Repórter especial e cronista do O POVO. Vencedor de mais de 40 prêmios de jornalismo, entre eles Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), Embratel, Vladimir Herzog e seis prêmios Esso. É também autor de teatro e de literatura infantil, com mais de dez publicações.
O nó da existência, talvez, é que criamos as crianças, simplesmente, para serem "adultas" e não seres vivos de um mundo em desconstrução. Na maioria das famílias há um mascavado de "adulterações" e a vida desses "adultos" se torna bruteza.
O óbvio... o adulto, provavelmente, é uma criança que passou por uma lida de rudeza no "crescer". É a mais rala e, ao mesmo tempo, a mais erudita das definições que aprendi no meio da rua, no areal do Porangabuçu.
O locus fabulatório de minha infância onde tive aulas imperdíveis sobre o senso comum e, depois dos rachas de futebol, discussões arquetípicas sobre o riso proibido em "O nome da rosa" e a moral salvatória em "Marcelino pão e vinho". É doido, né?
Ora, ora, levei tempo para desenxergar o Minotauro feito uma criatura medonha e que, se saísse da prisão labiríntica imposta por Minos, comeria a humanidade.
A aberração "bovi-humana" nem era assim uma quimera tal e qual espalhou Minos, o rei de Creta que "levou chifre" da esposa Pasífae com um touro dado por Poseidon.
Nas minhas imoralidades e intertextualidades cognitivas, combatidas aos sábados durante as aulas de catecismo da paróquia de Nossa Senhora de Nazaré, tinha o desejo reprimido de que meu corpo fosse aquela metade avantajada de homem e uma cabeçorra taurina sedutora.
Imaginava-me bufando pelas narinas, musculoso em rios de suadeira e gozo! Seria finalmente enxergado na rua e na escola por garotas e meninos. Quando matavam o Minotauro, toda vez que lia ou assistia a história, a hipocrisia se materializava em casa ou no bairro.
Sim, porque nunca testemunhei nenhum macho "adúltero" ser punido com o terror de banir um filho Minotauro. Contrário, vi muitos vizinhos, tios e conhecidos trazerem crias paridas fora do matrimônio (indissolúvel) para as esposas cuidarem. E nenhum pio!
Quando fiz a primeira comunhão, adorei um dos meninos gritar que não gostava de carne nem de sangue e, por isso, não comeria o "corpo" de Cristo.
Ele era considerado um garoto cheio de nuvens e manés-magros na cabeça, diferente de nós que nos ajoelhávamos e repetíamos algo "divino". Ainda a mesma ladainha da primeira missa rezada durante as invasões europeias por aqui. Enquanto isso, a hóstia sumia na saliva. Puro a chegadinho sem açúcar.
Talvez a maioria dos pais, mães, avós, avôs, tios, o padre e o professor fizeram tudo na melhor das "intenções" (nem todos), mas acabamos recriando escolas de preconceitos. Parece exagero, revisionismo histórico besta, mas não é.
Há crianças que foram adulteradas para o racismo, para a homofobia e a misoginia. Gente que defende a posse de armas e o extermínio de "vagabundos". Há idiota que mal sabe sobre o cristianismo (e Jesus) e hasteia uma bandeira de Israel porque os palestinos precisam deixar de existir.
Somente noutro dia fiz as contas de que foram 388 anos de escravização no Brasil. Foram quase quatro séculos de sequestros, torturas, estupros e assassinatos. Tudo legitimados pela Igreja e o Estado, por causa da pele negra do outro e da avareza de ter currais humanos de pretos e indígenas.
Difícil não criar filhos racistas com uma herança nefasta assim e a perpetuação de privilégios entre famílias de "berço". Um negócio sem fim.
Quase impossível criar meninos e meninas que não derrubem árvores se todo ano, em nome de Santo Antônio de Barbalha, em nome do caritó e do machismo, um bando de machos sacrifica a árvore mais bonita, a mais antiga, a mais bela, a mais passarinhada e a de tronco mais fálico da Chapada do Araripe.
Criança é meio o planeta tentando se recriar novamente, o pleonasmo é intencional. É outra chance dada à gentileza, ao abraço, à compaixão pelo recomeço.
Meninas e meninos são possibilidades, mais uma vez, do mundo reflorestar na rebrota.
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