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Jornalista formado na Universidade Federal do Ceará (UFC). Foi repórter do Vida&Arte, redator de Primeira Página e, desde 2018, é editor de Esportes. Trabalhou na cobertura das copas do Mundo (2014) e das Confederações (2013), e organizou a de 2018. Assinou coluna sobre cultura pop no Buchicho, sobre cinema no Vida&Arte, assumiu espaço sobre diversidade sexual no mesmo caderno e, agora, escreve sobre a inserção de minorias (com enfoque na população LGBTQ+) no meio esportivo

André Bloc esportes

Gramática opressiva: há quem só defenda o português formal quando é para diminuir alguém

Quinn e Alana Smith foram duas atletas não binárias a competir na Olimpíada de Tóquio-2020. E não machuca ninguém se esforçar para usar pronomes neutros para designar tanto Quinn quanto Alana
Tipo Opinião
Quinn, ouro com a seleção feminina de futebol do Canadá nas Olimpíadas de Tóquio, foi a primeira atleta trans medalhista olímpica (Jeff PACHOUD / AFP)
 (Foto: Jeff PACHOUD / AFP)
Foto: Jeff PACHOUD / AFP Quinn, ouro com a seleção feminina de futebol do Canadá nas Olimpíadas de Tóquio, foi a primeira atleta trans medalhista olímpica (Jeff PACHOUD / AFP)

Semana passada, falando sobre atletas LGBTQIA+ brasileiros na Olimpíada de Tóquio-2020, mencionei que eram as esportistas. Gramaticalmente, cometi um erro. Na prática, fiz justiça à maioria. Afinal, Douglas Souza, do vôlei, é o único homem listado, ao lado de 14 mulheres. A norma culta diz que esse único ser do sexo masculino impõe o próprio gênero ao plural das demais. Às favas com a gramática.

Língua é um troço vivo. O indivíduo pode insistir, mas sozinho não a move porque ela é cadenciada pelo tempo. A gramática é o hoje. Porém, ela sempre evolui. Não nos expressamos da mesma forma de 20 anos atrás, tampouco seguiremos na norma de hoje daqui a outros 20. E assim sempre será.

Essa particularidade machista do português no plural é compartilhada por parte das línguas latinas e é inexistente, por exemplo, no inglês, que prioriza o pronome neutro "the" (substituto de "o" e de "a"). Existe o "he" (ele) e o "she" (ela), mas também existe o "they" (eles/elas) em versão singular — termo este já dicionarizado, quer os puristas queiram ou não. O dicionário Merriam-Webster definiu a construção como palavra do ano em 2019. Ou seja, nem nova esta discussão é. 

Em português, a controvérsia ganha nova camada dentro da conjuntura machista com que os artigos definem as pessoas no plural. Eu mesmo gosto de optar pelo feminino elas, porque são todas pessoas. De qualquer forma, nossa língua acaba fazendo com quem identidades queer, não conformada com o que é lhe imposto, escolham um artigo próprio pela ausência de um padrão neutro. Elx, elu, ely. A mim, me parece que todo mundo deveria ter o direito de escolher a forma como os outros lhe tratam. Mas somos acostumados a perpetuar tradições e desde bebê assumimos gêneros baseados nas nossas projeções, independentemente do desejo do indivíduo.

Fiz um preâmbulo enorme para falar de Quinn, atleta trans não-binárie do Canadá campeão olímpico feminino de futebol. Quinn provavelmente não sabe uma palavra de português para entender as armadilhas da nossa língua, então não existe um padrão de denominação de gênero que eu possa usar. Opto por "elu", já que "elx" e "el@" não são bem acessíveis para deficientes visuais. Preferia que existisse um "they" singular. Quem sabe um dia.

Na estreia do Canadá, a narradora Natália Lara, do SporTV, mostrou tato único para tratar com naturalidade do assunto. Para comunicar, o que é a raiz disso tudo. "Agora vou usar um pronome de Quinn, para a entrada da Rose. Quinn que é uma pessoa trans não-binária, por isso a gente fala com o pronome neutro. Então saindo Quinn para a entrada da Rose". Sem dor, a jornalista incluiu. E o comentarista Conrado Santana, usando "elu", sublinhou a importância.

Quebrei minha promessa e li comentários em redes sociais e, para zero surpresa, choviam "defensores do português" — vários deles com crassos erros gramaticais. Repito, a língua é viva, ela evolui com a sociedade. Sequer falamos como os portugueses, que criaram a língua.

Esse argumento frágil é uma forma de oprimir fingindo que não está atacando — aliás, fingindo ser a vítima. Não é lá tão difícil vestir a pele do outro para tentar não machucar. É ato simples de gentileza, algo que, a cada dia mais, na nossa cínica sociedade, parece ser um superpoder. 

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