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Inventário dos dias
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Chico Araujo é cearense, licenciado em Letras, professor de Língua Portuguesa e de Literatura brasileira. É autor dos livros

Inventário dos dias

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Tipo Crônica

Não é exatamente a “síndrome do ninho vazio”, que ele ainda tem descendente; talvez seja o desfalque de presenças o motivo de saudades caladas.

Khalil Gibran retorna:

Vossos filhos não são vossos filhos.
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora vivam convosco, não vos pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,
Porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
Pois suas almas moram na mansão do amanhã,
Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho. [...]

Como pai, faço muitas vezes o exercício de me lembrar do que fiz como filho, das alegrias e tristezas que gerei em meus pais. Exercito a memória para não deixar desvanecerem lembranças de como os tratei, se com açúcar e com afeto, ou se com indiferença e desamor. Realizo esses movimentos para não ser injusto nas percepções que tenho de meus filhos, nos julgamentos que faço das ações e comportamentos deles. Um dos atos praticados pelos filhos costuma ser o abandono à casa paterna e materna. Em semelhança aos filhotes de aves que crescem e batem suas asas pelo espaço infinito, os filhos precisam deixar seus ninhos para pisarem os próprios passos no chão e voar esplendidamente seus voos ao abraço com seus sonhos. Como fizemos.

Gibran estava e continua certo. Os filhos não pertencem a seus pais. E mesmo admitindo que em boa parte Belchior estivesse e permaneça certo também, os filhos são os criadores de suas próprias histórias e as gestam escrevendo-as com matizes próprios, dinamizando e ampliando a partir de suas energias as matrizes de onde vieram. São eles que determinam para si os caminhos que seguirão em suas vidas. São eles que farão acender em seus corpos as chamas que alimentarão suas almas.

Nós pais continuaremos timoneiros dos barcos de nossas navegações. Aquilo que um dia se tornou nossa meta de vida e nossa maneira de viver permanecerá sob nosso controle, até não termos mais condições de capitanear nossa existência. A cada respiração de cada um, o tempo vai avançando para o ponto em que tudo o que precisa acontecer acontece – e é impossível fugir a isso. Podemos não querer, mas não temos poder para causar impedimento daquilo certo para advir.

Nas acontecências da vida, há quem fique sentado em cadeiras fazendo de orações um tecido leve a vestir a desesperança de leveza e aceitação do inevitavelmente posto. Há quem fique transitando de um lado ao outro, realizando o necessário e imediato, e no silêncio entre os passos, ruminando pensamentos de vazio e desejos impossíveis. Até quando não se pode precisar, mas certamente até que o momento preciso chegue. Inexorável.

Os filhos vão um dia para suas vidas porque assim deve ser. Os filhos, nossos pais, seguiram seus fluxos e nos concederam a oportunidade de existência; eles, também fugitivos de seus ninhos. Os filhos que somos aceitamos os chamados sedutores da nossa história e abraçamos nossos destinos – fugitivos de nossos abrigos. Nossos filhos, os que estão construindo suas trajetórias abandonando o amparo que propiciamos, o fazem nesse momento em que as luzes de nossas ribaltas nos avisam possíveis falhas a qualquer instante.

Repito, não é exatamente a “síndrome do ninho vazio”, tenho certeza, porém algo a se mexer indomável no espírito, quando, de repente a consciência passa a esbarrar em sensações indescritíveis revestidas do sentimento de saudades. Saudades dos filhos caminhando seus trajetos com os próprios passos; saudades daqueles caminhantes que cumpriram aspirações e tempo e já não voltam para contar suas histórias.

Foto do Chico Araujo

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