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Jornalista formado na Universidade Federal do Ceará (UFC). Foi repórter do Vida&Arte, redator de Primeira Página e, desde 2018, é editor de Esportes. Trabalhou na cobertura das copas do Mundo (2014) e das Confederações (2013), e organizou a de 2018. Assinou coluna sobre cultura pop no Buchicho, sobre cinema no Vida&Arte, assumiu espaço sobre diversidade sexual no mesmo caderno e, agora, escreve sobre a inserção de minorias (com enfoque na população LGBTQ+) no meio esportivo

André Bloc esportes

Tretas do vôlei nacional vão da bissexualidade do Superman à inclusão de trans

Anúncio da bissexualidade de Jon Kent, filho do Superman tradicional, incomodou Maurício Souza e agradou Douglas. Paralelamente, Tandara voltou a criticar a autorização de atletas trans no vôlei feminino — apesar de jogar ao lado de Tiffany, atual única mulher trans nas quadras
Douglas Souza rebateu postagem "conservadora" do colega Maurício Souza (Foto: Divulgação/FIVB)
Foto: Divulgação/FIVB Douglas Souza rebateu postagem "conservadora" do colega Maurício Souza

Esportes coletivos têm lá seus segredos. Grandes amigos podem ser péssimos parceiros, enquanto uma inimizade fora da disputa não impede uma química quando o árbitro autoriza a jogada. Lembro sempre do clássico caso dos irmãos suíços Paul e Martin Laciga, que chegaram a ser duas vezes vice-campeões mundiais de vôlei de praia apesar de terem passado anos sem dirigir a palavra um ao outro.

No campo inverso do espectro, vale lembrar a parceria de Edmundo e Romário no "ataque dos sonhos" do Flamengo-RJ. À época amigos inseparáveis, os dois craques tiveram um desempenho pífio ao lado de outro fora da curva, Sávio. A amizade pode ter sido uma faca de dois gumes e os ex-atacantes hoje em dia são desafetos.

O preâmbulo enorme é para falar de dois casos do vôlei brasileiro na semana passada. No primeiro, os campeões olímpicos Douglas Souza e Maurício Souza voltaram a trocar farpas, desta vez após o meio de rede se incomodar com o anúncio da bissexualidade de Jon Kent (filho de Clark Kent, o Superman, e que atualmente veste o manto do pai em uma das realidades da DC Comics). O outro caso, ainda mais espinhoso, vem de declaração de Tandara, que voltou a criticar a inclusão de transexuais no vôlei feminino — apesar de jogar ao lado da única mulher trans deste esporte.

Maurício x Douglas

Sejamos 100% claros. Eu desprezo Maurício Souza intelectualmente. Sou à favor de que atletas se posicionem, mas os "valores" que ele declara são vazios de argumento. Isso não tira o mérito dele em quadra. O meio de rede já foi um dos protagonistas do ouro da seleção brasileira na Rio-2016 e, com seus 2,09m, é uma força a ser respeitada.

O currículo de Douglas Souza é mais modesto. Ele também foi ouro na Rio-2016, mas como um jovem reserva. Sob menor responsabilidade, jogou mais que o desafeto em Tóquio-2020, na campanha pífia da seleção favorita. Virou queridinho por se posicionar, por trazer algo de novo e por ser autêntico.

Maurício adotou postura apocalíptica ao comentar a sexualidade do Superman. "É só um desenho, não é nada demais. Vai nessa e vamos ver onde vamos parar". Douglas rebateu. "Engraçado que eu não 'virei heterossexual' vendo os super-heróis homens beijando mulheres... Se uma imagem como essa te preocupa, sinto muito, mas eu tenho uma novidade para a sua heterossexualidade frágil. Vai ter beijo sim. Obrigado, DC, por pensar em representar todos nós e não só uma parte". 

O meio de rede, então, juntou várias palavras com sentido abstrato como "valores", "crenças" e "ideais" como forma de tentar justificar a LGBTQfobia como expressão legítima. Fiquemos nisto.

Tandara x Tiffany

Já expus minha posição sobre trans no esporte e defendo que o tema seja debatido e testado. Pois bem, no vôlei, o tema todo gira em torno da oposta Tiffany. Colega de equipe, Tandara reiterou recentemente que é contra a presença de mulheres trans — apesar de ter feito lobby e até ligado para a colega a chamando para integrar o elenco do Osasco.

Ressaltando o respeito pela oposta "como ser humano" e dizendo conhecer as lutas dela, Tandara reiterou ser contra a inclusão de trans. É um argumento meio paradoxal, porque ela defende que a colega siga jogando, mas que não tenham novos casos. E a raiz de tudo é sempre a suposta vantagem atlética. Fato curioso já que a campeã olímpica em Londres-2012 está suspensa por doping após uso de anabolizante — ela alega contaminação acidental.

Tiffany botou panos quentes na questão. "Ela (Tandara) me ligou depois novamente e eu falei pra ela: 'Amiga, fica tranquila' (...). Não pegaram a parte de que ela fez de tudo para eu ser contratada, não pegaram a parte que ela ligou pra mim". Tiffany disse que se sente respeitada. Então, por mim, tudo bem.

Então, aí está. Que as amizades fortaleçam o esporte e as desavenças não comprometam o esforço. 

 

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