Marcos Sampaio é jornalista e crítico de música. Colecionador de discos, biografias e outros livros falando sobre música e história. Autor da biografia de Fausto Nilo, lançado pela Coleção Terra Bárbara (Ed. Demócrito Rocha) e apresentador do Programa Vida&Arte, na Nova Brasil FM
Foto: acervo pessoal/ divulgação
Miriam Batucada tem história resgatada em biografia e disco de inéditas
A história musical brasileira é cheia de vincos e rasuras que escondem personagens - no mínimo - curiosos. É em uma dessas frestas que mora Miriam Batucada. Cantora, compositora, percussionista, apresentadora e radialista, ela é sempre lembrada pelo álbum "Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das Dez" (1971), obra conceitual encabeçada por Raul Seixas. Mas ela tentou ser, fazer e ter mais, até ser abatida por incompreensões vividas numa época em que ser como ela trazia dificuldade.
Quem conta essa história em detalhes é Ricardo Santhiago na biografia "A história incompleta de Miriam Batucada" (Popessaura). Do nascimento na Mooca, bairro paulista do qual virou sinônimo, até a morte em 1994, o livro vai despetalando Miriam em entrevistas reveladoras (mesmo com quem optou pelo silêncio ou anonimato). Historiador e comunicólogo, o autor escreve com paixão dando à biografada uma dimensão inédita. Junto com o livro, ele lança o CD "Infiel, marginal e artista" com composições inéditas de Miriam interpretadas por nomes como Cida Moreira, Zeca Baleiro e Ceumar. Pelo caráter autobiográfico das 18 faixas, o disco serve como um apêndice do livro.
Miriam Angela Lavecchia nasceu em 28 de dezembro de 1946, terceira filha de um marceneiro e uma costureira que lhe proporcionaram os primeiros contatos com a música. Já a batucada Angela aprendeu com uma menina mal vista no bairro (porque dançava com garotos de rosto colado). A união de Miriam com a batucada fez nascer uma artista que ganhou popularidade nos anos 1960 ao reunir "simpatia, alegria, inteligência e espontaneidade", como ela enumera na música "Muito Bacana".
Os atributos musicais e o jeito engraçado faziam dela uma figura perfeita para a então nascente TV. Foi nesse espaço que ela viu a maior chance da vida e agarrou. Convidada para o programa de Blota Jr., ela segurou a audiência por três horas cantando, fazendo piada, tocando diversos instrumentos (ao lado do maestro Caçulinha) e exibindo sua beleza moleca. Saiu do palco já estrela, recebeu convites e iniciou uma carreira que, entre quedas e tropeços, foi até o fim da vida.
Boa parte da obra de Miriam foi construída nos palcos, o que tira das novas gerações um registro fiel de sua persona artística. Daí a importância do já citado projeto de Raul Seixas para sua história. Além dela, compunham a Sociedade Kavernista o genial compositor Sérgio Sampaio (1947-1994) e o performático multiartista Edy Star. Pelo talento e por não ser ligada a um movimento musical, ela ocupou o lugar que fora cogitado para Diana e Lilian (parceira de Leno), muito associadas à jovem guarda. Sem prever o culto em torno do disco, Miriam entrou no projeto porque sonhava gravar um disco solo e acreditava que Raul, à época produtor da CBS, a ajudaria. Mas o Maluco Beleza estava de olho na própria carreira e deixou a amiga de lado.
Miriam vivia em busca de uma chance que lhe desse mais reconhecimento e conforto. Queria gravar mais, mas foram apenas dois discos e alguns compactos. Embora fosse figura fácil na TV e nos pequenos palcos, ela amargava a crença de que merecia mais. Ricardo Santhiago acrescenta dois elementos à história: ela seria lésbica e bipolar. O primeiro ponto ele sustenta em entrevistas com supostas ex-namoradas (que negam o fato e ganham nomes fictícios no livro) e amigos que confirmam cada relacionamento. Verdade ou não, o universo LGBTQIA+ está representado nas canções de "Infiel, Marginal e artista". Com o bom humor peculiar, Miriam Batucada cria tipos curiosos, como a cantora de boate que, ao fim do expediente, "volta ser o Juca" e um "tipo garotão" que dispensa a mulherada e "vai balançar numa boate gay".
O segundo aspecto é também uma suposição que justificaria as oscilações de humor e a dificuldade da artista de controlar a própria história. De alguma forma, ela também leva essa personalidade incontrolável para as canções. Em "Fui procurar um psicanalista", ela assume que sua "libido tinha algo indefinido" e que precisa "pôr a cuca no lugar". Após alguns minutos no sofá do profissional, ela se reconhece "megalômana, neurastênica, masoquista, histérica, agressiva" entre outras coisas.
Mas fato é que Miriam Batucada viveu uma história mal resolvida entre espaços mal contados da música brasileira. Com o tempo foi se tornando uma personagem trágica: bebia muito, passava vexame e se afundava na própria solidão. O abandono de Raul Seixas fez parte de uma série de abandonos - amores, família, amigos, trabalhos... Sua melancolia é retratada secamente em "Ela" ("Não tem mais ilusões de menina e por isso aceita a dor quando sai de casa sozinha e entra num bar pra ver gente"). Miriam Angela Lavecchia morreu num 2 de julho de 1994, após um infarto fulminante. Tão solitária que era, seu corpo só foi descoberto 19 dias depois, sobre a cama, em processo de decomposição. A depressão era sua companhia nos últimos tempos. Um contraste incompreensível diante do sorriso esfuziante que declarou o próprio destino em "Crooner de Orquestra": "Meu destino é cantar no bar, no clube, no baile, na festa. Se você quer dançar, quer relembrar uma grande paixão, tô aqui pra cantar, cantar, cantar".
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