
Resumo
O ano de 2025 foi o terceiro mais quente registrado, com temperaturas 1,48 °C acima dos níveis pré-industriais.
No Brasil, a primavera é a estação com maior incidência de ondas de calor, superando o verão.
O Centro-Oeste brasileiro enfrenta ondas de calor mais longas, enquanto o interior registra episódios de maior intensidade.
A atividade humana, através da emissão de gases de efeito estufa, é a principal causa do agravamento das ondas de calor.
O calor está mudando a forma como a vida — humana, animal e vegetal — tenta se adaptar na Terra. Médicos, cientistas e ambientalistas alertam, no entanto, que toda adaptação tem um limite. E, segundo eles, o planeta está perigosamente próximo do seu limite.
Dados do relatório The Global Climate Highlights indicam que 2025 foi o terceiro ano mais quente já registrado, com temperaturas médias globais 1,48 °C acima dos níveis pré-industriais — um patamar considerado extraordinário pela comunidade científica.
"Níveis pré-industriais de temperatura indicam a temperatura média global da Terra antes da Revolução Industrial, ou seja, antes de a queima massiva de carvão, petróleo e gás começar a alterar o clima"
Especialistas são categóricos: a ação do homem não apenas contribuiu, como segue alimentando um planeta cada vez mais quente. O Acordo de Paris, criado para conter o aquecimento global abaixo de 1,5 °C, é descrito por pesquisadores como praticamente inviável nos moldes atuais.
Para muitos deles, a humanidade avança a passos largos rumo a um ponto de não retorno — um limite em que o custo da inação pode ser irreversível.
Silenciosas, negligenciadas e fatais, as ondas de calor fazem o início de 2026 ferver sobre sua própria dinâmica. Aos olhos despreparados, surgem como a face mais insidiosa da crise climática: não deixam destroços visíveis como tempestades ou inundações, mas corroem vidas, economias e a saúde coletiva sob um sol cada vez mais implacável.
Nas primeiras semanas de janeiro, o Ceará enfrentou ondas de calor com temperaturas até 3 °C acima da média histórica. Dados da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) indicam que, em alguns municípios, os termômetros chegaram a marcar 39 °C, ampliando o risco à saúde da população.
Além do calor extremo, a Funceme alerta para um cenário de chuvas escassas e irregulares. A combinação entre temperaturas elevadas e baixa precipitação tende a intensificar o desconforto térmico e potencializar os impactos do calor sobre o meio ambiente, a economia e a saúde pública.
Para dimensionar a intensidade com que as temperaturas aumentam ano após ano — e os impactos diretos desse calor extremo —, O POVO+ analisou dados meteorológicos brutos do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e ouviu o cientista e professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Alexandre Costa, para compreender o que o Brasil — e o mundo — estão arriscando ao negligenciar esse problema.

Definidas pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) como períodos de temperaturas anormalmente altas que persistem por ao menos dois dias consecutivos em relação ao padrão local, as ondas de calor não possuem um limiar global fixo: o que é extremo em Fortaleza pode ser rotina em Lagos (Nigéria) ou Jacarta (Indonésia), por exemplo.
“Não podemos confundir uma onda de calor com um simples período quente. Se olharmos para o semiárido, sabemos que os últimos meses do ano naturalmente apresentam temperaturas mais elevadas", comenta o cientista do clima e professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Alexandre Costa.
O que caracteriza uma onda de calor é justamente a duração do evento e o histórico de temperatura daquele local, naquela época do ano, explica o especialista.
Essa definição contextualizada é crucial para compreender o fenômeno em suas especificidades geográficas e humanas.
Embora, à primeira vista, pareçam simples — calor intenso e sol forte —, as ondas de calor são analisadas cientificamente a partir de parâmetros como magnitude (o quanto a temperatura ultrapassa o esperado), duração (dias consecutivos acima do limiar), extensão geográfica e gravidade, que combina intensidade e persistência.
Para facilitar o entendimento, pode-se pensar na onda de calor como uma "febre planetária localizada".
Assim como uma febre no corpo humano indica que a temperatura subiu além do que o organismo consegue gerenciar confortavelmente, a onda de calor é um pico de temperatura que sobrecarrega a capacidade de resfriamento tanto do ambiente quanto das pessoas que nele vivem.
O que torna as ondas de calor especialmente traiçoeiras é esse impacto direto sobre corpos humanos já sobrecarregados.
O calor extremo, além de comprometer a capacidade do organismo de regular sua própria temperatura, leva à desidratação, exaustão térmica, paradas cardíacas, complicações respiratórias e ao agravamento de doenças crônicas, como o diabetes — efeitos que, muitas vezes, só se tornam visíveis quando os serviços de saúde entram em colapso.
No Rio de Janeiro, onde os termômetros ultrapassaram os 40 °C entre os dias 9 e 11 de janeiro, a rede municipal de urgência e emergência registrou 1.734 atendimentos relacionados ao calor extremo. A maioria dos pacientes apresentava sintomas como tontura, vertigem, fraqueza e desmaios.
O número representa um aumento de 27,92% em relação à média dos anos anteriores. Crescimento diretamente associado à onda de calor que atingiu a cidade no período.

“Mais intensas e mais frequentes”: é assim que o professor Alexandre Costa define a evolução das ondas de calor. Nas últimas décadas, o mundo tem registrado um aumento alarmante na frequência, intensidade e duração desses eventos extremos.
Esse crescimento não é um fenômeno isolado, mas o resultado de uma engrenagem climática complexa, que envolve sistemas persistentes de alta pressão, interações oceânicas e a interferência direta da atividade humana.
Segundo dados do sexto relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), o que antes era considerado uma raridade estatística está se transformando no chamado “novo normal”, à medida que os mecanismos atmosféricos passam a operar sob uma atmosfera progressivamente mais quente.
“Ondas de calor que tinham um tempo de recorrência de 50 anos — ou seja, que aconteciam, em média, uma vez a cada meio século — eram extremamente raras. Com um aquecimento global de apenas 1°C, esses eventos se tornaram cerca de 4,8 vezes mais frequentes, praticamente cinco vezes mais comuns”, explica Alexandre.
Segundo o pesquisador, o equivalente térmico dessas ondas de calor com tempo de recorrência de 50 anos — eventos que tinham apenas 2% de chance de ocorrer em um determinado ano — passou a se manifestar em temperaturas 1,2 °C mais altas, mesmo em um cenário de aquecimento global limitado a 1 °C.
“O problema é que hoje o planeta já atingiu cerca de 1,5 °C de aquecimento. A progressão da gravidade do problema é clara e contínua ”, alerta.
Dados recentes de 2023, 2024 e 2025 indicam que essa tendência está longe de retroceder — um alerta inequívoco de que o planeta segue aquecendo sob a pressão contínua dos gases de efeito estufa emitidos pela atividade humana.
Relatórios científicos internacionais estimam que, entre maio de 2024 e maio de 2025, quase 4 bilhões de pessoas — cerca de metade da população mundial — enfrentaram ao menos 30 dias de calor extremo em suas regiões, um volume muito superior ao que seria esperado na ausência das mudanças climáticas.
Em todos os eventos significativos de calor extremo identificados nesse período, o aquecimento global desempenhou um papel mensurável — e, em muitos casos, decisivo.
Na Região Europeia, por exemplo, ondas de calor recentes foram responsáveis por dezenas de milhares de mortes em anos consecutivos: mais de 60 mil em 2022 e quase 48 mil em 2023. Projeções indicam que esse número pode ultrapassar 120 mil mortes anuais até 2050, caso medidas robustas de adaptação não sejam implementadas.
No Brasil, ao menos 48 mil mortes foram associadas a ondas de calor entre 2000 e 2018, segundo estudos conduzidos por cientistas brasileiros e portugueses ligados a instituições como a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a Universidade de Lisboa.
Alexandre Costa teme que o aumento desenfreado das temperaturas facilite a ocorrência de tragédias semelhantes à registrada no Paquistão em 2015, quando uma onda de calor levou os termômetros a ultrapassarem os 49 °C e resultou na morte de aproximadamente 700 pessoas no sul do país em três dias do mês do Ramadã.
Naquele episódio, o calor extremo, somado ao jejum prolongado do Ramadã, levou ao colapso dos sistemas de saúde. Hospitais ficaram superlotados e o número de mortos superou a capacidade local de armazenamento e sepultamento, evidenciando como os esforços de emergência se mostraram insuficientes diante da magnitude da crise.
Casos como esse revelam como as ondas de calor, apesar de sua elevada capacidade mortífera, ainda tendem a ser negligenciadas em diferentes esferas da sociedade. Registros históricos de eventos semelhantes ao redor do mundo indicam que episódios de calor extremo já causaram milhares de mortes, reforçando o risco crescente que essas ocorrências representam para a humanidade em um cenário de aquecimento global.
Quer ler mais sobre meio ambiente? Acesse a coluna da jornalista Catalina Leite

Entre 2019 e 2022, os números pareciam apontar para um alívio nas temperaturas para os brasileiros. Ano após ano, o volume de dias sob ondas de calor caiu. Em 2019, foram cerca de 2.769 registros de calor extremos nos municípios brasileiros (é possível ter mais de um registro por município).
Em 2022, o País chegou ao menor patamar da série, com 968 registros de calor extremo.
Mas essa trajetória foi interrompida de forma abrupta em 2023. Em apenas um ano, o número de registros de calor extremo quase triplicou. No ano mais quente da história, segundo o IPCC, foram registrados 2.821 eventos.
Série histórica das ondas de calor entre 2019 e 2025
Em 2025, houve um recuo natural após o pico crítico do biênio 2023–2024. Ainda assim, o total de 1.680 eventos manteve o sinal de alerta ligado. Mesmo com a redução, o País fechou o último ano com quase o dobro da carga térmica registrada em 2022, considerado o melhor.
Ao contrário do que tendemos a imaginar, não é o verão a estação mais quente do País. A análise dos 13.547 eventos registrados entre 2019 e 2025 mostrou que a primavera assumiu o posto de estação mais crítica.
Quantidade de ondas de calor por mês
Sozinhos, os meses de setembro, outubro e novembro concentraram 7.003 ondas de calor, o equivalente a 51,7% de todo o fenômeno no período analisado. O verão, tradicionalmente associado ao calor extremo, ficou com 4.461 eventos, ou 32,9% do total.
Ou seja, a cada dez ondas de calor no Brasil, cinco ocorreram na primavera e apenas três no verão.
Os dados mostram que o Centro-Oeste não apenas sofre mais com o calor extremo, mas sofre de forma diferente. Enquanto outras regiões registram picos rápidos, o centro do país enfrenta longos platôs de temperatura, que podem durar até quatro vezes mais.
Quantidade de ondas simultâneas por regiões
Em 2023, no auge dos bloqueios atmosféricos, a curva de municípios atingidos no Centro-Oeste ficou paralisada no nível máximo por 18 dias consecutivos. Durante quase três semanas, o número de cidades em onda de calor simplesmente não diminuiu — uma linha reta no topo do gráfico.
O comportamento contrasta com o observado no Sul e no Sudeste, onde os dados desenham verdadeiras agulhas. Nessas regiões, o número de cidades afetadas sobe rapidamente, mas também cai com a mesma velocidade. Mesmo nos eventos mais severos, o pico costuma durar três a quatro dias antes de recuar.
Barras e sub-barras sobre ondas de calor detalhadas
Uma leitura detalhada dos dados revelou três faces da severidade climática no Brasil: repetição, persistência e intensidade.
Na frequência, o epicentro está em Paracatu (MG) e Baixa Grande do Ribeiro (PI). Cada uma dessas cidades enfrentou 39 ondas de calor distintas no período analisado.
Na prática, isso significa viver um ciclo quase contínuo de estresse térmico, com novos episódios começando, em média, a cada dois meses.
Em outros lugares, o problema não é a repetição, mas a permanência. Tocantins se destaca pela carga acumulada. Em Santa Fé do Araguaia, foram registrados 216 dias sob condições de perigo, o maior número do país — o equivalente a sete meses vivendo acima do limite de tolerância térmica.
Já a face mais extrema da intensidade apareceu em São Miguel do Araguaia (GO), onde os termômetros atingiram 42,9 °C. O dado deixa claro que o interior do Brasil não enfrenta apenas ondas de calor mais longas, mas episódios fisicamente mais agressivos, capazes de pressionar corpos, cidades e ecossistemas até o limite.

Embora sistemas de alta pressão e fenômenos naturais como o El Niño sejam responsáveis pelo surgimento das ondas de calor, sua severidade atual tem uma causa primária clara: a atividade humana.
O vínculo entre o aquecimento global — resultado da queima de combustíveis fósseis, do desmatamento e da emissão de gases de efeito estufa — e o aumento extremo de temperaturas é considerado inquestionável por estudos recentes de atribuição.
Curiosamente, o próprio homem, que é responsável pelo problema, também é quem mais sofre com ele. As ondas de calor atingem a vida humana em diversas dimensões, e seus efeitos vão muito além do desconforto.
O professor Alexandre Costa aponta algumas consequências imediatas: o estresse hídrico das plantas, que compromete a fotossíntese e pode levar à mortandade de árvores; o aumento do risco de incêndios florestais, que degradam a qualidade do ar e liberam aerossóis na atmosfera; e impactos em setores estratégicos da economia e da sociedade.
Entre todas as consequências, o impacto mais imediato e alarmante recai sobre o corpo humano. Em condições extremas de calor, o organismo perde a capacidade de regular sua temperatura interna. O calor metabólico gerado pelo próprio corpo não consegue ser dissipado para o ambiente, e o indivíduo entra em hipertermia, que pode evoluir para colapso orgânico, falha cardiorrespiratória e morte.
As ondas de calor, portanto, não são apenas números ou registros históricos: elas tocam diretamente a vida das pessoas, impondo limites que, em muitos casos, o corpo humano não consegue suportar.
E esse é apenas o começo da história. No próximo episódio, vamos mergulhar nos dados da saúde, analisando atendimentos de emergência, complicações e mortes atribuídas ao calor extremo, mostrando como o termômetro do planeta se traduz em sofrimento real nas cidades brasileiras.

Para entender como as ondas de calor passaram a fazer parte do cotidiano climático brasileiro, O POVO+ mergulhou em dados meteorológicos brutos do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET). As informações vêm de estações automáticas e convencionais espalhadas por todo o País e foram organizadas e analisadas com foco jornalístico, buscando traduzir números em realidade.
O recorte temporal vai de 1º de janeiro de 2019 a dezembro de 2025. Para saber o que é exceção — e o que já começa a virar regra —, a análise adotou como linha de base um histórico decenal iniciado em 2015, usado para definir o que seria considerado normal para cada local.
Ao todo, foram avaliadas as temperaturas máximas diárias de 489 estações de monitoramento. A definição de onda de calor seguiu critérios técnicos claros: são considerados eventos em que a temperatura máxima diária ultrapassa o percentil 90 (P90) do histórico local (2019–2024) por ao menos três dias consecutivos.
A partir desse ponto, os dados foram cruzados para revelar três dimensões do fenômeno: quanto tempo o calor dura, com que frequência ele se repete e quão intenso ele se torna. O objetivo foi identificar padrões regionais, sazonalidade e também os momentos em que recordes históricos foram quebrados.
Série de reportagens mostra como as frenquentes ondas de calor têm impacto na economia, acentuam a desigualdade social e trazem prejuízos à economia