Em meio a disputas e protestos de grupos econômicos europeus no processo de ratificação do acordo entre Mercosul e União Europeia, o Brasil já se movimenta na preparação para os termos da abertura comercial.
Entre benefícios previstos, como a ampliação das exportações de produtos primários e semi-acabados, desafios estruturais se impõem, como a exigência europeia por rastreabilidade para evitar produtos com origem de desmatamento.
De dimensões continentais e diferenças regionais, o Brasil deve sentir os efeitos econômicos da zona de livre comércio de maneira diferente, conforme estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV).
Os dados revelam que Nordeste e Norte apresentam oportunidades mais restritas, dependentes de políticas complementares de infraestrutura, certificação e apoio produtivo.
Os resultados indicam que o impacto final dependerá menos das concessões tarifárias em si e mais da capacidade institucional, financeira e produtiva de cada região em se adaptar às novas condições de competição e acesso ao mercado europeu.
Por enquanto, a ratificação do acordo no Parlamento Europeu deu um passo atrás e deve sofrer atraso ao projetado inicialmente. Na última quarta-feira, 21 de janeiro, foi aprovada uma resolução que solicita um parecer jurídico do Tribunal de Justiça da União Europeia (TJEU).
Assim, antes de os eurodeputados votarem a aprovação ou não da parceria UE-Mercosul e o acordo provisório, eles devem ser submetidos a uma avaliação jurídica.
Para o economista e pesquisador do Ibre/FGV, Flávio Ataliba, supondo que tudo que está proposto permaneça inalterado, o impacto positivo para o Nordeste e o Ceará deve se dar no primeiro momento.
Apesar de o Nordeste ter uma pauta exportadora bem menor em relação ao Sudeste, que domina por volta de 55% das vendas de bens do Brasil para a UE e mais de 60% das compras, os produtos importantes da cesta nordestina como as frutas tropicais, açúcar e etanol devem ser um divisor de águas para a economia, avalia Flávio.
“No primeiro momento, várias tarifas caem logo imediatamente para uma série de produtos, o que será muito bom para o Ceará, ao incluir também produtos siderúrgicos e metalmecânicos, entre outros segmentos importantes para a nossa balança”, afirma.
Na outra mão da via, a chegada de produtos europeus ao nosso mercado tem o potencial de reduzir a carestia em algumas cadeias, aponta. Exemplos disso seriam os queijos, vinhos, azeites e produtos eletrônicos, como máquinas e equipamentos.
Neste sentido, a questão se volta a como a nossa indústria deve reagir e se preparar para a abertura comercial a produtos europeus, ainda que existam cotas, limites e período de transição de 15 anos.
Para o especialista, a economia brasileira na totalidade precisará se estruturar para não sofrer um choque, o que poderia gerar risco de desindustrialização.
“Identificamos que a indústria brasileira - em diversos exemplos, como a automobilística e de autopeças - teve historicamente a proteção com tarifas de importação de 30% no Mercosul, no caso dos veículos, e entre 14% e 18% nas peças, a depender do produto, e isso vai zerar com 15 anos”.
E complementa: “A questão é saber se nossa indústria conseguirá evoluir, nos próximos 15 anos, o que não foi feito nos últimos 50 anos, em modernização e competitividade, para competir com economias muito mais maduras e ajustadas com longa tradição de comércio internacional”.
Levantamento realizado pelo Centro Internacional de Negócios da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (CIN/Fiec), com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), aponta que o fluxo comercial do Ceará com a União Europeia é superior ante qualquer outro bloco econômico - inclusive em relação ao Mercosul.
Em 2025, as exportações cearenses para os países de lá totalizaram US$ 447,1 milhões. Isso representa um avanço de 72% em relação a 2024 e o equivalente a 19,6% das exportações totais do Ceará no ano.
Esse desempenho posiciona a União Europeia atrás apenas de mercados individuais de grande porte, como os Estados Unidos, nosso principal parceiro e responsável por quase 50% dos negócios. O saldo da balança comercial entre o Estado e a UE é um superávit de US$ 197 milhões em 2025, um recorde no relacionamento bilateral, que reverteu o déficit de US$ 45 milhões registrado em 2024.
Karina Frota, gerente do CIN/Fiec, enfatiza que a União Europeia já se consolidou como um dos principais parceiros comerciais do Ceará, com destaque para a agroindústria (especialmente frutas), setor mineral e siderurgia.
Dado o contexto, ela aponta que é momento de os cearenses ampliarem a atenção para aquele mercado, agora mirando também os demais países membros, em busca de possibilidades de negociação.
Para a gerente do CIN/Fiec, esse “radar comercial” pode gerar estratégias para o Estado potencializar seu alcance, aproveitando vantagens competitivas como a logística e a geografia estratégica.
“Temos 27 possibilidades de negociação dentro do bloco, então precisamos estudar essas pautas de importação para potencializar a exportação do Ceará. Visualizar países que ainda não compram nossos produtos por conta de preço que ainda não chegava competitivo e em como o acordo permitirá encontrar essas interseções”, afirma.
Confira os assuntos econômicos no Ceará, no Brasil e no Mundo
Siga o canal de Economia no WhatsApp para ficar bem informado
As exigências da União Europeia para fazer negócios com o Mercosul
O processo de avanço das exportações deve ser mais rápido para as cadeias que mantêm relacionamento com o mercado europeu, mas uma série de normas e padrões são fundamentais para que mais produtos brasileiros cheguem aos países da União Europeia.
A avaliação é de Carina Lins, coordenadora de Sustentabilidade da Associação Brasileira de Automação - GS1 Brasil. Ela entende que a ratificação será uma oportunidade para a expansão de negócios no Exterior, mas existem desafios para o caso de novos exportadores.
“O acordo é positivo, mas existem condicionantes, como cumprir uma diversidade de regulamentações relacionadas a aspectos de qualidade e segurança do consumidor”.
Além dos sanitários, outra questão importante para o mercado europeu é a sustentabilidade, já que a lei antidesmatamento da União Europeia (EUDR) regulamenta sete commodities e seus derivados (soja, carne bovina, madeira, cacau, café, borracha e óleo de palma).
A coordenadora da GS1 Brasil destaca que os exportadores precisarão ampliar os esforços em torno da identificação e rastreabilidade dos processos e produtos.
“A Europa vem regulando de maneira bastante consistente todo tema de alguma forma relacionada à pauta de mudanças climáticas. Essas sete cadeias são consideradas críticas do ponto de vista de desmatamento, então essas produções estão no radar e, para ter acesso às tarifas reduzidas, é necessário garantir rastreabilidade”, pontua.
O acordo estabelece algumas restrições práticas a produtos que vão até o nome e definições. A intenção é respeitar Indicações Geográficas (IGs) de produtos europeus, de regiões como Champagne e Parma, assim como sul-americanos, como os brasileiros queijo Canastra, café do Cerrado Mineiro, vinhos do Vale dos Vinhedos e as cachaças.
A UE exige que os produtos comprovem sua origem e cumpram padrões de segurança alimentar rigorosos. Então, alimentos que utilizem nomes que remetam a produtos de origem europeia terão de mudar sua nomenclatura, como exemplares brasileiros de “presunto parma” e “queijo gorgonzola” que não sejam europeus.
Ceará receberá embaixadora da União Europeia
O Ceará deve receber a embaixadora da União Europeia no Brasil, Marian Schuegraf, em fevereiro. A agenda está confirmada e o governador do Ceará, Elmano de Freitas (PT), quer aproveitar o momento para estreitar os laços diplomáticos após a assinatura do acordo Mercosul-União Europeia.
A embaixadora participou, na última quinta-feira, 22 de janeiro, de reunião com parlamentares no Senado Federal, em Brasília. O encontro foi dedicado à análise do novo cenário institucional e alinhamento de expectativas, além de fortalecimento de diálogos sobre interesses comuns entre Brasil e UE.
Do ponto de vista do Ceará, a secretária de Relações Internacionais do Governo do Estado, Roseane Medeiros, diz que já existe parceria com a Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec) de auxiliar as empresas exportadoras, assim como a ação de entidades como o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), no âmbito dos pequenos negócios.
A secretária também destaca a posição geográfica do Estado, a infraestrutura do Porto do Pecém em parceria com o Porto de Roterdã e a chegada da ferrovia Transnordestina, que potencializará a movimentação de grãos pelo Ceará.
“Tudo isso deve agregar para descobrirmos, inclusive, novas oportunidades, aumentar nossa participação no mercado europeu. E a orientação do governador Elmano é exatamente que busquemos todas as oportunidades que esse acordo possa trazer ao Ceará”, pontua.
Roseane diz ainda que, além de vender para os países, o Estado segue aberto para atrair investimentos estrangeiros, aproveitando de vantagens como infraestrutura digital e energia.
“Esse relacionamento internacional é importante demais, de se aproximar com as representações diplomáticas dos países”, diz.
Neste sentido, revela que o Ceará recebeu convite do Reino Unido para participar de edital de chamamento público para projetos de preservação de biomas, que aqui, no caso, seria a Caatinga. A iniciativa envolve aplicar recursos europeus a fundo perdido em projetos locais.
Outra perspectiva diz respeito a como o acordo de redução de tarifas no mercado europeu deve produzir impactos diretos no apetite de investimentos de empresas exportadoras já instaladas no Ceará. Ela cita o caso das mineradoras que exportam rochas, cogitando a possibilidade de instalação de uma indústria de beneficiamento.
Uma das principais exportadoras brasileiras com destino à União Europeia é a ArcelorMittal Pecém. A empresa lidera a balança comercial do Estado com destino ao continente. Somente os produtos siderúrgicos de ferro e aço responderam por mais de US$ 148,5 milhões em 2025 (vendendo para países como Polônia, França, Itália e Alemanha).
O Instituto Aço Brasil, entidade que representa o segmento, afirma ao O POVO que está acompanhando o tema, mas que as indefinições em torno da ratificação do acordo “impedem uma melhor avaliação dos impactos e das oportunidades decorrentes desse acordo para a indústria brasileira do aço”.
Sobre a necessidade de crédito para o fomento das atividades exportadoras, além de investimentos necessários para o fortalecimento das atividades industriais brasileiras, a Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE), representante do Sistema Nacional de Fomento (SNF), destaca a disponibilidade de linhas de crédito.
Já existem produtos disponíveis em instituições financeiras, como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Banco do Brasil e Banco do Nordeste (BNB), com foco em operações de comércio exterior, modernização produtiva e internacionalização.
Para o futuro, a ABDE está em tratativa com a Apex Brasil para fortalecer o crédito voltado à exportação com linhas e produtos financeiros, inclusive com foco em oportunidades futuras associadas ao acordo com a UE.
“Esse movimento também se insere em uma agenda que já vinha sendo reforçada após as medidas tarifárias adotadas pelos Estados Unidos em 2025, quando o governo brasileiro lançou instrumentos como o Plano Brasil Soberano, ampliando o apoio financeiro às empresas exportadoras”, diz a ABDE em nota.
Panorama do comércio Brasil - União Europeia
Comércio Bilateral (2025)
Vendas do Ceará para a União Europeia (País, valor e principais produtos)
Como ficarão as tarifas para os principais setores
Produto, atuais taxas e quanto ficaria com a ratificação do acordo