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Estudante lesiona professor, coordenadora e aluno em colégio particular de Fortaleza
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Estudante lesiona professor, coordenadora e aluno em colégio particular de Fortaleza

O caso foi registrado na manhã de ontem, 2, no bairro José de Alencar. O jovem foi conduzido à Delegacia da Criança e do Adolescente
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O caso foi registrado na manhã desta terça-feira, 2, em escola no bairro José de Alencar (Foto: Leitor via WhatsApp O POVO)
Foto: Leitor via WhatsApp O POVO O caso foi registrado na manhã desta terça-feira, 2, em escola no bairro José de Alencar

Um estudante de 15 anos lesionou dois funcionários — um professor e uma coordenadora — e outro aluno na manhã de ontem, 2, em unidade do Colégio Christus, no bairro José de Alencar. As vítimas foram socorridas pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).

O responsável, conduzido à Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA), teve um Ato Infracional Análogo ao crime de lesão corporal dolosa lavrado. Na ocasião, equipes da Polícia Militar do Ceará (PMCE) foram acionadas e colheram informações no local para a investigação do caso.

Em nota, o Colégio Christus informou que “nenhum dos envolvidos corre risco de vida” e, após atendimento médico, já tiveram alta hospitalar. Como o caso envolve menores de idade e a investigação segue em curso, a instituição de ensino não divulgará detalhes adicionais, com o objetivo de “preservar a privacidade e a integridade” das pessoas ligadas à ocorrência e suas famílias. 

O texto dia ainda que o colégio lamenta profundamente o ocorrido e está colaborando integralmente com as autoridades. "Nossa atenção agora está voltada para oferecer o suporte e o acolhimento necessários a toda a nossa comunidade escolar”, finaliza o comunicado. De acordo com apuração do O POVO, após o ocorrido as aulas na unidade escolar foram suspensas e os alunos foram liberados. 

O familiar de uma das vítimas, o aluno que cursava o 1º ano do Ensino Médio, mas de turma diferente do agressor, relata que o estudante que foi lesionado teria sido perfurado 12 vezes, sofrendo lesões no rosto, na bochecha, nas costas e nos braços.

Ele recebeu os primeiros socorros no Frotinha da Messejana e, em seguida, foi transferido para um hospital da rede privada. O aluno recebeu alta hospitalar e fez as suturações, com pontos em diversas partes do corpo. Ainda segundo o parente, a família está abalada e revoltada. “É um absurdo. Chega a ser algo tão chocante que você não sabe nem como reagir. Você nunca imaginaria”, disse. O POVO não divulga o nome do familiar para preservar a identificação do estudante, que é adolescente.

O Ministério Público do Ceará (MPCE), por meio do Centro de Apoio da Educação e do Programa Previne, também lamentou a ocorrência de mais um caso de violência no interior de uma escola.  O Programa Previne, desde 2023, é responsável por estimular as instituições de ensino públicas e particulares do Estado na promoção da “cultura de paz no ambiente escolar”. Com esse objetivo, o MPCE cita a criação das Comissões de Proteção e Prevenção à Violência contra Crianças e Adolescentes.

A iniciativa foi aderida por todos os 184 municípios cearenses, além do Governo Estadual. De acordo com o informe, o programa vem beneficiando “quase 1,5 milhão de estudantes em cerca de 5.500 escolas, incluindo 50 instituições de ensino privadas”. Até o momento, mais de 4.500 comissões foram criadas.

“O Ministério Público reitera a importância das unidades de ensino discutirem o tema, desenvolverem ações de prevenção a casos de bullying, cyberbullying e outras expressões de violência e darem o suporte necessário aos discentes, docentes e profissionais da Educação”, completa.

O Sindicato de Educação da Livre Iniciativa do Estado do Ceará (Sinepe-CE) prestou solidariedade à instituição de ensino, aos estudantes, às famílias e aos profissionais envolvidos. A organização destacou ainda a atuação conjunta com o Ministério Público do Ceará por meio do Programa Previne, incluindo ações de prevenção, cuidado emocional e proteção nas instituições de ensino.

“O Sindicato permanece ao lado das escolas pela segurança e proteção da comunidade escolar e atua para oferecer suporte técnico, institucional e jurídico. A entidade seguirá colaborando com todas as autoridades para aprimorar estratégias de prevenção e garantir a integridade de crianças, adolescentes e profissionais da educação”, ressaltou o Sinepe-CE.

Em 25 de setembro deste ano, o município de Sobral, a 213,19 km da Capital, também registrou um episódio de violência envolvendo uma escola no Ceará. Dois alunos de uma escola estadual de ensino médio foram mortos a tiros, após serem atingidos no pátio da instituição pelos disparos. 

Outras três vítimas, também alunos da escola, foram lesionadas no abdômen, na coxa e na panturrilha. O trio foi levado para a Santa Casa de Misericórdia de Sobral e recebeu atendimento médico.

 

 

FORTALEZA, CEARÁ, 13-01-2023: Saúde mental dos trabalhadores (Foto: Thais Mesquita/ O Povo)
FORTALEZA, CEARÁ, 13-01-2023: Saúde mental dos trabalhadores (Foto: Thais Mesquita/ O Povo)

Especialistas apontam que cuidar da saúde mental dos estudantes é desafio

A crescente preocupação com o bem-estar emocional e a segurança nas escolas evidencia o desafio urgente em discutir saúde mental e violência escolar. A adolescência é um período determinante para o desenvolvimento de habilidades sociais e emocionais, mas o ambiente escolar — espaço de formação, convivência e aprendizado — também reflete problemas sociais mais amplos, como exclusão, adoecimento psíquico e competitividade.

No Brasil, um em cada seis adolescentes entre 10 e 19 anos vive com algum transtorno mental, segundo o relatório Situação Mundial da Infância 2021, do Unicef. Essa parcela está mais exposta a riscos como automutilação, depressão e suicídio.

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Desenvolvimento de crianças e adolescentes

De acordo com a psicóloga e doutora em Educação pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Ticiana Santiago, o desenvolvimento humano depende de relações sociais consistentes e ambientes de referência positiva. “Quando essa socialização primária (família) ou secundária (escola e demais espaços sociais) é deficiente, conflitos surgem e podem se manifestar de forma violenta”, explica.

Segundo a especialista, ainda predomina a visão ultrapassada de que “a escola instrui e a família educa”, um modelo desconectado das necessidades da sociedade atual. Para atender ao desenvolvimento integral, ela defende que o ambiente escolar incorpore práticas de inteligência emocional e gerenciamento de conflitos.

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“É necessário abrir-se para temas transversais que dialoguem com políticas intersetoriais de assistência social e saúde”, orienta. Ela também aponta o uso de arte, música, escrita e jogos como formas de expressão para que adolescentes representem suas dores e sofrimentos.

O vínculo com professores, o clima escolar e a convivência entre pares também são fundamentais. “Uma escola viva, partícipe e representativa é essencial”, destaca.

Impacto emocional e os desafios da adolescência

O acesso constante a informações pelas redes sociais intensifica a ansiedade e a impulsividade entre os jovens. Segundo a doutora, muitos adolescentes apresentam dificuldade de autorregulação emocional e baixa tolerância à frustração. Muitas vezes, convivências traumáticas vividas na família passam despercebidas. “Se o adolescente já está em sofrimento psíquico na família e a escola não oferece acolhimento, o cenário pode se agravar”, explica.

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As violências psicológicas — como bullying e racismo — também deixam marcas profundas. Um ambiente escolar excessivamente focado em notas pode se tornar um espaço de adoecimento.

A psicóloga clínica e sociocomunitária Glaina Santos acrescenta que, após a pandemia, houve atrasos expressivos nos processos de ensino-aprendizagem, mas o sistema educacional não se adaptou à nova realidade. “Para muitos adolescentes, especialmente entre 12 e 15 anos, a escola se tornou um ambiente assustador”, aponta.

Uma pesquisa Datafolha, encomendada por Itaú Social, Fundação Lemann e BID, mostrou que 34% dos estudantes têm dificuldades de controlar suas emoções desde o retorno às aulas presenciais.

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Estratégias de prevenção: o cuidado em rede

A doutora Ticiane Santiago destaca que a prevenção de conflitos no ambiente escolar depende de estratégias psicossociais apoiadas no trabalho em rede e em políticas intersetoriais que considerem fatores como classe, raça e gênero. “A escola precisa conhecer e acionar a rede que a compõe — como Defensoria Pública, psicólogos e serviços de proteção — e receber suporte contínuo desses atores”, explica.

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Segundo ela, alguns sinais de alerta passam frequentemente despercebidos, como mudanças bruscas de comportamento, isolamento, alterações nos hábitos alimentares, queda no desempenho escolar e produções que evidenciam dor ou sofrimento. Nesses casos, a abordagem deve se basear no vínculo e na escuta qualificada, sem julgamentos, sobretudo em relação às mães e mulheres. “O acolhimento precisa vir acompanhado de orientação e, quando necessário, do acionamento de mecanismos de proteção, como os Conselhos Tutelares”, afirma.

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Para enfrentar a violência na escola e seus desdobramentos, a psicóloga Glaina Santos ressalta a importância de ações integradas e contínuas.

Entre elas, o fortalecimento dos vínculos entre escola, famílias, comunidade e profissionais de saúde; a formação permanente de professores; iniciativas de cuidado emocional para docentes e responsáveis; e a inserção da educação socioemocional na rotina escolar, com mediação de conflitos e projetos que promovam a cultura de paz. “Não se pode pensar apenas em metas, notas e Enem. A escola precisa ser um espaço de convivência saudável”, reforça.

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O papel da psicologia escolar

Glaina enfatiza ainda que a psicologia na escola não tem como função realizar atendimento clínico individual. A função principal é fortalecer a comunidade escolar por meio de ações coletivas.

“A psicologia escolar atua com grupos psicoeducativos para tratar temas como ansiedade na adolescência, criando estratégias de fortalecimento socioemocional”, explica.

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Ela lembra que as formas de violência variam conforme o território da escola. “Se o sistema escolar não se modificar e continuar no formato atual, os agravos tendem a ocorrer com maior frequência”, alerta.

Razões multifatoriais da violência escolar

A violência no ambiente escolar não ocorre de forma isolada, mas reflete um conjunto de fatores sociais, culturais e psicológicos. Como espaço de convivência e formação, a escola reproduz tensões presentes na sociedade — da exclusão social ao adoecimento psíquico e às disputas entre grupos.

Para a psicóloga Luísa Freire, 37, a violência escolar é multifatorial e expressa tensões presentes na sociedade. “A escola não está imune aos processos de violência. Há choques de valores e culturas. Não é só violência física — há violências mais invisíveis que também ganham espaço”, afirma.

Dados da Agência Tatu, com base no DataSUS, mostram uma escalada nas notificações de violência em escolas entre 2014 e 2024. Mesmo com a menor taxa proporcional entre as regiões, o Nordeste registrou aumento de cinco vezes no período. O Ceará lidera esse avanço, com alta de 943% em dez anos. No Brasil, os casos triplicaram: de 3.746 em 2014 para 14.747 em 2024. A violência física é a mais frequente, seguida por agressões psicológicas e sexuais.

Luísa explica que comportamentos agressivos não devem ser reduzidos à responsabilidade de um único aluno, pois envolvem vulnerabilidades psíquicas e culturais.

A adolescência, por si só, é um período crítico, marcado por mudanças biológicas e sociais, fragilidade da autoestima e sensação de deslocamento. Segundo Luísa, esse processo muitas vezes ocorre de forma solitária, com afastamento entre jovens e responsáveis. “A violência surge como sintoma de processos de adoecimento cultural que se refletem no sujeito. E nem todo transtorno psiquiátrico envolve violência”, aponta. Ela reforça que a parcela de transtornos associada à agressividade é pequena, mas costuma gerar pânico social.

Luísa também destaca que desigualdades socioeconômicas e territoriais agravam tensões entre estudantes e que a própria lógica escolar — baseada em rankings, desempenho e cobrança constante — alimenta competitividade e rivalidades. Por isso, defende ações contínuas de cuidado emocional, não restritas a palestras, além de formação para professores atuarem de modo preventivo.

Uma fase peculiar

Crianças e adolescentes são seres humanos que estão em uma fase peculiar de desenvolvimento, na qual existe uma forte tendência para a reprodução de atitudes e comportamentos vistas nos adultos. Desse modo, a violência infantojuvenil cresce em nossa sociedade acompanhando a escalada de violência geral. O fenômeno é complexo e multicausal, no qual concorrem questões estruturais e culturais.

Nesse cenário, podemos apontar o afrouxamento dos parâmetros axiológicos, dinâmicas familiares nas quais a autoridade dos pais é confundida com autoritarismo e a liberdade dos filhos com licenciosidade, ainda é preciso repensar também o tempo e o investimento em jogos que fomentam a competição e a violência. Os pais precisam ser vigilantes quanto ao conteúdo que seus filhos estão consumindo na internet.

As instituições escolares, por sua vez, precisam incluir em seus currículos temas transversais como a cultura de paz, o respeito e a busca de soluções conflituosas pautadas no diálogo, oferecendo aos alunos um contraponto à cultura do ódio disseminada em nossa sociedade. Investir nessas temáticas não significa negligenciar os
conteúdos disciplinares.

Nota da Redação

O POVO opta por não publicar foto, vídeo, nome ou qualquer detalhe sobre autores e como ocorrem ataques em escolas. A decisão atende a recomendações de estudiosos em comunicação e violência. Entendemos que a divulgação dessas informações pode vir a estimular novos agressores, que usem a divulgação como forma de promoção de atos de violência.

O POVO mantém esta conduta deste 2023 e pretende continuar a postura em casos subsequentes, podendo reavaliar se novos estudos indicarem rumos que tragam maior segurança à sociedade.

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