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Crise de saúde mental no Brasil
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Cientista política, professora e pesquisadora. Doutoranda em Ciência Política na Universidade de Brasília, mestra em Ciência Política pela Universidade Federal do Piauí, pesquisa políticas públicas. Faz parte da Red de Politólogas e da Rede Brasileira de Mulheres Cientistas. Escreve sobre política, literatura e psicanálise

Crise de saúde mental no Brasil

Nas últimas semanas manchetes contaram do recorde de afastamentos do trabalho em 2024. Segundo dados do Ministério da Previdência Social, tivemos quase meio milhão de casos em que adoecimentos de saúde mental levaram à necessidade de licença médica e pagamento de benefício por incapacidade temporária. É provável que o número seja ainda maior em decorrência de afastamentos não contabilizados.

Muitos chamaram de "crise de saúde mental" e atribuíram o fenômeno à pandemia e à economia, além de alertarem sobre impactos econômicos. De fato, a pandemia teve efeitos diretos sobre a saúde mental das pessoas, porém, as condições de trabalho no país têm passado por transformações há mais tempo. A precarização, por exemplo, se agravou ainda mais a partir do governo Temer e este é um marco incontornável para entender por que as pessoas têm adoecido ao ponto de não conseguirem trabalhar.

Em janeiro de 2025, 38,9% dos trabalhadores no Brasil eram informais, segundo dados do IBGE, este é parâmetro da insegurança econômica, atravessada pelas desigualdades estruturais da sociedade brasileira.

Afinal, adoecer e precisar ser afastado do trabalho sendo uma mulher e/ou pessoa negra coloca alguém numa posição de maior vulnerabilidade. O neoliberalismo está corroendo o mundo de dentro para fora e parece cada mais vez mais difícil criar possibilidades de vida diante do esgarçamento do tecido social. A escolha das matérias de pelo argumento de prejuízo econômico com os afastamentos, deixando de lado a saúde como direito, aponta para isto.

Como cientista política não posso deixar de me perguntar: e as instituições? Qual o papel de quem emprega no cenário de adoecimento mental generalizado? Há o limite óbvio de enfrentar aquilo que extrapola o local, mas será que as instituições não têm responsabilidade e possibilidade de promover a saúde mental de seus trabalhadores? E a relação, já evidenciada, entre assédio e burnout? Como é que as instituições, especialmente públicas, têm acolhido e encaminhado denúncias? Quais organizações têm implementado políticas de prevenção do assédio? Me parece que nesta "crise" há o que escapa, mas, há também o que é possível enfrentar. E fazê-lo é uma escolha. n

 

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