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Jornalista formado na Universidade Federal do Ceará (UFC). Foi repórter do Vida&Arte, redator de Primeira Página e, desde 2018, é editor de Esportes. Trabalhou na cobertura das copas do Mundo (2014) e das Confederações (2013), e organizou a de 2018. Assinou coluna sobre cultura pop no Buchicho, sobre cinema no Vida&Arte, assumiu espaço sobre diversidade sexual no mesmo caderno e, agora, escreve sobre a inserção de minorias (com enfoque na população LGBTQ+) no meio esportivo

André Bloc esportes

Jogos Paralímpicos jogam nosso olhar a uma das minorias mais negligenciadas

Expressão esportiva máxima do esporte entre minorias, a Paralimpíada é um mecanismo para que as pessoas com deficiência passem a ser reconhecidas pela sociedade como um todo
Partida entre Brasil e Japão no futebol de 5, modalidade para cegos, durante a Paralimpíada de Tóquio-2020 (Foto: Behrouz MEHRI / AFP)
Foto: Behrouz MEHRI / AFP Partida entre Brasil e Japão no futebol de 5, modalidade para cegos, durante a Paralimpíada de Tóquio-2020

Começo com uma pergunta. O que você pensa, caro leitor, quando ouve falar em minoria? Eu penso em diversidade sexual, porque é o ponto que me toca, enquanto homem gay. Sempre olhei também para mulheres, para negros, indígenas e compartilho de alguma empatia pela luta de cada um deles. E, por vezes na vida, devo ter negligenciado as pessoas com deficiência.

Muito provavelmente, as pessoas com deficiência entendem muito melhor que eu o que é ser minoria. Afinal, o mundo não foi feito para que eles habitassem.

Digo isso não de forma cruel, como se eles não merecessem. Merecem. A realidade devia ser moldada, devíamos prever diferenças. O problema é que nós, pessoas sem deficiência, insistimos que estamos adaptando, como se fizéssemos uma concessão, um favor. Ressalta-se um discurso de "coitadismo", enquanto levanta-se aquela baboseira de "superação" e "meritocracia".

Os Jogos Paralímpicos não são uma versão adaptada dos Jogos Olímpicos. A Paralimpíada é um evento completo. Pessoas com deficiência não se definem pela ausência, pela realidade de outros, mas pela realidade própria de cada um. 

Fazer uma cobertura jornalística da Olimpíada é difícil porque o público esportivo quer mais é notícia sobre os times que torcem. Na Paralimpíada, beira o impossível porque a gente é acostumado a fazer tudo como favor, quando devia era reconhecer a grandeza de tudo que ocorre. Se buscamos emoção de verdade, devíamos ver só os Jogos Paralímpicos. O ouro de Beth Gomes no lançamento de disco F53 (deficiência nos membros inferiores) que o diga.

A transmissão da Olimpíada na televisão foi de altos e baixos. O SporTV tinha quatro canais e, por exemplo, ignorou quase totalmente o tênis, talvez o maior esporte individual do mundo. Ainda assim, quase tudo era sintonizado. No que diz respeito a Paralimpíada, foi voltada uma migalha de canal. O Comitê Paralímpico Internacional disponibiliza tudo no YouTube, mas sem a interpretação de uma transmissão. E, sejamos sinceros, a maioria das pessoas sequer sabia disso.

Então, quais as oportunidades que temos de conhecer mais, mergulhar mais fundo nessas milhares de realidades de competidores reunidos num lugar só? É um megaevento dedicado às minorias. Precisamos moldar nosso olhar para despí-lo do preconceito e tratar as pessoas com deficiência como, sabe, pessoas. 

Só assim a gente pode fruir com justiça o maior de todos os futebóis, o único onde o Brasil ainda é hegemônico. O futebol de 5, de craques como Ricardinho e Raimundo Nonato. Paralimpíada é muito mais que esporte, é cidadania, é uma plataforma de reconhecimento de uma minoria tão criminosamente negligenciada por mim e por tantos outros.

Diga-se, para quem gosta do tema esportes e pessoas com deficiência, a Universidade Aberta do Nordeste / Fundação Demócrito Rocha (Uane/FDR) está disponibilizando o curso gratuito "Inclusão social através do esporte". São 140 horas/aulas, em 12 módulos de Ensino à Distância. As inscrições podem ser feitas no site: fdr.org.br/inclusaoatravesdoesporte

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