
Danilo Fontenelle Sampaio é formado em Direito pela UFC, mestre em Direito pela mesma Universidade e doutor em Direito pela PUC/SP. É professor universitário, juiz federal da 11ª vara e escritor de livros jurídicos e infanto-juvenis
Danilo Fontenelle Sampaio é formado em Direito pela UFC, mestre em Direito pela mesma Universidade e doutor em Direito pela PUC/SP. É professor universitário, juiz federal da 11ª vara e escritor de livros jurídicos e infanto-juvenis
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Após anos de natação na adolescência, comecei a praticar karatê há algumas décadas. Sou faixa preta e treino no mínimo três vezes por semana no Gautama Dojo. Diante do meu tamanho, alguns engraçadinhos perguntam se não é sumô, mas é karatê mesmo. Até porque acho estranho ficar dando uns safanões feito um urso nadando no seco.
Nunca usei as técnicas do karatê fora dos treinos, mas um dia desses tive a oportunidade de colocá-las em prática, em uma situação constrangedora que não desejo para ninguém.
Para muitos, o karatê é apenas uma arte marcial ou uma forma de autodefesa. Mas, para aqueles que o praticam, é muito mais do que isso. É uma filosofia de vida, uma jornada de autoconhecimento e crescimento pessoal.
Primeiramente, há o aspecto físico. O karatê é um treino completo para o corpo. Cada golpe, cada defesa, cada movimento exige força, agilidade, coordenação e equilíbrio. Os músculos são trabalhados de maneira uniforme, aprimorando a resistência e a flexibilidade. E isso em qualquer idade ou peso.
A prática constante exige disciplina e foco. Cada técnica precisa ser aprendida e repetida inúmeras vezes, o que desenvolve uma mente disciplinada e resiliente. Esses valores são transferidos para a vida fora do dojo, ajudando a enfrentar os desafios diários com uma atitude mais positiva e determinada. O que é ótimo para adolescentes.
Outro benefício significativo do karatê é o aumento da autoconfiança. Ela cresce não apenas pela capacidade de se defender fisicamente, mas também pela sensação de realização e superação de limites. Essa confiança se reflete em todas as áreas da vida, desde o ambiente de trabalho até as relações pessoais.
lém disso, o karatê é uma excelente forma de socialização. No dojo, as amizades formadas são baseadas em respeito mútuo e apoio, criando um ambiente acolhedor, saudável e empático, livre de drogas e substâncias afins.
O karatê também promove o autocontrole e a paz interior. Os praticantes aprendem a controlar suas emoções e a manter a calma em situações de estresse. Isso é fundamental para lidar com as pressões e tensões do cotidiano. Interessante que meu sensei sempre diz para nunca nos metermos em confusão e nem confiarmos na faixa. Diz que, se a gente não tiver cuidado, um pedreiro pode nos dar um tabefe no pé do ouvido e a faixa preta não vai significar muita coisa.
Pois bem, em um treino avançado, acabei lesionando minha mão direita, com uma pequena fratura no escafóide, um ossinho localizado na base do polegar. Consigo fazer quase todos os movimentos, mas, como ainda está se consolidando, até apertar a pasta de dente dói.
Dia desses fui ao shopping renovar minha carteira de habilitação. Por essas coincidências da vida e provações do destino, acabei encontrando uma ex-aluna com sua mãe. Ao ser apresentado, hesitei por um milésimo de segundo, mas a educação falou mais alto. Estendi a mão direita, a doendo, para cumprimentá-la. Pela efusividade com que apertou, a jovem senhora ou era uma halterofilista disfarçada ou fazia pão caseiro diariamente. Só que com massa de cimento.
Vi as veias do seu braço entumecerem e os músculos retesarem-se e, antes que eu pudesse reagir, ela esmigalhou meus dedos, pressionando, com uma precisão milimétrica, justamente em cima da lesão, como quem tira cravos do rosto de uma estátua. Segurei o gemido e mantive o sorriso congelado, enquanto lágrimas formavam pocinhos.
Quando ela me libertou, rapidamente escondi o que restava do escafóide atrás das costas, tentando disfarçar a dor. A senhora, sem perceber nada, continuou falando sobre sua filha, enquanto minha mão latejava a cada pulsação.
Nem sei ao certo o que falei. Recordo vagamente que concordei que sua filha seria uma Rui Barbosa de saias ou algo parecido e me despedi rapidamente com um cumprimento de cabeça, evitando as garras daquela viking dos trópicos.
Nunca pensei que fosse usar os princípios de respeito, humildade e integridade do karatê assim. Confesso que desejei ser praticante de sumô.
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