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Ao invés de esmola, o homem pediu leitura
Foto de Ana Márcia Diógenes
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Jornalista, professora e consultora. Mestre em Políticas Públicas, especialista em Responsabilidade Social e Psicologia Positiva. Foi diretora de Redação do O POVO, coordenadora do Unicef, secretária adjunta da Cultura e assesora Institucional do Cuca. É autora do livro De esfulepante a felicitante, uma questão de gentileza

Ao invés de esmola, o homem pediu leitura

Sem julgar, e nem estranhar o pedido, o adolescente apenas atendeu, e leu
Tipo Crônica
Biblioteca Pública Estadual do Ceará realiza contação de histórias (Foto: Gabriel Sousa/Divulgação)
Foto: Gabriel Sousa/Divulgação Biblioteca Pública Estadual do Ceará realiza contação de histórias


Andamos cada vez mais apressados e sem tempo. Para muitos, talvez só sendo dois pra dar conta do que está agendado, do que surge sem avisar e do que se sonha fazer. Praticamente todos estão correndo. Vistos de um drone imaginário, devemos parecer formigas circulando por vários caminhos. Mas, somos gente. E é justo nestes caminhos apressados que as relações humanas se tornam mais distantes. Sem tempo, não há diálogo.

Se geralmente não sobra qualquer possibilidade de falar com familiares entre os diferentes percursos diários feitos por nós, formigas humanas, conversar com estranhos então se torna uma rara exceção. Os desconhecidos, na maioria das vezes, são meras sombras que passam por nossos olhos sem qualquer espaço e tempo para que se fixem na memória dos dias.

Só que (ainda bem!), os acasos trazem outras formas de diálogo que mostram ser possível e saudável quebrar a automação dos percursos que não deixam memórias. A realidade sempre as traz, mas precisamos percebê-las para nos permitir ir além da individualidade da pressa. Este mês soube de um caso assim.

Conheço Rafinha desde quando os pais eram solteiros. Hoje ele é um adolescente que começa a garimpar, passo a passo, o caminhar das descobertas de andar sozinho nas ruas próximas de casa. Algumas saídas para ir ao reforço escolar, outras à casa de amigos.

A mãe dele contou uma história que me fez refletir sobre esta questão das relações humanas e da importância que damos ao outro que passa ao nosso lado. Ainda mais, quando o outro é desconhecido.

Rafinha estava andando durante o dia, entre pedestres na rua, com a farda da escola, quando viu um homem em situação de rua sentado na calçada. Percebeu que ele queria falar algo. Não era sobre esmola. Não era uma situação que representasse insegurança.

- Você sabe ler, né?
- ⁠Sim, sei.
- ⁠Pode me fazer o favor de ler um trecho da Bíblia? ⁠Estou precisando ouvir, mas não sei ler.

O pedido foi atendido na mesma hora. Sem julgamentos, sem perguntas, o adolescente leu um trecho. O homem agradeceu e o adolescente seguiu o caminho para casa.

A mãe dele, que me contou este episódio, estava feliz pelo filho saber se relacionar, ouvir, não julgar a pessoa só pela aparência e também por falar para ela sobre o encontro.

Me senti reconfortada em saber que as novas gerações, mesmo com parte do cotidiano escorrendo pelas redes sociais, estão encontrando o próprio tempo de perceber o outro.

Tempo para elas próprias, tempo para os alguéns do mundo, tempo para aprendizados mútuos.

Obs. – A questão das relações humanas foi um dos temas que recebi como proposta de abordagem nesta coluna, após enquete que fiz no Instagram. Aos poucos vou escrevendo sobre os outros temas.

Quer sugerir o seu? Manda mensagem no meu perfil do Instagram @namarcia

Foto do Ana Márcia Diógenes

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