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Jornalista formado na Universidade Federal do Ceará (UFC). Foi repórter do Vida&Arte, redator de Primeira Página e, desde 2018, é editor de Esportes. Trabalhou na cobertura das copas do Mundo (2014) e das Confederações (2013), e organizou a de 2018. Assinou coluna sobre cultura pop no Buchicho, sobre cinema no Vida&Arte, assumiu espaço sobre diversidade sexual no mesmo caderno e, agora, escreve sobre a inserção de minorias (com enfoque na população LGBTQ+) no meio esportivo

André Bloc esportes

O papel do heterossexual dentro da luta LGBTQIA+

Desde os antigos "simpatizantes" no acrônimo GLS que a defesa da diversidade sexual não se restringe às minorias. Numa democracia, a maioria precisa proteger grupos de menos força
Tipo Opinião
O piloto alemão Sebastian Vettel usou camisa, máscara e capacete em alusão à luta LGBTQIA+ durante o GP de Budapeste, na Hungria (Foto: Reprodução / Instagram)
Foto: Reprodução / Instagram O piloto alemão Sebastian Vettel usou camisa, máscara e capacete em alusão à luta LGBTQIA+ durante o GP de Budapeste, na Hungria

Dia desses, o Brenno Rebouças, colega do Esportes O POVO, me mandou um link sobre o piloto Sebastian Vettel usar as cores da bandeira LGBTQIA+ no capacete, na máscara e em uma camisa antes, durante e depois do GP de Budapeste, na fundamentalista Hungria. E, desde então, o velho termo GLS me martela a cabeça.

Cresci entreouvindo o termo, que, para quem não sabe, significava "gays, lésbicas e simpatizantes", mas que há décadas caiu em desuso. Depois veio o GLB — "gays, lésbicas, bissexuais" —, em seguida inverteu-se o G e o L, ganharam-se mais Ts (transexuais, travestis, transgêneros), o Q, de queer, somou protagonismo como termo guarda-chuva e novas identidades chegaram nesse emaranhado de letras. Hoje, pelo menos no Brasil, o mais correto é usar LGBTQIA+, como costumo fazer. Neste caso, o I inclui pessoa interssexuais, o A as assexuais e o + qualquer outra denominação não assumida dentro do contexto de diversidade sexual.

Sendo sincero, não gosto das constantes mudanças — é confuso e aumenta a noção de estranheza e exceção. Mas defendo com veemência a importância delas. A ideia é incluir e, se o termo restringia, melhor ampliar. A única "queda" nisso tudo foi do status dos "simpatizantes". E é claro que ela é correta, porque a opressão que eles sofrem se restringe à empatia, algo que deveria ser inerente aos humanos.

O alemão Sebastian Vettel é casado com uma mulher, tem quase tantos filhos quanto títulos da Fórmula 1, mas ainda assim fez questão de mudar sua rota para criticar as leis homofóbicas do Parlamento da Hungria, dominado pela mão de ferro do ultraconservador Viktor Orbán.

Vettel é um aliado, um simpatizante alieando de nosso acrônimo, mas ainda abraçado à causa. E ele é importante, como todo atleta de esporte massivo que defende a inclusão. Porque, sejamos sempre claros, minorias têm pouco poder. Por isso são grupos minoritários. Se toda a população heterossexual fosse homofóbica, viveríamos em estado de genocídio perene.

O papel do majoritário é ter empatia. Ajudar a defender quem está mais exposto. No esporte, existem correntes sendo construídas.

A liberal Alemanha dá o exemplo, em contraposição à Hungria de Orbán. Já foi assim na Eurocopa, quando a cidade de Munique tentou "ligar" as luzes da Allianz Arena com as cores da bandeira LGBTQIA+, também em protestos contra as leis húngaras. A Uefa barrou, sugerindo que fizessem o mesmo em qualquer outro jogo. Ou seja, protegeu o autocrata enquanto fingia que não faz política. A confederação até tentou convencer serem aliados a colorir a própria logo. Balela corporativa.

No início do ano foram 800 atletas alemães a assinarem uma carta dizendo que colegas LGBTs podiam contar com o apoio deles. Semana passada foi a vez do técnico germânico Jürgen Klopp, do Liverpool, gravar vídeo com Paul Amman, líder da "Kop Out", torcida LGBT+ do time inglês. Os dois criticaram torcedores dos próprios Reds que endereçaram cânticos homofóbico a Billy Gilmour, na partida contra o Norwich.

Para além disso, os gestos de Vettel e Klopp, as críticas do goleiro húngaro Péter Gulácsi contra homofobia, os posicionamentos de jogadores engajados como o inglês Raheem Sterling e o brasileiro Richarlison mostram que a luta das minorias não são isoladas.

São abraços. Como quando um colega heterossexual manda um link de uma matéria como sugestão de pauta para a coluna.

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