
Linguista e semioticista, professora da Universidade Federal do Ceará, com doutorado na Universidade de Liège (Bélgica) e pós-doutorado na Universidade de São Paulo
Linguista e semioticista, professora da Universidade Federal do Ceará, com doutorado na Universidade de Liège (Bélgica) e pós-doutorado na Universidade de São Paulo
O filme “Ainda estou aqui”, dirigido por Walter Salles, com atuações soberbas de Fernanda Torres e Selton Mello, narra os últimos dias de Rubens Paiva, cassado pela ditadura e morto pelo aparato de repressão militar da época e os eventos. Não fosse o filme já grandioso para disputar entre os melhores da academia, não apenas entre os estrangeiros, Fernanda Torres ainda está muito bem colocada para a indicação ao Oscar de melhor atriz no papel de Eunice, esposa de Paiva, que refaz sua própria vida ao lidar com o “desaparecimento” do marido. Filhos, vida domiciliar e financeira toda destruída pela ação de um governo golpista, que colocou milhares de cidadãos brasileiros sob seu tacão.
Cinquenta e seis anos depois da decretação do AI-5, no último sábado, a prisão de um general de quatro estrelas – o que quer que isso signifique, em nossa cotidiana vida civil – veio rememorar algumas dessas lembranças tristemente recalcadas. Braga Netto, pelo que indica o relatório da Polícia Federal, não apenas pode ter instruído, mas também financiado, via aliados do agronegócio, um possível golpe de Estado, felizmente frustrado. Não é algo trivial: em um país calejado pela repressão estatal em suas revoltas por direitos, desde o Império, a prisão de um agente do Estado, que aparentemente se sente à vontade para se arvorar a tomá-lo de assalto, é algo alvissareiro.
Trinta e seis anos desde a aprovação de nossa Constituição, e ainda o debate permanece o mesmo: a liberdade do cidadão brasileiro depende de um aval de nossos militares e das elites? Ou, ao contrário, trata-se de um sério pacto pela possível convivência política em um país em transformação?
A perspectiva de quem permanece, de quem sobreviveu a esse período, na figura de Eunice Paiva, aponta para a reconstrução da memória de fatos e dores com os quais o país precisa se confrontar. Nesse sentido, o sucesso do filme de Walter Salles se soma ao caminho necessário para o país que desejamos construir – um país no qual a vida de cada cidadão possa ser respeitada em seus direitos mais básicos; um país em que se tenha vergonha de apoiar e homenagear ditadores e torturadores; enfim, um país em que ameaças à democracia não passem sem devido processo legal, e onde o povo possa ser, de fato, protagonista de seu próprio destino.
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