Era para ser apenas uma batida em busca de milhares de dólares ilícitos em uma casa abandonada. A partir de uma denúncia anônima pós-expediente, uma equipe de policiais de Miami é deslocada para averiguar a situação. Poderia ser mais uma ação de rotina. Relatar aos superiores, fazer a contagem e entregar o dinheiro.
Seria de rotina se, em vez de milhares de dólares, eles não tivessem encontrado US$ 20 milhões escondidos. Seria de rotina se outras forças não estivessem atrás de tamanha fortuna. Seria de rotina se os próprios policiais não se vissem cercados em meio à cobiça e a mentiras de seus colegas.
Leia também | Canal Brasil faz maratona para celebrar 60 anos de Karim Aïnouz
Agora, os rumos da missão mudaram: diante de tanto dinheiro, o desejo de embolsar parte da quantia impera e a desconfiança atinge a todos. Quem escapará dessa e quem irá se corromper?
Essa é a premissa do novo filme da Netflix, “Dinheiro Suspeito”, que envolve o público a partir das tensões criadas pela falta de confiança entre os personagens. A obra chega ao streaming nesta sexta-feira, 16.
Estrelado por nomes como Matt Damon, Ben Affleck, Steven Yeun (“The Walking Dead”) e Teyana Taylor (“Uma Batalha Após A Outra”), o longa-metragem é aposta de suspense e ação da plataforma neste início de ano.
Com roteiro e direção de Joe Carnahan, “Dinheiro Suspeito” imerge no equilíbrio entre a adrenalina do temor ao inimigo e o suspense da investigação da apreensão milionária.
A obra é ambientada por poucos cenários, reduzindo a chance da história assumir um tom megalomaníaco e se deixar ser levada por caminhos que não interessam ao enredo.
As poucas locações acabam permitindo aos realizadores o foco nos comportamentos humanos em vez de preferir dar destaque a cenas mais complexas de ação.
Elas existem, mas ocorrem em momentos pontuais do filme e coerentes à proposta. Pelo valor encontrado e por outras pessoas estarem interessadas no dinheiro, é natural pensar no confronto pela força.
Entretanto, esse tipo de duelo não rege a condução da trama. Quem faz isso é a desconfiança, sentimento vendido logo de cara pelo filme. De fato, faz sentido.
A equipe de policiais, tão unida no início, desmorona pouco a pouco. Ninguém confia em ninguém e a situação piora gradativamente.
A integridade e a ética desses profissionais são postas em xeque a todo momento. Eles ocupam um cargo que não abre (ou não deve abrir) brecha para corrupção.
O problema é que cada um tem seu motivo para pegar uma parte do dinheiro, desde dificuldades financeiras a “ter perdido tudo na vida”.
Há até passagens nas quais são reforçados os problemas de orçamento de seus departamentos, “sem terem verba para horas extras”. Ora, nesses cenários é válido separar alguma quantia, não? Afinal, talvez nem faça falta pegar uma pequena parte dos US$ 20 milhões.
Bem, isso é o que o roteiro apresenta a eles, mas a postura de alguns policiais pode desmantelar esse plano corrupto, o que também os coloca na mira.
Essas tensões preenchem a produção e mostram que, às vezes, a confiança realmente tem preço.
Em “Dinheiro Suspeito”, valem ser ressaltadas as atuações, capazes de transmitir, na medida certa, os sentimentos de urgência, aflição e desconfiança sobre os cenários que se desenham na trama.
Ao espectador, resta esperar e observar as soluções e descobertas finais com a mesma angústia dos personagens.
Nesse sentido, destaque para os protagonistas. Por motivos diferentes, Matt Damon e Ben Affleck conferem aos seus personagens elementos eficientes de captura de atenção do público.
As interpretações do tenente Dane Dumars e do sargento JD Byrne convencem desde as posturas corporais às intensidades nos diálogos.
Afinal, realmente são amigos ou há conflito de interesses por trás? A dúvida é segurada pela plateia até os últimos momentos do filme — influência do roteiro, claro, mas também das atuações. Damon-Affleck é uma colaboração antiga, o que certamente contribui para a sintonia em cena.
Como esquecer de “Gênio Indomável” (1997), com o qual ganharam o Oscar de melhor roteiro? Ou de “Air: A História Por Trás do Logo” (2023)? Esses são apenas alguns exemplos dessa parceria de longa data — e de grande sucesso.
Mesmo com acertos, “Dinheiro Suspeito” é afetado por questões que não são inéditas - na verdade, elas têm impactado filmes e séries nos últimos anos, principalmente de streamings: o didatismo e a redundância.
No caso do longa-metragem, os problemas se concentram no início, quando a obra “precisa” pontuar de forma literal aquilo que será o tom do enredo: a desconfiança.
Isso ocorre, por exemplo, em um diálogo entre personagens, quando uma delas aconselha expressamente a outra a “não confiar em ninguém”.
Leia mais | Do humor ao mistério, as séries mais aguardadas para 2026 nos streamings
Quanto ao didatismo, ele é identificado em uma passagem na qual ocorre um interrogatório com policiais e, ao citar uma sigla, um deles precisa explicá-la, porque o outro não sabe seu significado — nesse caso, funcionando como se fosse o espectador.
A falta de maior margem para as entrelinhas pode afeta a fluidez da obra. Entretanto, não é capaz de estragar a experiência de quem a vê.
Ao longo de quase duas horas, o filme consegue reter bem a atenção, em uma trama cujas reviravoltas não parecem óbvias e surpreendem, de fato, pelos seus desfechos. Vale conferir.
"Dinheiro Suspeito"
Onde assistir: Netflix