A emergência climática evidenciada nos últimos anos tem afetado diversas cidades no mundo, entre elas, as metrópoles. Em Fortaleza, um dos principais sinais do avanço da crise ambiental é o calor, já que 66,9% dos bairros da Cidade possuem temperaturas de superfície acima de 40°C.
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O dado faz parte de um estudo em desenvolvimento por membros do Laboratório de Climatologia e Estudos Ambientais (Climas) do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC) e remete a valores registrados na década entre 2011 e 2020.
Ao todo, foram analisadas as temperaturas de superfície dos bairros ao longo de 40 anos, nos períodos de 1984 a 1990, 1991 a 2000, 2011 a 2020 e 2021 a 2024. O dado utilizado é referente à década de 2011 a 2020 por ser a última completa analisada no estudo, considerando que os dados a partir de 2021 ainda são parciais, mas mantêm o índice na casa dos 66%.
Base do estudo realizado pelo Climas, a temperatura de superfície nada mais é do que o valor em graus celsius de materiais como asfalto, paredes e outras superfícies que refletem os raios solares no dia a dia.
A medida é diferente da temperatura geral do ambiente e da sensação térmica, mas tem relação direta com ambas, de modo que quanto maior a temperatura geral, maior a temperatura de superfície e maior a sensação térmica.
Na Capital, os locais listados com temperatura acima dos 40° atingem áreas nobres e periféricas, em maior presença nas regionais 1, 2, 3, 4, 5, 10, 11 e 12. Entretanto, segundo um dos autores da pesquisa, essas altas temperaturas são sentidas de formas diferentes nos bairros menos desenvolvidos.
"A gente verificou que esses bairros mais periféricos apresentam maior desconforto térmico diurno, naquele momento de sol tinindo. Será que essas pessoas estão preparadas para esse desconforto térmico? Elas têm infraestrutura para amenizar esse calor dentro das residências? Tem ar condicionado no local de trabalho dessas pessoas? Então acaba que a temperatura de superfície vai interferir diretamente no modo de vida dessas populações", pontua Antônio Júnior, doutor em Geografia e membro do Climas.
Na casa de Liduína Oliveira, 52, na Barra do Ceará, o calor tem obrigado a ela, os pais já idosos e o filho de 8 anos, a tomarem cada vez mais banhos por dia.
Segundo a empresária, antigamente apenas abrir as janelas para arejar a casa já amenizava a sensação de calor, mas de uns tempos para cá, "o vento parece que está mais quente".
"A gente fica correndo atrás de tomar um banho, mas muitas vezes a gente já sai do banheiro com o mesmo calor. Às vezes a minha mãe e meu pai lá em casa, que são idosos, dizem assim: 'Meu Deus, o céu parece que está baixando o Sol'. Não tem mais hora. É de dia, é de manhã, é de tarde, de noite, toda hora a gente sente muito calor", conta a moradora da Barra do Ceará.
Como não se pode tomar banho a todo minuto, a família também apela para o uso de ventiladores. Liduína conta que com exceção da área, todos os cômodos da casa possuem ventiladores, que ficam ligados durante grande parte do dia para aliviar o calor.
Esse "refresco", entretanto, tem custado ao bolso da família, que já relata aumento no valor das contas de energia, devido ao uso contínuo do eletrodoméstico. Mesmo assim, a opção ainda é por pagar mais caro para poder suportar as altas temperaturas.
"A gente prefere se submeter a pagar uma taxa. Porque se tá usando, obviamente vai pagar as consequências, né? A gente sente sim no bolso, porque, infelizmente, precisa da utilização dos ventiladores com mais frequência, que na minha casa não é só um. Lá na minha casa, se você for em cada em cada cômodo tem um", conclui Liduína.
Prejuízos à saúde são nítidos
Os malefícios causados pelas altas temperaturas vão muito além da sensação de calor. Com a alta dos termômetros, nosso corpo tende a liberar mais suor, em uma tentativa de refrescar o corpo. Apesar de natural, essa resposta pode causar a desidratação do corpo, levando a problemas imediatos como desmaios e desorientações mentais, bem como a consequências duradouras, como insuficiência renal.
Para evitar essas enfermidades, a principal solução apontada por especialistas é o consumo de frequente de líquidos, preferencialmente de água, mas também podem entrar nessa conta isotônicos ou água de coco. "A hidratação é o principal ponto. A gente não deve ingerir água e outros líquidos para se hidratar somente quando está com sede. A sede é um sinal de que estamos desidratados e precisamos buscar uma fonte de água. Idealmente a gente tem que beber de 2 a 2,5L de água por dia", explica a médica chefe de equipe da Unidade de Pronto Atendimento Autran Nunes, em Fortaleza, Luíza Marques.
Os sintomas desse calor são sentidos dentro e fora do corpo. Se as altas temperaturas prejudicam o armazenamento de líquidos, a contínua exposição ao Sol traz graves prejuízos à pele.
Exercícios físicos ou quaisquer outra atividade que exija grande esforço não são recomendáveis para serem praticados ao ar livre entre 10 horas da manhã e 16 horas, período em que os raios ultravioleta estão mais fortes. "Evitar também líquidos com grande quantidade de açúcar, porque o açúcar em excesso pode ser um diurético. Ter cuidado nas festas de Pré-Carnaval, sempre se hidratar", complementa Marques.
É necessário também ficar atento aos sintomas de problemas mais graves, especialmente em crianças e idosos, que possuem maior dificuldade em equilibrar a temperatura do corpo. "Quando o paciente apresenta sintomas persistentes ou sinais de gravidade se deve buscar uma UPA. Fraqueza intensa, mal estar que não melhora com hidratação, tontura que evolui para desmaio, confusão mental, vômitos repetidos que dificultam a ingestão de líquidos, febre alta associada a um tempo de exposição grande ao calor, falta de ar, dor no peito ou doenças já existentes que pioraram por causa do calor" lista o médico e gerente de cuidados das UPAs do Ceará, Tarcylio Esdras.
Tendência é de que temperaturas sigam crescendo em toda a Cidade
Nas primeiras décadas analisadas pela pesquisa (1984 a 1990 e 1991 a 2000), apenas 3% dos bairros de Fortaleza tinham temperaturas de superfície acima de 40°C. Atualmente, esse nível mais crítico é observado em dois terços da Cidade, e segundo o estudo do Climas, esse índice tende a continuar crescendo nos próximos anos.
Isso porque os movimentos que geraram esse aumento de temperatura seguem ativos, como, por exemplo, a maior ocupação da Cidade. Antônio Júnior, doutor em Geografia e membro do Climas, explica que nas décadas de 1980 1990, o contingente populacional de Fortaleza se concentrava mais próximo à praia, com um menor número de pessoas mais ao Sul e nos extremos oeste e leste.
À medida que a população aumenta, a busca por locais para moradia, comércio e outras atividades também cresce, fazendo com que as áreas in natura da Cidade se transformem em áreas urbanas cada vez mais ocupadas e quentes.
"A gente sabe que Fortaleza hoje, segundo dados do IBGE, do último censo, é a capital brasileira mais densa, mais densa que São Paulo, que Rio de Janeiro, que Belo Horizonte... A nossa proporção, população x território, faz com que a nossa cidade seja extremamente ocupada. E essa ocupação gera também demanda por espaço urbano que vai suprimindo o que a gente já tem de natural", explica o geógrafo.
Com a metrópole ainda em expansão, a expectativa é de que a busca por locais de moradia e comércio, bem como o desmatamento de áreas verdes, continuem, o que deverá elevar ainda mais o percentual de bairros sob criticidade de temperatura.
"Nós submetemos testes estatísticos para identificar se há uma tendência significante para a elevação dessa temperatura no decorrer dos anos. [resultado] A partir de 1,96 é considerado significante para aumento da temperatura. Nós tivemos resultados acima de três. Ou seja, além da nossa própria percepção, estatisticamente falando, conseguimos comprovar que a temperatura de superfície da cidade de Fortaleza está tendendo a aumentar nos nos próximos anos", projeta o Júnior.
A percepção sobre o aumento de temperatura é perceptível para o fortalezense. O ponto comum: o calor dentro de casa está cada vez maior. Francisco Matias, vendedor de água de coco na avenida Beira-Rio, na Barra do Ceará, conta que passa os dias com as portas abertas para o vento entrar em casa.
"É porta aberta, muitos banhos, ventiladores... aí fico lá deitado recebendo o vento que entra. O calor é grande demais. Mas aqui é correndo vento e fazendo calor. Aqui [na Beira-Rio] agora mesmo eu estou sentindo o vento e o calor", afirma o morador.
Nas ruas, um dos maiores algozes é o transporte público. Com o acúmulo de pessoas em um espaço pequeno e falta de climatização em parte da frota alencarina, o calor naturalmente sentido pelos usuários parece se multiplicar dentro dos veículos.
É o que diz Antonete Teixeira, 54, também moradora da Barra do Ceará, mas que trabalha na avenida Bezerra de Menezes. Rotineiramente ela vai de coletivo para o emprego, momento o qual ela afirma ser o mais desafiador do dia.
"Eu vou de ônibus. Tem ar-condicionado não. É uma calor terrível, sufocante. Passa quando chego onde eu trabalho que tem ar-condicionado", conta a moradora.
Procurada pelo O POVO, a Empresa de Transporte Urbano de Fortaleza informou que atualmente 72,86% dos ônibus de Fortaleza são climatizados. A projeção, segundo a Etufor, é de que haja uma climatização gradual da frota ao longo de 2026, com a chegada de novos 120 veículos, que elevariam a taxa de ônibus com ares condicionados para até 79,86%.
Na Praça Portugal, logradouro do bairro Aldeota, mesmo a sombra gerada pelas árvores ao redor do logradouro não têm dado conta de socorrer quem faz caminhadas, trabalha ou mesmo só está transitando por ali.
"Normalmente tanto faz ser na rua como dentro de casa, se não tiver um ventilador, a gente sente calor da mesma forma. As árvores fazem pouca diferença. Você está aqui e não sente a ventilação. É muito prédio então fica mais abafado ainda", pontua o auxiliar de serviços gerais, Antônio Duarte, 56 anos.
Áreas verdes são mais resistentes
Se por um lado as áreas urbanas de Fortaleza sofreram um aumento grotesco de temperatura, esse salto é menor em pontos que ainda preservam grandes áreas verdes. De acordo com o levantamento realizado pelo Climas, os bairros com a menor temperatura de superfície na Cidade são o Salinas, na faixa de 30° a 35°C e o Cocó, onde o índice varia de 35 a 37°C.
Em comum, os dois bairros possuem a alta preservação de vegetação, com o Salinas tendo 66% de cobertura vegetal urbana e o Cocó 44%. Os dados são do Instituto de Pesquisa e Planejamento de Fortaleza (Ipplan).
Segundo o laboratório Clima, regiões como o Parque do Cocó podem registrar sensação térmica até 6°C menores do que pontos menos arborizados da Terra do Sol. "Nós instalamos um termômetro dentro da parte do Cocó e comparamos com diferentes padrões construtivos na Cidade. Meireles, Conjunto Ceará, Bom Jardim... e o Parque do Cocó, por exemplo, como área vegetada, pode apresentar na mesma hora, minuto e segundo, temperaturas até 6°C, 7ºC mais baixa do que as outras áreas da cidade. Então, a vegetação é o principal caminho que a gente tem para combater o estresse térmico e outros problemas relacionados ao clima urbano", pontua Antônio Júnior, doutor em Geografia e membro do Climas.
Prefeitura monitora dez regiões
A Prefeitura de Fortaleza tem utilizado dez estações meteorológicas para monitorar temperatura, velocidade dos ventos, nível de precipitação e outras características do clima de Fortaleza. Instaladas em setembro de 2025, em parceira com a Defesa Civil de Fortaleza (DCFor), as estações irão servir de base para a elaboração de políticas públicas contra o calor na Capital.
A medida se encontra ainda em período de estudos. O compilado de dados coletados entre setembro de 2025 e setembro de 2026 será utilizado para definir onde e de que forma o poder público deve atuar para combater o avanço do calor na Cidade.
"A partir do momento em que eu utilizo dados mais próximos da Cidade, eu consigo ver a diferença térmica entre alguns bairros e desenhar políticas públicas mais assertivas e que sejam prioritariamente implantadas em áreas mais vulneráveis. Isso vai subsidiar políticas na área de arborização, meio ambiente, desverdeamento da Cidade e também na área de saúde pública por questão do calor", afirma a analista de planejamento do Ipplan Fortaleza, Dalila Menezes.
A Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma) afirmou que a nova versão do plano deve ser lançada no primeiro semestre deste ano. O documento trará informações atualizadas sobre as principais ameaças climáticas que afetam Fortaleza, e dados recentes da Defesa Civil sobre ocorrências registradas nos últimos anos.