
É editor de cultura e entretenimento do O POVO. Sua coluna, publicada todos os dias, trata de economia, política e costumes a partir de personagens em evidência no Ceará, no Brasil e no mundo.
É editor de cultura e entretenimento do O POVO. Sua coluna, publicada todos os dias, trata de economia, política e costumes a partir de personagens em evidência no Ceará, no Brasil e no mundo.
Achei bonitinho...
...e aconteceu aqui, na "Aldeia, Aldeota", num almoço de bacanas.
Amigas de longas datas, décadas, elas se reuniram num sábado regado a espumantes, drinks, petiscos & afins. A anfitriã, figura espirituosa, comprou uma gaiola, colocou junto com as plantas e o aviso: "prisão de celulares".
Entre risadas diante do monumento lúdico - com teor questionador -, elas foram depositando seus aparelhos e se despindo dessa neurose contemporânea que nos liga a esses dispositivos.
Com as redes sociais e o Whatsapp "aprisionados", puderam libertar as asas do pensamento, das lembranças, experimentar a presença em totalidade.
Interessante esse exercício, desafiador também, mas tentem...
Quando estamos sem o smartphone em mãos, somos forçados a buscar, em nós mesmos, o que a velocidade das informações nos esconde. Sem puder bisbilhotar a vida alheia e nem manter a frequência cardíaca da produtividade na troca de mensagens, nos vemos diante de um espelho-analista, um divã interior. O que pulsa? Qual a nossa verdade, agora?
Celular é meio como o álcool, o cigarro, o consumo compulsivo, a alimentação puramente hedonista e todos as fugas venenosas que o homem criou para si. Sem querer fazer apologia ao fumo, por exemplo, mas quem já deu suas tragadas sabe que funciona também como um anestésico, um "breake" na rotina. A gente olha para todas as demandas, os dramas, os desafios, os pedidos de respostas, os assuntos inconclusos e decide, "pera aí que vou fumar". Da mesma forma, diante de um momento de intensa alegria ou prazer - pós-sexo, por exemplo - ou quando toca a música da juventude numa baladinha retrô, o pensamento vem assim: "isso merece um cigarro".
São poucos minutos de ilusão, um autosedativo, uma hipnose pró-existência.
Olhando a fumaça subir, o gelo do uísque derreter, sentindo o gosto do brigadeiro ou do bacon, tem-se a sensação de que o mundo parou um pouquinho de girar. Assim acontece com os smartphones. Paramos de preencher a planilha, atrasamos uma reunião, suspendemos, por instantes, o preenchimento do documento, para ir ver pessoas esquiando em Aspen, outros comemorando Bodas de Prata em Paris, gente gritando nas telas nesse novo modo de fazer humor, amigos ou conhecidos revoltados com os preços dos supermercados, com a política, com a realidade...
Sem precisar olhar para nós, bloqueamos as dores, mas também as revelações, aprendizados, passos de autoconhecimento e até alegrias dos momentos reais. Ao mesmo tempo, inclusive quando registramos tudo à nossa frente, o que fica mesmo, na memória afetiva, é o não fotografado, aquela troca de energia fugaz, uma palavra, um abraço espontâneo, um gesto, todos cada vez mais raros...
Esse paradoxo contemporâneo, entre o vivido e o registrado, ganha ares de Sherlock Holmes quando vamos para os bastidores do poder. Já pensaram que tudo poderia ser diferente no Brasil, hoje, se não tivessem vazado imagens daquela reunião com o ex-presidente Jair Bolsonaro e seus ministros, em 2022? As declarações filmadas foram essenciais para a investigação da Polícia Federal sobre o plano de um golpe de Estado, agora em análise judicial.
Pensando nesse vídeo e em tantos outros que contam a história do Brasil recente, fico me questionando se o remake da novela "Vale Tudo", que estreou nessa segunda-feira, vai conseguir a proeza de fazer sucesso massivamente. Mesmo tendo atualizado os cambalachos e as maldades das personagens centrais, os autores disputam atenção com "takes" da desgraça real.
Ainda que Debora Bloch consiga fazer, dramaturgicamente, uma Odete Roitman até melhor do que Beatriz Segall nos anos 80, não tem como competir com os vídeos de pastores com amantes sendo flagrados nos motéis, político saindo de prédio com mala de dinheiro, deputada federal correndo com arma apontada para um homem nas ruas de São Paulo, idosa cheirando a Miss Dior dando chilique racista ou homofóbico numa padaria até então harmoniosa e charmosa, torcedores se digladiando após uma partida de futebol, as facções criminosas executando inimigos a céu aberto, enquanto dominam áreas e serviços urbanos...
O célebre Oscar Wilde escreveu o seguinte: "a vida imita a arte mais do que a arte imita a vida". Para o atual momento na marcha (in)civilizatória, talvez a frase tenha perdido sua validade, será?
Vou indo... admirando a forma leve e até poética encontrada para fazer do almoço, que iniciou esse texto, algo memorável de verdade. No mais, sigamos em busca dos momentos únicos, palpitantes, clímax inesquecíveis, sem celulares e outros veneninhos, hein?
Flores...
Contagem regressiva para a estreia, em 1º de Maio, da cinebiografia "Homem com H", estrelada pelo talentoso ator cearense Jesuíta Barbosa. Desde que ficou conhecido do grande público, tem pautado sua carreira com personagens relevantes, que possam fazê-lo explorar todo seu potencial artístico.
Para interpretar Ney, uma das presenças musicais, cênicas e corporais mais intensas da história dos palcos no Brasil, ele se dedicou a aulas e treinos incansáveis de voz, de canto, expressão corporal, dança, além de muitos momentos com o próprio biografado, que generosamente abriu sua história e sua intimidade para o jovem pudesse alcançar o máximo de realismo nas cenas. Promete!
Está em cartaz, no Museu da Fotografia de Fortaleza, a exposição "Terra Vermelha", do fotojornalista italiano Tommaso Protti. Durante dez anos, ele percorreu as entranhas da Amazônia, registrando as durezas daquele território, com um olhar crítico e plástico. A mostra é focada na região de trabalho do fotógrafo, mas as questões transbordam e dizem respeito, também, ao que vemos e vivemos nos centros urbanos. Nomes de expressão de vários segmentos compareceram à manhã de abertura...
(Foto: Tamiris Soares/Museu da Fotografia Fortaleza)Nelson Bezerra, Luis Sérgio-Santos e Ricardo Bezerra
(Foto: Tamiris Soares/Museu da Fotografia Fortaleza)Gabriella De Francesco, Rosângela De Francesco, Washington Araújo e Gustavo Araújo
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