
Em uma ação inédita, a Federação Paulista de Futebol (FPF) proibiu a presença de público em 144 partidas das categorias Sub-11 e Sub-12, por duas rodadas. A decisão, batizada de “Pais de Castigo”, é a resposta extrema a uma escalada de hostilidade que transformou o futebol de base em um palco de violência e preconceito.
Entre junho e setembro deste ano, foram registradas 46 ocorrências nas arquibancadas desses jogos, conforme a própria Federação. No ano passado, foram 34. Os casos incluem ofensas a crianças, como crimes de injúria racial e homofobia, brigas, ameaças e outros atos de violência e hostilidade, a maioria cometidos por pais e responsáveis pelas crianças.
O presidente da FPF Reinaldo Carneiro Bastos espera que a medida tenha feito alguns pais refletirem sobre o comportamento que têm nos jogos. “As atitudes deles são, acima de tudo, observadas pelos filhos, que não querem e não merecem passar por situações de agressividade e descontrole como as que temos observado”, diz.
A esperança de que a criança se torne a nova revelação do futebol brasileiro e, em muitos casos, a expectativa de lucro familiar, está entranhada na cultura do esporte. É essa projeção de sonhos e ambições adultas que acaba transformando o jogo infantil em um ambiente de pressão insustentável.

Miguel tinha 8 anos quando entrou no time de futebol da escola onde estudava. As mães, Gabriela Gavioli e Thais Olardi, queriam que o filho praticasse um esporte coletivo para incentivar o convívio social, por isso o futebol foi a opção escolhida e Miguel virou goleiro.
Pouco tempo depois, Miguel foi convidado pelo professor para participar do time da escolinha dele, com foco nos campeonatos. Foi nesse momento que a experiência ganhou nuances desagradáveis.
As mães de Miguel se depararam com uma realidade até então desconhecida, onde adultos, pais dos jogadores das equipes adversárias, ficavam atrás do gol e proferiam insultos, xingamentos, palavrões e até mesmo praticavam crimes de injúria contra Miguel e as outras crianças.
Para Gabriela e Thais a hostilidade era uma tática estruturada para atingir o emocional das crianças, o que, na visão delas, não fazia sentido, uma vez que ali deveria ser um ambiente de formação humana, de construção de civilidade e de apoio emocional.
Esse mecanismo de desestabilização emocional é confirmado por Jonatas Souza, pai de João Lucas, de 10 anos, que saiu das escolinhas de Fortaleza e hoje joga na base do Palmeiras. Ele, que foi jogador de futsal profissional, vivenciou a mesma cena de pressão e relata que o filho chorou após ser alvo de um pai adversário em um jogo de futsal.
Quando confrontado, o agressor confessou o objetivo: "Eu estava tentando desestabilizar ele um pouco, para ver se a gente conseguia ganhar de vocês."
Jonatas Souza complementa que essa mentalidade se baseia na crença de que os meninos já têm que se acostumar com a pressão, “porque vão escutar muito isso quando eles forem jogar nas profissionais”. Ele, no entanto, reforça que isso é uma perigosa normalização da violência verbal como preparo para o futuro.
Apesar de internamente a escolinha promover ensino sobre o coletivo, Gabriela e Thais sentiram falta de uma estrutura para o enfrentamento do comportamento hostil em campeonatos.
"A gente escuta muito que o esporte educa, mas quando a gente olha por esse aspecto, parece que não educa tanto assim," lamenta Gabriela. A decepção foi grande, pois o objetivo de colocar o filho em um time era justamente o contrário: "Era para ser esse espaço mais leve, divertido, de socialização, de um ajudar o outro, um apoiar o outro."
Em vez disso, experimentaram a intolerância, e questionaram se aquele era um ambiente no qual qualquer criança deveria estar. "Não é nenhum ambiente saudável para os filhos deles estarem, num lugar em que eles veem que é normalizado xingar uma outra criança, sabe?", reflete Gabriela.
G.*, educador físico e treinador em uma escolinha de futebol, que pediu para ter sua identidade preservada por questões profissionais, relata que essa cópia de comportamento é frequente em campo.
"Em casos de bullying entre as crianças, a gente consegue muitas vezes perceber que é algo que vem sendo ouvido, reproduzido, que ela (a criança) tem vivenciado em casa ou em outros ambientes," avalia.
Ao refletirem sobre a experiência, Gabriela e Thais veem a ação da FPF como uma medida "necessária" devido à falta de controle, mas focam a solução na mudança de mentalidade.
"A primeira coisa é a expectativa. Não precisa colocar a sua expectativa frustrada em cima do seu filho. Lembra que são crianças," aconselham.
Elas sugerem que as escolinhas criem momentos de conversa com psicólogos e penalizem rigidamente a hostilidade: "É muito triste que teve que chegar nesse ponto de os pais serem impedidos de assistir. Mas como não tem respeito, não tem outra medida."
Para G., a hostilidade adulta é um obstáculo direto à formação de caráter. "Se o futebol de base tem como objetivo formar cidadãos, na minha visão, permitir que a criança cresça em um ambiente onde a intolerância e a hostilidade dos adultos são normalizadas, prejudica a formação integral da criança, especialmente em valores como respeito, empatia e trabalho em grupo."
O professor endossa que a medida da FPF, apesar de drástica, tornou-se necessária e diz acreditar ser a decisão mais eficaz no momento. “Talvez o correto seria uma reeducação, tentar fazer com que eles entendam isso, mas como é um trabalho que demanda muito tempo, acho que é o melhor para o momento, pensando nas crianças."

Por um lado, a perpetuação de um ambiente hostil mostra a falha do futebol em produzir uma educação que gere mudanças. Por outro, a vivência em um ambiente assim traz um custo alto, pago pelas crianças, que podem ter seu desenvolvimento emocional prejudicado.
As mães de Miguel relatam que, após um tempo vivenciando esses momentos de hostilidade nos campeonatos, ele passou a demonstrar comportamento mais irritadiço. Ele não tinha mais vontade de fazer as atividades que considerava prazerosas, até chegar ao ponto de não querer mais jogar futebol. “Inclusive, até jogar no condomínio ele parou”, destacam.
G. confirma que a pressão tem um custo emocional diário e visível. "A pressão dos pais por resultados atrapalha diretamente o plano de aula e o desenvolvimento da criança. Com muita frequência, as crianças chegam ao treino relatando choro, medo de errar e um nível de ansiedade que é totalmente incompatível com a idade", indica.
Segundo ele, muitas vezes o professor precisa assumir um papel de “escudo” ou “protetor” para tentar blindar a criança da violência.
Para o treinador, a hostilidade inverte o propósito fundamental do esporte, transformando-o em uma experiência destrutiva: “O principal malefício dentro disso é a criança, o adolescente, o atleta que ao invés de ser incentivado, vai ficar traumatizado.”
Conforme Diego Gaspar, psicólogo e palestrante que já atuou nas categorias de base do Ceará Sporting Club, o impacto psicológico dos ataques é de longo prazo e confirma que a vivência nesse ambiente pode trazer traumas profundos.
"O impacto pode se desenvolver ao longo de toda a vida da criança que é ofendida, pois desde cedo passa a carregar consigo insegurança e sentimentos como culpa, inadequação e incapacidade," afirma. Ele reforça que o prejuízo mais imediato é o desenvolvimento de um elevado nível de estresse, que pode culminar em insônia, depressão e ansiedade infantil, e, frequentemente, no desinteresse pelo esporte.
A necessidade de blindar a criança é reforçada por Jonatas Souza. Ele viu o filho passar de um ambiente onde era um jogador destaque para “ser mais um” dentro da base do Palmeiras, o que gera uma nova camada de pressão: "Ele tem que conquistar o espaço dele, e é normal as crianças não quererem errar por medo de perder espaço."
Diante disso, Jonatas e a mãe de João Lucas se esforçam para ser um escudo, motivando-o e fortalecendo sua saúde mental, a fim de evitar que a pressão da alta performance o leve a desistir.

Famílias e especialistas concordam que punições como a implementada em São Paulo, embora necessária no momento, não é a solução definitiva. A raiz da hostilidade exige um trabalho de longo prazo de educação focado em valores e cidadania.
O psicólogo Diego Gaspar reforça que o foco deve ser a formação humana. "Penso que a educação é sempre a forma mais abrangente. Trazer formação em valores para dentro dos esportes, trabalhar virtudes como generosidade, coragem, disciplina e amizade, teria consequências diretas não só no futebol, mas em toda a vida dessas crianças", defende.
A mudança de comportamento, contudo, é um desafio que exige a autorreflexão do adulto. Jonatas Souza, que também teve o sonho de ser jogador, relata que teve que botar a mão na consciência. "Eu queria ficar lá no intuito de ajudar meu filho, querendo dar instruções, só que acabava atrapalhando," confessa.
Para o professor G., a interferência dos pais "atrapalha muito o trabalho e confunde a cabeça das crianças", que ficam em dúvida sobre quem escutar – o professor, o treinador ou o pai. "Em muitos casos, os pais agem sem o devido respeito, achando que entendem mais do que o professor ou treinador que está ali à frente do trabalho," relata.
A prática é tão prejudicial à formação que alguns clubes profissionais adotaram a blindagem como política interna. É o que acontece no Palmeiras, por exemplo. Jonatas Souza confirma que o clube impede o acesso, fechando os portões dos treinos e realizando as saídas em ônibus sem o acompanhamento dos responsáveis.
Para ele, a medida, que visa o melhor desenvolvimento da criança, é um reconhecimento da ineficácia do adulto no processo, no entanto, argumenta que a ausência de diálogo e suporte especializado nessa estrutura expõe a falta de cuidado com a saúde mental dos atletas e dos pais.
As mães de Miguel, Gabriela e Thais, também sentem a necessidade do suporte psicológico. Para elas, o ideal seria que as escolinhas promovessem momentos de conversas, com a presença de psicólogos, inclusive com os pais, para abordar esses assuntos, para acolher os pais e as crianças e para também ouvir e desmistificar a questão do suporte psicológico de atletas, que ainda é rodeado de tabus no meio ambiente do futebol profissional.
A carência dessa estrutura é evidente no sistema. Jonatas relata que o apoio psicológico é escasso, tanto nas escolinhas quanto na base profissional. Embora alguns lugares afirmem ter esse suporte, ele os considera intangíveis: faltaria uma ação mais efetiva e mais próxima, que ele diz achar fundamental e necessária para os atletas e para os pais.

Questionamos a Federação Cearense de Futebol (FCF) a respeito do acompanhamento das competições de base e do fornecimento de alguma estrutura para coibir esse tipo de comportamento dos pais, visando proteger a saúde mental das crianças e adolescentes. O ente respondeu que tem recebido diversos relatos de mau comportamento, tanto por parte dos pais dos atletas quanto das próprias comissões técnicas, porém, ainda não há uma medida concreta para coibir essas ações.
Entretanto, a curto prazo, visando garantir a integridade do ambiente esportivo, a alternativa mais viável seria a realização das partidas com portões fechados, adotando o mesmo procedimento da Federação Paulista.
A FCF informa que essas atitudes não se restringem apenas a um grupo. Uma vez que muitos jogos das categorias de base são realizados em centros de treinamento das equipes, é comum a presença de atletas de outras categorias que também acompanham as partidas e que apresentam o mesmo tipo de comportamento.
Ao ser questionada sobre a promoção de ações de conscientização, a Federação Cearense afirma que até o momento há apenas discussões internas para a implementação de ações preventivas e punitivas para as próximas competições.
As crianças não deveriam ter que esperar tanto tempo para haver uma estrutura de conscientização a fim de protegê-las de hostilidade e crimes praticados por adultos. O caminho para a mudança parece ser longo e, para os especialistas e para as mães de Miguel, esse caminho tem que passar pela educação dos adultos e pela construção de uma estrutura que iniba a perpetuação de comportamentos hostis e violentos.
Jonatas Souza, que vivenciou a hostilidade na arquibancada, conclui que a punição, embora drástica, tornou-se o único caminho para iniciar a mudança: "Eu acho que as punições estão sendo o principal fator para reflexão. A partir das punições que a gente está começando a ver alguma mudança." Ele argumenta que os pais estão "malucos que estão doidos para ver os jogos do filho e não podem", e que ao reabrir os portões, o comportamento será diferente.