Foto de André Bloc
clique para exibir bio do colunista

Jornalista formado na Universidade Federal do Ceará (UFC). Foi repórter do Vida&Arte, redator de Primeira Página e, desde 2018, é editor de Esportes. Trabalhou na cobertura das copas do Mundo (2014) e das Confederações (2013), e organizou a de 2018. Assinou coluna sobre cultura pop no Buchicho, sobre cinema no Vida&Arte, assumiu espaço sobre diversidade sexual no mesmo caderno e, agora, escreve sobre a inserção de minorias (com enfoque na população LGBTQ+) no meio esportivo

André Bloc esportes

O mundo está preparado para fazer justiça a Edinanci Silva?

Ex-judoca enfrentou a opinião pública na década de 1990 e teve a vida pessoal exposta por preconceito e falta de informação. O cenário enfrentado hoje pela corredora Caster Semenya não é lá tão diferente
Edinanci Silva (à direita), ao lado do mestre Jefferson Freitas (Foto: Reprodução / Twitter)
Foto: Reprodução / Twitter Edinanci Silva (à direita), ao lado do mestre Jefferson Freitas

O craque Paulo Roberto Falcão costuma dizer que jogador de futebol morre duas vezes. A primeira quando se aposenta e a derradeira quando descarna propriamente. Traçando um paralelo, pessoas LGBTQIA+ podem nascer em dois momentos. Inicialmente, quando vêm ao mundo, finalmente quando assumem a própria sexualidade.

No esporte, bem sabemos, são poucos os que "saem do armário". Mas são cada vez mais. O mundo, afinal, evoluiu e passou a aceitar melhor a diferença. 

Por conta disso falo de uma das pessoas que mais marcou minha formação: Edinanci Silva, judoca bicampeã pan-americana e que representou o Brasil em quatro Jogos Olímpicos. Era 1996 quando a vida dela foi devassada pela imprensa, sendo jogada para fora do armário possivelmente sem sequer saber que era LGBTQIA+. Até porque na época o acrônimo era o simplório "gays, lésbicas e simpatizantes" (GLS).

Edinanci era rejeitada porque era vista como estranha. Identificada como intersexo — o I da sigla LGBTQIA+ —, ela possuía características sexuais femininas e masculinas e teve de passar por uma cirurgia para se alinhar ao gênero com que se identificava. Antes da Olimpíada de Atlanta-1996, ela foi obrigada a se submeter a um "teste". Eu era criança e só me lembro de achá-la estranha, dentro da crueldade íntima de todos os pequenos.

Até onde sei, Edinanci nunca se queixou. Seguiu trabalhando, conquistou medalhas, mas nunca foi idolatrada como merecia. Por que, quando perdia, a resposta era que ela era um homem incapaz de vencer uma mulher — o que, diga-se, mistura vários preconceitos embutidos. Se ela vencia, não fazia mais do que a obrigação. De todo modo, a torcida era por um fracasso dela.

Eu, como muitos, cresci sem saber direito o que era homossexualidade — imagina ainda ter noção do que era intersexualidade. Anos depois, veio o termo "queer", que advém do "estranho", e relembrei do efeito da Edinanci, para a qual sequer podíamos torcer sob risco de sermos taxados de... Eu nem sabia do quê.

O mundo mudou. Evoluiu de forma que as pessoas possam verbalizar qualquer luta interna e ser amparadas. Saúde mental é hoje foco no esporte, indo além do desempenho puro e simples. A Olimpíada teve algumas centenas de LGTBQIA+. A situação do "I", entretanto, ainda é meio nebulosa. A fundista sul-africana Caster Semenya que o diga. 

Medalhista de ouro nas Olimpíadas de 2012 e 2016, ela, também uma mulher cis que nasceu com características sexuais dos dois sexos, ela também teve de fazer um "teste de gênero". E é constantemente monitorada, mais testada que todos os demais atletas. A Associação Internacional de Atletismo, então, criou regras que impediam mulheres na condição dela de competir nas provas de 400m, 800m e 1500m — e só estas, especialidades dela.

Semenya até tentou se qualificar aos Jogos de Tóquio-2020 nos 200m, mas não conseguiu se adaptar à imensa mudança e a bicampeã olímpica ficou de fora da competição.

A fundista vive hoje uma ramificação daquilo que Edinanci enfrentou em 1996. Ou seja, muita coisa pode ter mudado entre as duas datas. Mas ainda falta um pedaço enorme de chão.

Essa notícia foi relevante pra você?
Logo O POVO Mais