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Empresas do setor imobiliário são as que mais desmatam em Fortaleza
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Reportagem Seriada

Empresas do setor imobiliário são as que mais desmatam em Fortaleza

Empresas do setor imobiliário são as que mais conseguiram da Seuma licenças ambientais para cortar árvores em Fortaleza. Dados obtidos via Lei de Acesso à Informação (LAI) mostram ainda que empresas também conseguem, em poucos meses, múltiplas autorizações para cortar novas árvores dentro de um mesmo terreno
Episódio 8

Empresas do setor imobiliário são as que mais desmatam em Fortaleza

Empresas do setor imobiliário são as que mais conseguiram da Seuma licenças ambientais para cortar árvores em Fortaleza. Dados obtidos via Lei de Acesso à Informação (LAI) mostram ainda que empresas também conseguem, em poucos meses, múltiplas autorizações para cortar novas árvores dentro de um mesmo terreno
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O desmatamento em Fortaleza tem, em grande parte, CNPJ e endereço conhecidos. Por trás das licenças para corte de árvores concedidas pela Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma) desde 2022, estão principalmente empresas do setor imobiliário e da construção civil, responsáveis por grande parte das autorizações sob a justificativa de “viabilizar construções” ou de “implantação de empreendimentos”.

A leitura dos processos administrativos mostra que as autorizações vão desde obras residenciais multifamiliares até a ampliação de comércios, estacionamentos e shoppings. As descrições, técnicas e detalhadas, revelam o impacto concreto dessas decisões: 

Serviços de supressão vegetal de 34 representantes de espécies arbóreas [...] a fim de viabilizar construção de uma residência multifamiliar (unidades compactas).

Serviços de regularização de supressão de 57 árvores e 815m² de massa herbácea e arbustiva, para o comércio atacadista de mercadorias em geral.

 

O levantamento, obtido com exclusividade pela Central de Dados O POVO+ por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), aponta a Tenda Negócios Imobiliários S.A. como a empresa com o maior número de árvores cortadas: 1.242 ao todo, considerando as autorizações obtidas sob dois CNPJs distintos.

Logo atrás aparecem a MRV Engenharia e Participações S.A. (sob quatro CNPJs diferentes), com 1.058 árvores, e a Montenegro Empreendimentos Imobiliários SPE Ltda., com 642.

Essas três companhias, todas do setor imobiliário, concentram sozinhas quase 3 mil árvores derrubadas na capital cearense entre janeiro de 2022 e setembro de 2025. Procuradas pela reportagem, Tenda e MRV afirmam que as supressões vegetais ocorreram dentro da legalidade e com cumprimento de medidas compensatórias. Montenegro, por sua vez, não retornou contato.

 

As empresas que mais receberam autorização para cortar árvores em Fortaleza

 


A Tenda informa que atua em Fortaleza desde 2019 e que já entregou 5.104 unidades habitacionais voltadas à Habitação de Interesse Social (HIS), destinadas a famílias das faixas 1 e 2 do programa Minha Casa Minha Vida.

“Todos os empreendimentos no Município possuem licenciamento ambiental regular, com autorizações para supressão vegetal concedidas pela Seuma, em conformidade com a legislação vigente”, afirma.

Segundo a construtora, “a empresa adota medidas mitigatórias previstas em lei, incluindo o plantio e a manutenção, por no mínimo dois anos, de mais de 5 mil mudas”, como forma de recomposição vegetal e de contribuição à sustentabilidade urbana da Capital.

Relatório da Seuma aponta a Tenda Negócios Imobiliários S.A. como a empresa com o maior número de árvores cortadas em Fortaleza desde 2022(Foto: Tenda Construtora)
Foto: Tenda Construtora Relatório da Seuma aponta a Tenda Negócios Imobiliários S.A. como a empresa com o maior número de árvores cortadas em Fortaleza desde 2022

Já a MRV diz que todas as autorizações de supressão vegetal vinculadas a seus empreendimentos em Fortaleza são concedidas pelos órgãos ambientais competentes.

“Desde 2021, todos os processos de supressão vegetal realizados no Município estão acompanhados do cumprimento integral das medidas compensatórias ambientais, com acompanhamento técnico e cronogramas previamente pactuados”, informa.

A construtora declara que, entre 2022 e o momento atual, “já executou ações de compensação ambiental correspondentes ao plantio e à manutenção de cerca de 19 mil mudas”, além de aproximadamente 2 mil em fase de execução.

Além do mais, afirma ainda que, “previamente a qualquer intervenção, é elaborado o Plano de Manejo de Flora, que identifica e avalia os indivíduos arbóreos existentes nas áreas dos empreendimentos. Sempre que possível e conforme os critérios estabelecidos pela legislação vigente, a medida prioritária é o transplantio de exemplares de relevância ambiental ou cultural e em bom estado fitossanitário.”

 

Setores econômicos que mais cortam árvores em Fortaleza (2022-2025)

 

As justificativas apresentadas nas licenças revelam a natureza das intervenções. Em sua maioria, tratam-se de projetos imobiliários de médio e grande porte, residenciais e comerciais. Às vezes, são acompanhados de pedidos de “reposição florestal compensatória”, prática exigida pela Seuma.

Algumas descrições, por exemplo, autorizam o corte de dezenas de espécies nativas, incluindo cajueiros (Anacardium occidentale), toréns (Cecropia pachystachya) e pau-pombo (Tapirira guianensis), frequentemente sob o argumento de que o terreno seria ocupado por “empreendimentos de interesse social”.

 

Exemplos de árvores cortadas a partir de licenças ambientais da Seuma

 

 

Empresa solicita diferentes licenças para desmatar a mesma área; Seuma autoriza

Outro ponto que chama atenção é a repetição de pedidos para supressão vegetal em um mesmo endereço. Documentos obtidos pela reportagem mostram que uma mesma empresa conseguiu, em poucos meses, múltiplas autorizações para cortar novas árvores dentro de um mesmo terreno.

Trata-se da Engeplan Engenharia S.A., que em apenas três meses de 2024 obteve três licenças distintas para suprimir vegetação em um mesmo lote localizado no bairro Lagoa Redonda.

Em julho de 2024, a empresa protocolou os três pedidos (S2024080003, S2024081661 e S2024081678), nos dias 4 e 25 (duas vezes). O primeiro pedido era para derrubar 80 árvores. Já o segundo, 58; o terceiro, 52 árvores.

Árvore cortada de forma irregular por construtora na rua Pereira Valente, esquina com Barbosa de Feitas(Foto: FCO FONTENELE)
Foto: FCO FONTENELE Árvore cortada de forma irregular por construtora na rua Pereira Valente, esquina com Barbosa de Feitas

As autorizações vieram meses depois. Em setembro, veio a primeira permissão emitida pela Seuma possibilitando a Engeplan derrubar 80 árvores – a posteriori esta autorização foi suspensa

No mês seguinte, em outubro, um novo aval para cortar 58 árvores. Já em novembro, mais 52 foram incluídas em uma terceira licença ambiental. No total, 190 árvores puderam vir abaixo sob justificativa de “viabilizar construção de um conjunto habitacional”.


As datas de solicitação da Engeplan e autorização da Seuma para corte de árvores

 

O POVO+ entrou em contato com a empresa para entender o porquê das autorizações terem sido solicitadas separadamente e não em conjunto, já que se tratavam de um mesmo terreno e de uma mesma obra. A própria Seuma também foi procurada para explicar se esse tipo de prática era comum, bem como se ela é legal e se está prevista na regulamentação vigente.

Não houve nenhum retorno da Engeplan.

Enquanto isso, a Seuma, por meio de nota enviada na tarde de 6 de novembro via e-mail, destacou que "a prática de fragmentação não ocorre e que as autorizações são emitidas por etapas, conforme a necessidade de parcelamento do solo, de modo a evitar impactos desnecessários sobre a flora e a fauna".

No dia seguinte, a equipe de reportagem compartilhou as três autorizações emitidas pelo órgão nos meses de setembro, outubro e novembro de 2024. Juntamente, apontou para os dados da planilha de registros da própria Seuma onde estão catalogadas as datas de solicitação da Engeplan.

Além disso, voltou a questionar se esse tipo de prática está legalmente ancorada nas normativas de Fortaleza ou se essa ação poderia ser classificada como fraude ou uma tentativa de minimizar a percepção sobre o impacto total do empreendimento.

Em nova resposta, a Seuma voltou a frisar que a "não existência da prática de fragmentação" e que os documentos compartilhados pela reportagem referem-se a três licenciamentos distintos. "Se tratam [sic] de habitações de interesse social, portanto, a legislação permite que os projetos arquitetônicos sejam analisados em concomitância com o projeto de parcelamento do solo. Logo, as autorizações foram emitidas com datas próximas. Cada projeto possui licença, autorização e alvarás distintos."

Em série de reportagens publicada em maio de 2025, O POVO+ explica como diversos problemas nos licenciamentos ambientais concedidos no Estado do Ceará, os quais nascem em diversas frentes, como na concessão de autorização para projetos irregulares, na falta de estrutura e fiscalização dos órgãos ambientais, e em mudanças na legislação que flexibilizam as regras ambientais. Para conferir, basta clicar aqui.

 

 

As compensações ambientais impostas para o corte de árvores

Para obter autorização para o corte de árvores, as empresas precisam atender a uma série de condicionantes impostas pela Seuma. O órgão exige que cada supressão vegetal seja acompanhada por medidas de compensação ambiental, normalmente na forma de plantio e doação de mudas semi-adultas de espécies nativas.

Essas mudas devem seguir critérios técnicos definidos na Instrução Normativa Seuma nº 06/2020: precisam ter ao menos 1,80 metro de altura até o primeiro fuste e diâmetro mínimo de três centímetros, além de apresentar boa formação e estar livres de pragas e doenças. A lista de espécies é orientada pelo Manual de Arborização de Fortaleza e a proporção de compensação varia conforme o impacto da intervenção.

Voltemos ao caso da Engeplan Engenharia S.A., que obteve em 2024 três licenças consecutivas para a mesma área na Lagoa Redonda. Em uma dessas autorizações (processo S2024080003, que posteriormente foi suspenso), a empresa foi autorizada a suprimir 80 árvores, mas obrigada a plantar 58 mudas dentro do empreendimento e doar outras 864 à Seuma — um total de 922 mudas.

A Seuma exige que cada supressão vegetal seja acompanhada por medidas de compensação ambiental, normalmente na forma de plantio e doação de mudas semi-adultas de espécies nativas(Foto: Samuel Setubal / O POVO)
Foto: Samuel Setubal / O POVO A Seuma exige que cada supressão vegetal seja acompanhada por medidas de compensação ambiental, normalmente na forma de plantio e doação de mudas semi-adultas de espécies nativas

Em outra autorização (S2024081661), além do corte de 58 árvores e 1.282 m² de vegetação arbustiva, a compensação exigiu o plantio de 58 mudas em locais determinados pela Seuma e a doação de mais 814. Já na terceira autorização (S2024081678) para corte de 52 árvores, a contrapartida da empresa foi de plantar 103 mudas nativas no empreendimento e doar 330 mudas à Secretaria.

Ou seja, para o corte de 190 árvores adultas, foram plantadas 219 mudas e doadas 2.008 à secretaria.

Segundo as normas da Seuma, o prazo para cumprimento das compensações é de até 90 dias após a execução do corte. As empresas também devem apresentar relatórios semestrais de acompanhamento por dois anos, registrando o desenvolvimento das mudas com fotos e localização georreferenciada. A quitação das compensações só é efetivada após a entrega desses relatórios e das notas fiscais que comprovem o plantio ou doação das mudas.

Em nota enviada ao O POVO+, a Seuma destaca ainda "o avanço das ações de reflorestamento e arborização urbana. Neste ano, foram realizados cerca de 34 mil plantios e doações de mudas, número quase cinco vezes superior ao registrado em 2024 (6.194)."

 

 

Só doação de mudas não recupera o que a cidade perde, diz pesquisadora

A política de compensação ambiental centrada na doação e no plantio de mudas levanta questionamentos contra a sua real eficácia. Segundo a professora da Universidade Federal do Ceará (UFC) Luana Viana, essa prática falha em recuperar o que foi perdido com a supressão de árvores, uma vez que uma série de problemas passam a comprometer os resultados esperados pelo Poder Público.

De acordo com a docente do curso de Engenharia Ambiental e Sanitária no campus de Crateús, parte relevante das mudas ofertadas pelas empresas é incapaz de se estabelecer no solo. Luana aponta a existência de “mudas muito pequenas que não conseguem se desenvolver ao serem plantadas” e menciona ainda a “alta taxa de mortalidade decorrente da inobservância dos procedimentos adequados”.

Segundo pesquisadora, a política de compensação ambiental centrada na doação e no plantio de mudas falha em recuperar o que foi perdido com a supressão de árvores(Foto: FÁBIO LIMA)
Foto: FÁBIO LIMA Segundo pesquisadora, a política de compensação ambiental centrada na doação e no plantio de mudas falha em recuperar o que foi perdido com a supressão de árvores

A ausência de manutenção adequada, especialmente irrigação, tutoramento e podas, reforça o quadro de ineficácia. A escolha das espécies também é um problema, já que, segundo ela, muitas vezes são utilizadas plantas “não-nativas ou de baixo valor estrutural/ecossistêmico”, incapazes de cumprir a função de restaurar os serviços ecossistêmicos perdidos.

Esse diagnóstico converge com os achados da pesquisadora Jessika Muniz Herculano Borba, que, ao analisar 22 projetos de supressão vegetal e suas compensações, observou que o modelo brasileiro se apoia em “uma única técnica, a de plantio de mudas de espécies arbustivo-arbórea”. Sua pesquisa foi publicada no trabalho de conclusão do curso de Tecnologia em Gestão Ambiental no Instituto Federal de Pernambuco, em 2020.

Nele, a pesquisadora demonstra que a compensação em número de mudas nem sempre corresponde ao impacto causado, já que a proporção entre o que é retirado e o que é plantado “não é equitativa” e pode alcançar valores “irreais”. Além disso, Jessika alerta que o número de mudas que realmente permanece vivo pode ser “bem menor do que aquele calculado”, especialmente quando o monitoramento e o replantio não ocorrem corretamente.

Ela também alerta para o risco de formação de “florestas vazias”, que ocorre quando o plantio de mudas não consegue recriar comunidades funcionais nem restaurar os processos ecológicos perdidos. Em outras palavras, o impacto da revegetação torna-se reduzido quando as mudas são plantadas longe dos núcleos urbanos afetados. Ou seja, quando estão muito distantes dos locais onde as árvores originais foram removidas.

Como alternativa, a professora Luana Viana defende uma reformulação desta política municipal, com foco na preservação e na recuperação de serviços ecossistêmicos, como sombra, infiltração, conectividade entre habitats, e não apenas na contabilidade de mudas entregues. Ela sugere ainda “redefinição de projetos no intuito de manter árvores”, adoção de fundações compatíveis com o sistema radicular, manutenção de áreas permeáveis e priorização de espécies nativas em arranjos heterogêneos.

 

Sugestões para melhoria das compensações ambientais para supressão de árvores

 

 

Metodologia

Para a elaboração desta reportagem, foram utilizadas bases de dados públicas obtidas via Lei de Acesso à Informação (LAI). As solicitações foram encaminhadas à Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma), referentes ao corte de árvores em Fortaleza entre 2015 e 2025.

Por meio do Sistema Eletrônico do Serviço de Informação ao Cidadão (e-SIC), disponível na plataforma Fortaleza Digital, foram requeridas informações como processo ou protocolo da solicitação; data do pedido e data da decisão; status do processo; endereço completo do local; quantidade de árvores a serem derrubadas; espécies arbóreas envolvidas; justificativa apresentada para o corte; nome da pessoa física ou jurídica requerente, incluindo CNPJ ou CPF; existência e tipo de compensação ambiental.

Após um processo que envolveu recusas, recursos administrativos e a intervenção da Controladoria e Ouvidoria Geral do Município (CGM) que determinou à Seuma a apresentar essas informações, a Central de Dados O POVO+ enfim teve acesso aos dados dos registros da secretaria sobre autorização para supressão vegetal.

Em resposta, a reportagem recebeu 11 planilhas referentes às autorizações, com informações como: número do processo; tipo de autorização; rua/avenida; bairro; data de solicitação e autorização; validade da autorização; CNPJ/CPF; atividade principal (objetivo e justificativa da solicitação; requerente; e número do documento.

A Central de Dados O POVO+ compilou todos os arquivos, organizando-os em uma mesma base de dados. Em seguida, realizou o tratamento e a limpeza dos dados, utilizando Google Planilhas e padronização de nomes com auxílio da inteligência artificial ChatGPT. Para aprofundar as pesquisas e compreensão das informações, também foi utilizada a plataforma de IA Notebook LM para consulta em documentos.

Com o objetivo de garantir transparência e reprodutibilidade, O POVO+ mantém uma página no GitHub, onde códigos e dados desta e de outras reportagens de dados podem ser acessados pelo público. Além disso, cada gráfico publicado na reportagem contam com botões de download, permitindo ao leitor acessar diretamente as bases utilizadas.

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Áreas verdes em Fortaleza

Série de reportagens especiais utiliza levantamento de dados exclusivo e trabalho investigativo para mostrar qual o futuro das áreas verdes de Fortaleza após a exclusão de zonas ambientais em 13 bairros da Capital. Diante dos efeitos da crise climática, o especial analisa o impacto dessa retirada para a Cidade e busca responder a seguinte questão: é possível o crescimento urbano coexistir com a sustentabilidade?