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Desculpas aos familiares de vítimas da ditadura
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Editorial opinião

Desculpas aos familiares de vítimas da ditadura

O governo brasileiro fará um pedido público de desculpas a parentes de vítimas enterradas na vala de Perus, no interior de São Paulo. As ossadas foram descobertas em 1990, mas grande parte ainda não foi identificada
Tipo Opinião
MACAÉ Evaristo esteve ontem no velório das vítimas do ataque (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil MACAÉ Evaristo esteve ontem no velório das vítimas do ataque

Em 1990, durante o governo de Luiza Erundina, o Cemitério Municipal Dom Bosco, em São Paulo, foi escavado para a busca de restos mortais de desaparecidos políticos da ditadura militar. No local, também conhecido como vala de Perus, foram encontradas 1.049 ossadas não identificadas. Desde então, apenas cinco das vítimas enterradas clandestinamente pelos esquadrões da morte do período de exceção no Brasil foram identificadas.

Houve esforços para que as ossadas fossem identificadas, permitindo que as famílias dessem um sepultamento digno a seus entes queridos, assassinados pelo Estado brasileiro. No entanto, segundo pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), os trabalhos foram reduzidos a partir de 2019 e encerrados em 2022, com os resultados incompletos. Diante do impasse, o Ministério Público Federal (MPF) moveu uma ação contra a União e outras instituições envolvidas no caso.

Após um acordo, o governo Lula, representado pela titular do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDH), Macaé Evaristo, realizará uma cerimônia para cumprir a "obrigação de apresentar um pedido formal de desculpas aos familiares e à sociedade brasileira pela negligência na condução dos trabalhos de identificação".

O evento será hoje, 24 de março, quando se celebra o Dia da Memória, pela Verdade e pela Justiça. A solenidade representa a admissão de uma negligência que revitimizou os familiares dos desaparecidos. Eles não apenas perderam seus entes queridos em ações durante a ditadura, mas também enfrentaram a inação de sucessivas gestões públicas para encerrar esse capítulo sangrento da história nacional, mesmo após a redemocratização. Para a cerimônia, também foram convidados para o evento o prefeito da capital, Ricardo Nunes (MDB), e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que, até o momento, não confirmaram presença.

O pedido de desculpas é um começo, um ato de respeito às vítimas e a seus familiares. Representa um passo significativo, pois traz visibilidade ao tema e demonstra comprometimento com o reconhecimento dessas ossadas. Além disso, é uma maneira de dimensionar os horrores cometidos durante a ditadura militar no Brasil.

Grande parte da América Latina sofreu durante os respectivos períodos de exceção. No entanto, enquanto países como Argentina, Chile e Uruguai puniram os responsáveis pelas atrocidades cometidas em suas ditaduras, no Brasil, a impunidade ainda prevalece. Há até grupos políticos que se dedicam a negar a memória das vítimas. Com este pedido de desculpas, a União reconhece os crimes cometidos pelo próprio Estado décadas atrás.

 

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