoas suscetíveis e percentual de pessoas que ainda continua em casa.

 

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