Foto de André Bloc
clique para exibir bio do colunista

Jornalista formado na Universidade Federal do Ceará (UFC). Foi repórter do Vida&Arte, redator de Primeira Página e, desde 2018, é editor de Esportes. Trabalhou na cobertura das copas do Mundo (2014) e das Confederações (2013), e organizou a de 2018. Assinou coluna sobre cultura pop no Buchicho, sobre cinema no Vida&Arte, assumiu espaço sobre diversidade sexual no mesmo caderno e, agora, escreve sobre a inserção de minorias (com enfoque na população LGBTQ+) no meio esportivo

André Bloc esportes

Laurel Hubbard dá passo definitivo para inclusão de atletas trans nas Olimpíadas

Levantadora de peso vai competir na categoria mais de 87kg. Apesar de não ser favorita a medalhas, a neozelandesa já fez história ao entrar na competição
Tipo Opinião
A neozelandesa Laurel Hubbard, de 43 anos, que é a primeira atleta transgênero a disputar uma Olimpíada (Foto: Divulgaçao)
Foto: Divulgaçao A neozelandesa Laurel Hubbard, de 43 anos, que é a primeira atleta transgênero a disputar uma Olimpíada

 

No dia 10 de agosto, por volta das 23h05min, a levantadora de peso Laurel Hubbard promete fazer história no esporte olímpico. Décima quinta colocada do ranking, a neozelandesa tem marcas modestas em comparação à favorita da categoria mais de 87kg, a mais pesada das modalidades femininas. Enquanto a representante da Nova Zelândia chegou a levantar 285 quilos, a chinesa Li Wenwen bateu os 335 quilos.

Então, não são as chances de medalha que fazem de Laurel Hubbard uma das histórias mais interessantes e complexas dos Jogos Olímpicos de Tóquio-2020. O que chama atenção é o fato de ela ser a primeira pessoa trans a competir em uma Olimpíada.

Não é algo esperado, mas Laurel até pode competir por medalha. Afinal, com os desfalques por limitação de atletas por país no levantamento de peso dentro do contexto de pandemia, ela saltou para a posição de sétima favorita entre as classificadas. O que dói é que os feitos e a jornada da discreta neozelandesa de 43 anos, que desde 2013 compete entre mulheres, ficam em segundo plano diante da tal discussão sobre “vantagens”.

Uma mulher trans, dizem, teria “vantagem” por ter crescido em um corpo “bombardeado” por mais testosterona. E eu não nego certa lógica no argumento, ainda que eu aponte que a visão hormonal seja reducionista. Se assim fosse, bastava medir a quantidade de hormônio masculino em alguém e dar a medalha. Esporte não se resume a isso.

Prefiro, porém, me curvar a um argumento retórico. Daí pergunto: “O que é vantagem?” Países ricos investem bilhões a mais em esportes. É justo que eles compitam com os “pobres diabos”? Michael Phelps nasceu com um pé enorme, com um torso em formato inusitado. Seria essa a tal da vantagem a ser combatida?

Ginastas menores partem na frente das maiores. A envergadura de um jogador de basquete é um fator diferencial. Ter nascido com uma capacidade descomunal de concentração fazia com que Usain Bolt reagisse mais rápido ao tiro de largada no início de uma corrida. Houve até a época dos supermaiôs na natação: quem podia comprá-los ganhava alguns centésimos de tempo em provas decididas por milésimos. O que é doping tecnológico ou que é avanço científico, crescimento social, econômico?

O que digo é: todo mundo tem uma vantagem. Todo mundo sempre vai ter. Até que ponto a gente pode apontar o dedo e dizer que essa linha não deve ser ultrapassada?

O limite é o próprio corpo. A testosterona não responde a todas as perguntas porque o esporte não se resume à força. A pesquisadora Joanna Harper publicou, ainda em 2015, extenso estudo sobre atletas trans (especificamente MTF, ou masculino para feminino), em que aponta que não existem dados substanciais que provem que competidoras que passaram por uma transição tenham desempenho melhor. A corredora admite que falta maior aprofundamento, mais gente pesquisando o tema de forma distanciada para criar regras ao mesmo tempo criteriosas e livres de preconceitos.

Claro, o levantamento de peso tem uma influência mais evidente da força. Mas também há o valor da agilidade, da concentração, da flexibilidade. Laurel talvez nem chegue perto de medalha. Talvez porque não seja boa o suficiente. Talvez porque a transição não deu “vantagem” a ela. Talvez porque ter de equilibrar desempenho de atleta de alto rendimento com o preconceito contra ela seja pesado demais.

Ou quem sabe ela ganha medalha segue a vida do jeito que merece, do jeito que ela quer. Na Olimpíada, a história está sempre sendo reescrita.

Dizem que a gente gosta de Olimpíada porque ali a gente vê seres humanos superando limites. Quem sabe seja a vez de superar essa fronteira do preconceito.

Dizem que esporte é inclusão. Pois que assim seja para Laurel Hubbard.

 

Essa notícia foi relevante pra você?
Logo O POVO Mais