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O golpismo no banco dos réus
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Augusto W. M. Teixeira Júnior é cientista político, professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e do Departamento de Relações Internacionais da mesma instituição

O golpismo no banco dos réus

Quem sabe, desta vez, tenhamos tido êxito não apenas em interromper uma tentativa de golpe, mas também em fazê-lo por meio do Estado Democrático de Direito, com instituições civis e submetendo os acusados aos ritos da lei
Tipo Opinião
General Braga Netto foi preso acusado de tentar atrapalhar a investigação sobre a tentativa de golpe (Foto: Sergio Lima / AFP)
Foto: Sergio Lima / AFP General Braga Netto foi preso acusado de tentar atrapalhar a investigação sobre a tentativa de golpe

A semana do dia 24 de março de 2025 constitui um marco na história política do Brasil. No dia 26, o Supremo Tribunal Federal (STF), mais especificamente a Primeira Turma, tornou o ex-presidente Jair Bolsonaro réu por tentativa de golpe de Estado e outros crimes correlatos. Com ele, outros sete indivíduos também se tornaram réus, entre os quais cinco oficiais-generais, um ex-ministro da Justiça e o ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN). Mas o que torna esse evento histórico?

Em linhas gerais, a história da República tem sido a história de golpes civis e militares. O que chamamos de "Proclamação da República" foi, na verdade, um golpe militar que levou a uma ditadura, a República da Espada. A República do Café com Leite foi interrompida pela "Revolução" de 1930, conduzida, em sua maioria, por militares ligados ao movimento tenentista. A retomada democrática de 1945/46 foi interrompida pela "longa noite" de 21 anos iniciada com a ditadura militar de 1964. E onde estamos agora? A Nova República, no auge dos seus 40 anos, viveu a sua primeira tentativa de golpe de Estado, engendrada por elites civis e militares. Contudo, dessa vez, o golpe morreu como uma tentativa, e aqueles acusados de levá-lo a cabo estão agora no banco dos réus. Por mais que o resultado desse julgamento possa inocentar os acusados, esse evento é, em si, histórico.

Quem sabe, desta vez, tenhamos tido êxito não apenas em interromper uma tentativa de golpe - como foi a manobra do Marechal Lott em proveito de JK nos anos 1950 -, mas também em fazê-lo por meio do Estado Democrático de Direito, com instituições civis e submetendo os acusados aos ritos da lei. Isso, por si só, representa um avanço hercúleo na história de um país cuja democracia é sempre um experimento de morte prematura. A magnitude do evento foi tal que repercutiu nos principais meios de comunicação internacionais, nos quais o ex-presidente Bolsonaro emerge agora como réu.

Como um evento de natureza e proporção histórica, ele é complexo em si. Entendemos que grande parte da crise dentro da crise em que vivemos, ao menos desde junho de 2013, é um efeito da fragilidade do nosso sistema político, no qual a Nova República, em várias facetas, já se mostra envelhecida. Existem fissuras em nossa democracia, como a fraqueza do Executivo, a hipertrofia do Legislativo e a elevação do Judiciário como um Poder não submetido a freios e contrapesos. Entretanto, apesar de suas imperfeições, o experimento democrático brasileiro iniciado em 1985 luta para subsistir - e, por isso, devemos ter esperança. Viva a democracia, viva a Constituição, viva o povo brasileiro.

https://www.opovo.com.br/noticias/politica/2025/04/01/golpismo-do-8-1-pede-reforma-nas-forcas-armadas-avaliam-especialistas.html

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